quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Globo deve pedidos de desculpas a todas as Palomas




Paloma é a bola da vez, é a nova febre dos desocupados que não tem nada mais interessante a fazer do que assistir filmes pornôs ou vídeos íntimos vazados na internet. E assim como Fran, Thamiris e tantas outras garotas que tiveram suas intimidades expostas, ela também se tornou alvo de apontamentos, julgamentos, críticas e humilhações, ou seja, se tornou vítima de toda espécie de linchamento moral. 
paloa
Mas, o que Paloma fez de errado? Absolutamente nada. Nenhuma garota que teve sua intimidade exposta fez algo de errado. Sexo? Todas fazemos. Filmar ou se permitir filmar ou fotografar? Quem jamais? Confiar? Quem nunca confiou e foi traída? Então o que há de errado? 
Com quem sofre linchamento moral em praça pública – atualmente o ambiente virtual – por conta de sexo não há nada de anormal ou errado. Há de muito errado na quebra de confiança, na deslealdade, no machismo. A confiança é a estrutura base de todas as relações sociais. Sem confiança não é possível existir relação. Nem mesmo comercial. Portanto o erro é de quem abusa da confiança de uma mulher para expor sua intimidade. 
Expor vídeo ou fotos íntimas de alguém, principalmente de alguém com quem divide a intimidade é uma atitude de calhorda, de mau caráter. Alias expor indevidamente a intimidade de alguém não só é moralmente reprovável como é crime. Quem mercê linchamento em praça pública é o autor do vídeo. Um machismo escroto, insegura, canalha e sem escrúpulos. Esse sim merece ser banido da convivência em sociedade. Ele merece ser evitado e enxotado por todas as mulheres. Afinal, quem vai querer estar ao lado de um indivíduo como esse? Fez com Paloma, faz com qualquer mulher!

Paloma Carvalho foi vítima, pronto. Ela teve um vídeo íntimo, em que aparece se masturbando, vazado na internet pelo namorado. Nas mídias foram criadas mais de 20 páginas para expor vídeos e fotos que supostamente seriam dela. Entretanto, conforme ela mesma informa em seu perfil no Facebook, foi vazado apenas um vídeo, o que ela fez, enquanto estava bêbada, e enviou para o namorado. Os demais vídeos, inclusive um em que aparece com vários garotos, não é ela quem aparece nas imagens. 

Nesse episódio, e nos demais, tão deprimente quanto a atitude do namorado, que vazou o vídeo e as fotos, é o linchamento moral que a garota está sofrendo. Os comentários dos seguidores das páginas, que só uma tinha mais de 40 mil visualizações, além de cruéis revelam o machismo a que as mulheres são submetidas por “tentarem” experimentar, vivenciar ou ousar dentro do que lhes permite a liberdade sexual. Infelizmente, a sexualidade feminina ainda é permeada de culpabilização, controle e cerceamento.  
“Ser mulher em uma sociedade patriarcal significa estar sob constante policiamento de  terceiros. Há muitas regras e papéis nos quais as mulheres devem se enquadrar; alguns aspectos, no entanto, são consideravelmente mais constantes e generalizados: entre eles, se destacam a cultura do estupro e o “slut shaming”, respectivamente o enquadramento de mulheres como seres sem agência para negar o ato sexual e o policiamento da sexualidade feminina. As demonstrações de slut shaming são bastante abrangentes: quantas vezes ouvimos que a roupa de uma mulher é curta demais ou seu comportamento atrevido? Há uma enorme variedade de insultos proferidos contra as mulheres, desde os mais pudicos, como “oferecida”, aos mais agressivos, como “vadia” ou “puta”. A sexualidade feminina e sua expressão são constantemente podadas, julgadas e restringidas. Blogueiras feministas.


Enfim, de acordo com a cultura machista a mulher não pode ter sexualidade, do contrário ela deverá pagar pelo petulância com a execração pública. Enquanto isso, nesse processo de exposição, o homem sempre, invariavelmente, sai ileso. Ou melhor, sai mais homem, mais macho, mais viril... E ainda tem gente que diz o machismo na nossa sociedade foi superado. Queriam o quê, praticar a mutilação genital feminina no Brasil também?
Enquanto Paloma e outras garotas sofrem linchamento moral na rua e na internet, o autor da novela Alto Astral, Daniel Ortiz, sob a supervisão de Silvio de Abreu, perde uma grande oportunidade de ajudar essas garotas. Na trama do folhetim, a personagem Itália também tem um vídeo intimo, onde faz sexo com Cesar, vazado na internet. Até aí “a arte imita a vida”. Entretanto, eis que o autor resolve inverter “o fluxo natural das coisas” e quem acaba vazando o vídeo é uma garota, não a vitima, a Débora, sua suposta rival. Sim, porque fora da ficção são as mulheres que vazam vídeos íntimos umas das outras. Preciso dizer que é uma ironia?

Daniel Ortiz
O autor errou feio, errou muito no enredo desse capítulo. Primeiro que a imensa maioria dos vídeos íntimos que vão parar na internet são vazados por homens. E boa parte deles são divulgados pelos ex-namorados, ex-companheiros ou ex-maridos. Foi exatamente por esse motivo que a prática ficou conhecida como pornografia de vingança ou no inglês porn revenge.


“Mas pensa na disparidade entre a quantidade de vídeos vazados por homens e os vazados por mulheres. Eu, particularmente, nunca ouvi falar de mulheres que tenham vazado vídeos ou de caras dizendo que foram xingados, demitidos e perseguidos após ter seus vídeos divulgados na rede. É uma falsa simetria, como eu disse antes. O autor deveria usar sua influência pra denunciar o que ocorre na esmagadora quantidade de casos e os danos que isso causa às vítimas, majoritariamente mulheres.” Anna Rosa.



Pisou na bola também quando reproduziu a ideia sexista de rivalidade entre às mulheres usando como motivação do vazamento vídeo a disputa por um homem, a velha “competição entre mulheres”.  As premissas de que mulheres são desunidas e competem umas com as outras são propagadas e alimentadas pelos homens para provocar a discórdia e rivalidade entre mulheres e dessa forma – os homens – obterem vantagens dentro da cultura machista. Reproduzindo esses preceitos sexistas Daniel acabou usando um problema sério, que até pode levar mulheres ao suicídio, de uma maneira tosca e irresponsável, apequenando, demonizando e amesquinhando as mulheres e alimentando o preconceito contra todas nós.
Daneil Ortiz poderia ter abordado o assunto pela perspectiva positiva. Usar o enredo para empoderar as garotas que já tiveram suas vidas destroçadas por uma violência como essa e para revelar o aspecto criminoso e moralmente reprovável dessa prática. No entanto, o autor optou por subverter a realidade e transformar o habitual agressor em vítima com o claro objetivo de naturalizar a violência de gênero. Expor a exceção (mulher expondo mulher) como se fosse regra acabou gerando a sensação de que mulheres não se importam de terem a intimidade exposta e isso acaba por culpabilizar a mulher, bem como, estimular este tipo de prática, se é que ela precisa de estímulos.
 
O autor deve desculpas à Paloma, às outras vítimas de pornografia de vingança, e a todas às mulheres. Todas nós nos sentimos atingidas pela forma leviana, distorcida e irresponsável como representou um drama tão sério.

 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O fenômeno bolsonarete



Nos últimos dias, lamentavelmente, temos assistido nas mídias um debate ferrenho entre os defensores de Bolsonaro e àqueles que repudiam suas atitudes e encabeçam o movimento "Fora Bolsonaro", abra o link clicando aqui. Digo lamentavelmente porque, enquanto feminista e defensora dos direitos humanos, entendo que figura como a do deputado não deveria ser representante do povo e menos ainda ter tantos defensores e tão empenhados quanto os que temos visto. No entanto, o que realmente me surpreende é que haja entre os bolsonaretes uma quantidade expressiva de jovens.
Embora não tenha me surpreendido a forma agressiva, intolerante, machista, homofóbica e violenta com que os bolsonates têm defendido o Deputado. Sempre atacando com palavras de baixo calão, ameaçando, coagindo e ridicularizando quem se posiciona contra o Parlamentar. Naturalmente, não fiquei surpresa com as estratégias porque só pode defender uma pessoa truculenta quem tem atitudes semelhantes as dele. Para quem ainda não conhece, o Deputado Jair Bolsonaro é filiado ao Partido Progressista (PP). Mas, ironicamente, ele deixa bem claro que seu posicionamento ideológico é de extrema direita.

Conhecido por sua postura homofóbica e seus comentários racistas, Bolsonaro, ex-militar, é contra o casamento igualitário, defende que bater em crianças e gays pode 'colocar um gayzinho na linha', além de se opor claramente aos direitos das minorias, que, na opinião dele, devem se calar e se curvar à maioria. É defensor do encarceramento em massa e da redução da maioridade penal.Ponte.
 


Defendendo esse discurso, altamente conservador, ele amealhou quase meio milhão de votos. Acredito que votos conquistados, em sua maioria, de pessoas que se sentem vulneráveis diante da violência. Mas, dentre eles também há uma parcela considerável de gente que diz acreditar que a família tradicional se encontra ameaçada por conta da conquista de direitos da comunidade LGTT. Outra considerável quantidade de pessoas parece que acabou se decepcionando com Partido dos Trabalhadores (PT). Instituição que tem sido frequentemente alvo de críticas ferrenhas desses eleitores. Some-se a essa lista aquela parte privilegiada da população que tem visto ameaçados seus privilégios pelas várias conquistas que a classe trabalhadora alcançou nos últimos anos, como a PEC das domesticas por exemplo. Sem esquecer a revolta de parte da classe média com o Bolsa Família/PT, programa que impediu que alguns miseráveis vendessem sua força de trabalho por um prato de comida. Também não deixando de levar em conta a insatisfação com as cotas, mecanismo que permitiu que os pobres começassem a circular no ambiente universitário não mais como porteira/o ou faxineira/a e sim como estudante, e alguns deles “invadindo” espaços tradicionalmente ocupados pela elite, como por exemplo, a faculdade de medicina. Acrescente-se ao rol de eleitores os seus históricos devoto que seriam os militares e as viúvas da ditadura militar, os que se reivindicam fascistas e os simpatizantes do regime.
Por outro lado, entendo que numa sociedade em crise, onde a violência se tornou uma ameaça real e onde todos se tornam vulneráveis, as pessoas tendem a cobrar por fórmulas imediatas, fáceis e rápidas de sanar com esse problema.  No entanto, o que não se leva em consideração ou não se compreende é que não existe solução rápida para o problema da violência. A defesa da redução da maioridade ou do encarceramento sistemático e do extermínio de jovens é uma clara demonstração de que ainda não aprendemos ou não entendemos o tamanho do impacto dessas medidas para a própria população e para os cofres públicos (seja introduzindo pessoas cada vez mais jovens na universidade do crime, seja na produção e reprodução das injustiças e das iniquidades sociais ou até mesmos nos gastos para a manutenção de penitenciárias). O problema da violência se resolve com justiça social e educação e não exterminando ou encarcerando adolescente pobres/negros. Ou será que alguém ingênuo o suficiente para achar que a “força da lei” atingiria todas as classes indiscriminadamente.

Precisamos entender também o que há por trás doutra questão maxi valorizada pela direita e ultradireita, e um dos elementos do discurso de Bolsonaro, é a questão da família, alardeada aos quatro ventos que se encontra ameaçada pela homossexualidade. Ora, se estamos falando da família tradicional, essa já foi destroçada pela cultura machista faz tempo, ou a reaçada esqueceu os abusos, o abandono e a violência domestica promovidas pelos homens! Esse povo machista esqueceu que hoje quase 40% das famílias brasileiras são chefiadas por mulheres. Em que mundo esse povo vive? Devem também ter esquecido que quem gera filhos e os abandonam ou abortam são os casais heterossexuais. No entanto, é mais fácil culpar os homossexuais pela degeneração da família tradicional e usar o discurso homofóbico, com a desculpa que estão seguindo orientações bíblicas, para promover o preconceito e o desejo de extermínio dos homossexuais. Compreendo perfeitamente que parte do preconceito contra a comunidade LGBTT se deve a falta de conhecimento sobre orientação sexual divergente da heterossexualidade. Mas, a outra parte, a de homofóbicos conscientes, essa representada pela ultra direita, não quer realmente conviver com a diversidade e por isso pratica todo tipo de ataque. E é essa última parcela da sociedade que anseia por exterminar homossexuais. O que há por trás do machismo e da homofobia é o desejo e a vontade de manter os privilégios e a hegemonia do homem branco heterossexual sobre os outros grupos.

Quanto a corrupção, ela realmente está entranhada em todas as instituições e isto realmente causa revolta em toda a população. Quem é que não deseja viver num país sem corrupção? Mas será mesmo que estamos preparados para abandonar o velho jeitinho brasileiro? Ou você acredita mesmo que o “da cerveja” não é propina? Que uma camisa de presente de natal a fim de facilitar um processo ou fazê-lo andar não é mesmo que 25% de propina numa licitação? Temos sim que combater a corrupção, mas temos de combate-la em todas instâncias desde às pequenas cometidas no cotidiano. Entretanto, o que a direita prega é prender o ladrão de galinha e não punir os envolvidos na sonegação de impostos, tais como a Família Marinho ou estelionatários como o Eike Batista e Paulo Maluf.
Então, o Partido dos Trabalhadores (PT) tem sido usado pelos bolsonates como sinônimo de corrupção para legitimar os impropérios ditos pelo Deputado. E ser a favor da cassação do Parlamentar significa ser petista ou pró-corrupção, ser comunista, fã de Cuba, Fidel e Guevara, defensor de bandido ou até mesmo, como alguns preferem chamar, ser da esquerda caviar. Interessante que a luta em defesa do Deputado parece que acaba rivalizando diretamente com o “fora PT”. Para os eleitores de Parlamentar e outros conservadores o PT representa exatamente a permissividade com a violência, com a “libertinagem” e a corrupção. Pautas exaustivamente abordadas pelo Deputado sempre em tom crítico, jocoso e violento. Dizer/acusar os defensores da cassação de serem eleitores do PT, da esquerda caviar, comunista ou que são defensores de bandidos é uma tentativa de deslegitimar, desvirtuar ou tirar o foco da luta defesa dos direitos das mulheres e de outras minorias e invalidar o pedido de cassação.
Então, é bom avaliar a qualidade dos discursos que a gente aplaude e/ou reproduz, muitos deles tem a única finalidade de privilegiar uma classe. Bolsonaro, que não é bobo e nem nada, se utiliza do discurso de defensor da população e contra os marginais, reivindica pra si o título de chefe de família e de homem de honra ilibada agradando a direita e ultradireita, como também aos incautos que não conseguem enxergar a nocividade do seu discurso, para arrebanhar eleitores e votos. Sendo assim, ele se utiliza da tríade, violência, moralidade e corrupção para continuar usufruindo de todos os privilégios que os políticos gozam, se perpetuando no poder, e, de quebra, eleger membros da sua família. Apesar do discurso por mudança na sociedade, na verdade, ele não tem interesse em mudança alguma, ele não quer mudar. Para ele, quanto pior melhor, pois, caso as coisas realmente mudem seu discurso perde força, ele perde seu gado e portanto, perde o poder que tem hoje. O Deputado faz parte de um grupo privilegiado desse país. Ou alguém já parou observar que o Parlamentar é branco, se diz heterossexual, e pertence à classe média alta? Será que a maioria no nosso país está nesse perfil? Portanto, os ideais de Bolsonaro são os ideais do grupo que ele pertence, a elite. 

Enquanto isso, os seus defensores, os bolsonarestes, pertencem ao estrato inferior da pirâmide social. São aquelas pessoas que sofrem vários tipos de opressões, inclusive os negros, a comunidade alvo principal das abordagens policiais (categoria a que pertence o deputado) e principal vítima do extermínio entre a população jovem. Outro grupo oprimido que sai em defesa do Deputado é composto por mulheres, vítimas majoritária de estupro, ameaça, coação e violência física, as mesmas patrocinadas por Bolsonaro contra Maria do Rosário por mais de uma vez, exceto pelo estupro, que segundo ele não o faria porque ela não é “merecedora”. O grupo maior, o de pessoas pobres, que engloba os retratados anteriormente, está sendo ameaçado de perder os poucos direitos que tem, o de poder frequentar a universidade ou ter tratamento igualitário nos concursos, receber o Bolsa Família e outros benefícios justamente por conta da doutrina defendida pela Deputado. Sem falar que é exatamente esse grupo que é chamado de vagabundo. Sim, porque para a direita, pobre que recebe Bolsa Família é sinônimo de vagabundo. Contraditório não?