segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Beijo gay na Globo em plena manhã - Avanço no combate a homofobia




Saindo da cômoda posição conservadora, a reacionária Rede Globo de televisão, exibe beijo gay em plena manhã da última quinta-feira, dia 14. 



O tão esperado beijo entre dois rapazes, que estava previsto pra rolar no horário nobre, na novela das 9:00 h, foi vetado pela direção da emissora. Enquanto as entidades ligadas aos movimentos LGBT ainda lamentavam a censura da cena, Fátima Bernardes saiu na frente e exibiu o pedido de casamento, que um rapaz faz ao seu parceiro, e um beijo entre eles, num bar de Maringá, no Paraná durante um flash mob. Durante a brincadeira os rapazes se beijaram e trocaram carinho.

O vídeo (aqui) foi exibido com o intuito de acender a discussão sobre educação sexual e homossexualismo e a responsabilidade dos pais em conversar sobre o assunto com os filhos. O que surpreendeu foi a forma de abordar o tema, de uma forma natural e sem censuras, o que é espantoso em se tratando da Globo, uma emissora conhecida pelo sua dificuldade em abordar temas delicados ou polêmicos.

O movimento da emissora, no sentido de exibir as imagens, parece uma tentativa de naturalizar a visualização de cenas como as do vídeo. Num país como o nosso, nitidamente homofóbico, esse movimento pode representar uma tentativa de rompimento com esse modelo de sociedade, androcêntrica e hetero normativa.

A prática de carinhos e carícias homoafetivas em público permanece tabu. A Nossa sociedade ainda não aprendeu a lidar com a diversidade sexual (Pra ser precisa, a sociedade ainda não sabe lidar nem com a sexualidade hetero). A exibição da cena, apesar de representar um marco, passou despercebida pelo grande público. Talvez tenha sido assim por conta da maneira extremamente natural que o material foi veiculado. 

A produção tratou o tema de forma despretensiosa, sem alardes. Foi uma boa sacada mostrar pessoas que encararam a cena de forma bastante natural, como pessoas que se sentiram incomodadas com ela. Com essa medida foi possível verificar a quantas andam o preconceito na nossa sociedade, e ele anda bem elevado.

Bem, para além do simbolismo, o passo que a emissora deu foi bastante corajoso, veicular a cena logo pela manhã poderia ter despertado a ira dos conservadores e ter gerado uma explosão de protestos e manifestações contra. No entanto, a Globo exibiu a cena justamente para crianças e seus pais, e o ambiente escolhido para a exibição foi uma escola, o que pode ter deixado os “baluartes da moral e dos bons costumes” desconfortáveis para fazerem criticas a respeito.

Apesar de toda a estratégia e cuidados o gesto gerou muitas críticas, principalmente dos evangélicos que acusam a Globo de querer acabar com a família. É lamentável que existam pessoas que creem que a simples exibição de cenas de carinhos homoafetivo possam ameaçar a existência da família. 


O que ameaça a família, e me refiro a família convencional como a pregada pelos evangélicos, é o machismo que eles fomentam, é idealização da mulher submissa e resignada, é a forma autoritária com é tratada a mulher. O que acaba com a família é a fome, é o desrespeito e a falta de afeto.

Muito embora desagrade a muita gente, a gradual veiculação de cenas como estas pode fazer toda a diferença no combate ao preconceito e homofobia. A TV também tem a função de quebrar paradigmas e apontar para novas direções. E surpreendentemente a Globo aponta para a direção da tolerância e o respeito a diversidade sexual.    


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Menina de 17 anos se mata após ter vídeo íntimo vazado na internet



 
Infelizmente Júlia não suportou a vergonha de ter sua intimidade exposta na internet e resolveu acabar com a própria vida, se enforcando com o fio de sua prancha de cabelo. A polícia de Parnaíba ainda investiga o caso.

A garota que aparece mantendo relações sexuais em vídeo, que ela por engano publicou na internet, foi encontrada morta, no último domingo (10), pela tia com o fio da prancha envolto no pescoço. Uma tragédia anunciada. Antes de se matar Júlia postou seu adeus no Twiter.


Júlia estava começando a vida, era ainda uma garota e já tinha de lidar com a execração pública, e o pior, ter de lidar com a culpa de ter feito o vídeo e por engano coloca-lo na internet . Júlia sabia que sua vida estava marcada pra sempre. Pois ela sabia que o vídeo iria viralizar, um vídeo com esse conteúdo é um prato cheio pra os canalhas de plantão, principalmente o machistas.

Quem alimenta esse tipo exposição são pessoas doentes, inseguras, sem caráter e que não têm o mínimo de respeito para com o outro. É uma massa de hipócritas anencéfalos que vive a observar e rir da desgraça alheia.

Só divulgam esse tipo de lixo na internet porque há público para ver, compartilhar e rir das vítimas. No caso de Fran, não há como culpar apenas o canalha que fez o vídeo e o divulgou, quem assiste e repercute o material também é responsável pela difamação. Da mesma forma, as pessoas que se aproveitaram do engano da garota e compartilharam o material. Não há como justificar essa insanidade com a desculpa de que a curiosidade foi maior, porque não há mais o que se descobrir em matéria de sexo. Já se viu de tudo, há vídeos, profissionais, para mostrar tudo nos seus mínimos detalhes, inclusive de graça e na internet.

Se já tivéssemos aprendido a lidar com a exposição desse tipo de material e tivéssemos maturidade para ignorar esse tipo de exposição, essa garota não teria se sentido impelida a tirar a própria vida. Foi uma bobeira da garota o vazamento do vídeo, mas se não fosse a canalha que esta sempre de prontidão para se aproveitar para divulgar e julgar, talvez, a menina  provavelmente não se sentiria amedrontada a ponto de tirar a própria vida.

O que alimenta esta histeria coletiva é o desejo de execração da mulher, é desejo de punição da mulher que se dá o direito de viver sua sexualidade. Os vídeos íntimos divulgados sem o consentimento busca violar a pessoa no que ela tem de mais íntimo, a sua sexualidade. A exposição da intimidade de uma pessoa é um estupro, e quiçá, com danos ainda mais severos e irreversíveis do que o estupro que viola a carne. Ele atinge a alma, fere profundamente a individualidade da vítima, é um estupro que se repete cada vez que alguém vê o material ou fala dele.

Lamentavelmente vivemos ainda na era do pão e do circo, vivemos no tempo de pouco respeito pela privacidade alheia e do direito do outro. Estamos nos socializando com canalhas que não se importam em devassar nossa intimidade. Ai do seu lado, nesse instante, deve ter um canalha estúpido assistindo esse tipo de lixo. Pessoas que não se importam em violar a intimidade alheia eu considero lixo, escórias, verdadeiros párias. E não me venham defender esse tipo pária porque não rola.

Querida, saiba de uma coisa; se ele rir e julga a vítima desse tipo de situação, pode ter certeza absoluta que se ele tiver oportunidade de fazer o mesmo com você, ele fará. Não confie em homem moralista que tenta desqualificar as vítimas desse tipo de engano e que rir da exposição, pois são canalhas. São pessoas que acham que estão acima de tudo e todos. São pessoas que se sentem no direito aniquilar com o outro por conta de seus “erros”, são hipócritas que fazem tudo diferente do que falam ou cobram dos outros.

Mulher tem o direito de fazer sexo com quem e quantos quiser, também têm o direito de filmar suas relações sexuais sim, isso não errado e muito menos crime. Errado é denegrir a imagem de alguém, além de errado é crime. Vergonhoso e reprovável é atitude e o caráter de quem difama ou denigre a imagem de uma pessoa com a qual teve algum tipo de relação.

Tá na hora de nós mulheres darmos o troco nessa escória, não dá pra confiar em homem que acha “engraçado” a exposição de uma mulher dessa forma. Não devemos aceitar críticas, piadinhas ou julgamentos de quem quer que seja por conta desse tipo de situação.

Vamos nos solidarizar Júlia (pelo menos com relação a sua imagem), com Fran, com Denise e com tantas outras que vier a sofrer este tipo de execração. Não vamos tolerar risinhos de canto de boca ou comentários debochados sobre a exposição de mulheres. Vemos demonstrar nossa intolerância com o preconceito ou com a canalhice dizendo para os “baluartes da moral e dos bons costumes” que eles estão sendo preconceituosos e canalhas em seus comentários e atitudes.

Chega de ser cúmplice desse tipo de escoria, chega de dar munição pra esse tipo de gente. Quantas Júlias, Frans ou Denises ainda terão suas vidas destroçadas por canalhas que não têm o menor respeito pela intimidade alheia?

Esta na hora de repensarmos a nossa sociedade. Esta na hora de ocuparmos nossa mente com coisas produtivas. Não da pra perdermos tempo nos ocupando com os “vacilos” alheios. Precisamos crescer, não se tolera que ainda hajamos como se tivéssemos 7 anos de idade e ainda tivéssemos na fase de achar tudo engraçada e vergonhoso.

Perdemos uma garota de 17 anos, uma menina que tinha vida inteira pela frente. Perdemos Júlia para a falta de caráter, para a hipocrisia, para o desrespeito, para a intolerância e para o machismo. O mínimo que se esperava das pessoas que faziam parte do ciclo de amizade dela era que lhe apoiassem e se solidarizassem com ela no intuito de apagar o vídeo.

Sinto profundamente que Júlia tenha partido, sinto profundamente que Júlia não tenha suportado a dor, a humilhação, execração pública. Sinto muito que Júlia não tenha suportado o estupro coletivo, porque cada um que compartilhou o vídeo ou a julgou a estuprou.

Que a morte de Júlia sirva para dimensionar o quão pesado é o fardo que se tem de carregar quando se é vítima desse tipo de exposição. Que essa tragédia possa motivar a criação de leis bastante severas para punir o crime de difamação pela internet.

À família de Júlia meu profundo e sincero lamentar por sua perda.



quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Execração pública de mulheres na França do pós-guerra



A libertação da França foi um período complexo de alegria misturada com entusiasmo, um pouco de medo para alguns e tristeza para outros.



Quando se trata de evocar a libertação, curiosamente, é sempre as mesmas imagens que vêm à mente. As cenas de júbilo, a resistência desfilando pelas ruas das cidades e aldeias libertas, cerimônias patrióticas, bandeiras penduradas nas ruas, pessoas dançando e tocando em lugares públicos. Tudo isso se misturando ao corte forçado dos cabelo de "colaboradores" dos alemães, uma das práticas que eram aplicadas durante a "Épuration Légale" ou “Purga legal”.
  


A prática que consistia em cortar o cabelo de pessoas consideradas traidoras, indignas ou colaboradoras do inimigo, se configurou num ritual maciçamente espalhado por todo o território francês entre 1943-1946. As cenas eram exibidas com status de espetáculos públicos por toda a França. Os funcionários atacavam os prisioneiros alemães e todos os que foram acusados de comportamento indigno.



Entre eles, as mulheres que tiveram relações emocionais com os soldados alemães. Para a maioria delas, é quase sempre a mesma história, a da França ocupada em que as meninas, por descuido ou imprudência, cruzando a zona proibida e cometendo o impensável, se envolviam no o ato de adultério com inimigo da nação.

Em sua tese , Fabrice Virgili , identifica que cerca de 20.000 mulheres tiveram os cabelos cortados no período. Deste total apenas metade foi acusada de "colaboração horizontal", ou seja, ter tido relações sexuais com inimigo. Um terço das mulheres foram presas tendo comprovada ou não acusação.


 

Ao contrário dos Julgamentos de Nuremberg, a "Épuration Légale" foi conduzida como um assunto interno francês. Aproximadamente 300.000 casos foram investigados, alcançando os mais altos níveis do governo colaboracionista de Vichy. Mais da metade foram encerrados sem acusação. De 1944 a 1951, os tribunais oficiais na França condenaram 6.763 pessoas à morte por traição e outros crimes. Apenas 791 execuções foram efetivamente realizadas. No entanto, 49.723 pessoas foram condenadas a "degradação nacional", que consistia na perda total de direitos civis.

A campanha para identificar e massacrar os colaboracionistas do regime alemão puniu cerca de 30.000 mulheres com humilhação pública, por suspeita de que tiveram ligações ou porque eram prostitutas e se relacionaram com os alemães. Algumas vezes, a coisa toda não passava de briga de vizinhas -uma denunciando a outra como acerto de contas pessoais- ou então uma denúncia vazia de participantes realmente ativos, que dessa forma tentavam salvar sua pele desviando a atenção de sua cooperação com as autoridades da ocupação.
O calvário das viúvas da ocupação - Metamorfose Digital

As mulheres que tiveram, durante ou após um grande conflito, relacionamentos íntimos, geralmente voluntários (embora não se exclua os involuntários) com homens inimigos sofreram várias humilhações , incluindo ter o cabelo cortado, numa clara execração pública. O sentido do corte seria a expurgação ou limpeza do indigno. Muito embora o sentido sexista da prática se apresente de forma muito mais marcante.

O caso é que muitas coitadas que tiveram algum tipo de relacionamento com os soldados e oficiais alemães não tinham culpa, o que elas iriam fazer? Elas eram reféns de um estado ocupado. Mas a ira e a necessidade de encontrar bruxas para caçar não permitia o razoamento, se houvesse um indício qualquer, a coitada tinha sua cabeça raspada e era exposta em público como desgraça da nação. Muitas vezes só raspar a cabeça não bastava, eram despidas, abusadas, desenhavam a suástica nos seus rostos, ou queimavam a marca com ferro em brasa na testa.

Estas mulheres foram reconhecidas como "nacionalmente indignas" e sofreram, além da degradante humilhação em público, penas de seis meses a um ano de prisão, seguida da perda total de direitos civis por mais um ano, quando ainda eram violentadas e insultadas nas ruas. Muitas não suportaram a vergonha daquela situação e sucumbiram cometendo suicídio.

O calvário das viúvas da ocupação - Metamorfose Digital



O caratér da acusação é a primeira divisão de gênero quanto aos encargos de ambos, a cooperação económica ou política, que poderia ter sido praticada por homens e mulheres, foram ignoradas, restando às mulheres as acusações de suposta “colaboração horizontal” com o inimigo.

A natureza de gênero na “colaboração” identifica um discurso específico, que associa a imagem da mulher com a incapacidade de agir por sua própria iniciativa. Assumi-se como verdadeiro o  pretenso paradigma de que a mulher segue o homem com quem ela compartilha sua vida (mulheres são todas dirigidas por seus maridos), em conformidade com o estereotipo de imprudente, irresponsável, gananciosa ou imoral. Estes pretensos argumentos foram levados em conta por alguns tribunais para explicar as ações das “colaboradoras horizontais”, na qual  a " fraqueza do sexo frágil" fortaleceria os aspectos da colaboração.


“Tosquia”, ou corte forçado dos cabelos, seria uma pena menor, já que as relações sexuais com os alemães não têm qualquer influência sobre o curso dos acontecimentos no decorrer da guerra. A “tosquia” seria um ato simbólico de culpa sexual. O corte de cabelo não era o castigo de cooperação, mas a punição de colaboração sexual.
É preciso destacar que a mulher que tem o cabelo cortado assume a ofensa. Ela é punida em seu corpo, então seu corpo é culpado. A destruição de um dos atributos de sedução (o cabelo), implica que seu crime tem relação como sua sexualidade.
 


As primeiras “tosquias” apareceram em 1943, entre março e junho, quando a colaboração foi identificada como traição em alguns departamentos (Baixo Loire, Isère, Ille-et-Vilaine), mas eram ilegais e não foram muitas. Elas foram feitas por grupos resistentes que a usuram como um meio de transmitir o medo em outro acampamento. No entanto a primeira onda ocorreu entre junho e setembro de 1944, como a libertação do território e tem no fim do Verão de 1944.


As “tosquias” eram  realizadas tanto nas grandes cidades, como em áreas rurais e geralmente realizadas nas ruas, praças e salões da cidade, em público para que todos possam ver, e eram retransmitidas e descrita pela imprensa e rádio de Londres.

Nisso tudo há ainda um aspecto que permaneceu vergonhosamente nas sombras por décadas: as crianças nascidas de soldados alemães. De acordo com várias estimativas, nasceram ao menos 200 mil dos chamados "filhos da ocupação", mas estes sofreram menos que as mães, quando o governo limitou-se a proibir nomes alemães e o estudo da língua alemã. Entretanto não foram poucos os casos de "filhos da ocupação" que sofreram algum tipo de ataque e segregação. O calvário das viúvas da ocupação - Metamorfose Digital

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