segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Absorvente promete prevenir HIV, inclusive durante sexo oral



Semana passada vi uma matéria no Yahoo bem interessante. O artigo informava a respeito de um antiviral que poderia ser usado por garotas na prevenção à contaminação com o vírus da Aids. De acordo com a matéria o medicamento seria indicado inclusive pra a prevenção da contaminação durante relações sexuais entre mulheres.
Camisinha de  lingua
“Cientistas estudam um absorvente interno que impede a contaminação por HIV. Um grupo de biomédicos da Universidade de Washington está fazendo testes de um absorvente interno com remédios que não permitem a contaminação por HIV. A ideia é que ele seja usado antes do sexo e o medicamento seja liberado, em grandes quantidades, no corpo. O estudo, publicado no jornal Antimicrobial Agents and Chemotherapy, explica o funcionamento do dispositivo: em contato com a umidade, as fibras do absorvente interno se dissolvem e liberam o medicamento Maraviroc, que hoje é utilizado para tratar pacientes com o vírus, mas também é capaz de prevenir que ele se instale em pessoas saudáveis”. Carol Patrocínio/Yahoo. 

Lençol de borracha
Fico imensamente feliz que a mulher possa de alguma forma ser protagonista na proteção a sua saúde quando o assunto envolve sexualidade. No entanto, me preocupa um pouco que, assim como ocorre no caso da contracepção oral e injetável, a responsabilidade de prevenção/proteção contra HIV/ Aids recaia exclusivamente sobre a mulher. Hoje, a responsabilidade sobre uma gravidez não planejada ou indesejada sempre pesa sobre a mulher. É sempre ela que não se cuidou ou que não se preveniu. Será que esse novo método de prevenção não acabaria sobrecarregando a mulher? Outra questão; será que essa não se tornaria a única barreira contra o vírus nas relações heterossexuais? Caso isso ocorresse, quais os impactos dessa prática para a saúde feminina?
Camisinha de dedo
O Brasil está entre os países em que a epidemia do HIV/AIDs atinge cada vez mais as mulheres, em sua maioria casadas ou vivendo com parceiro fixo, com baixo nível educacional,  escasso acesso a informações e precário acesso a serviços de saúde. Com um cotidiano marcado pela falta de autonomia ou de poder na relação com os homens, em geral as mulheres não conseguem negociar com seus parceiros a adoção de atitudes preventivas nas relações sexuais.” Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) 
 
Particularmente, acredito que essa medida possivelmente não se converta num método usual de prevenção ao HIV, já que, segundo a reportagem informa, uma grande quantidade de medicamento é liberado no organismo e isso deve ter impacto sobre a saúde da mulher. Bem, esse é um aspecto da discussão, outro seria o uso como método de prevenção durante o sexo oral.
 
É claro que a notícia me deixaria bastante feliz caso, finalmente, mulheres que fazem sexo com mulheres pudessem contar com um efetivo método de proteção à contaminação pelo vírus da Aids, já que esse grupo não dispõe atualmente de métodos de prevenção destinado a especificamente a elas ou a proteção durante o sexo oral aplicado na mulher de forma geral. No entanto, como coloquei acima, devido a alta dosagem de medicação, acredito que ainda não seja dessa vez que esse grupo venha a ser contemplado com um método de prevenção a ser usado em todas as relações. 

Instrução para corte da camisinha masculina e da luva
Felizmente, outras alternativas vêm sendo estudadas, inclusive, aqui no Brasil desde a década de 90. 
Sabendo da posição do Brasil como um dos campeões em número de casos de AIDS, do crescimento da infecção nas mulheres e da seriedade e grande experiência da UNICAMP em estudos de reprodução humana, incluindo métodos anticoncepcionais, os pesquisadores norte-americanos propuseram uma colaboração entre a Rush University, a UNICAMP e o Centro de Pesquisas em Doenças Materno-Infantis (CEMICAMP). Nesta colaboração, um dos produtos em estudo, que contém componentes já utilizados em outros produtos no Brasil, já testado em animais nos EUA e considerado seguro, seria produzido numa farmácia de manipulação brasileira seguindo os padrões de Boa Prática laboratorial exigidos pelos órgãos de controle nacionais e internacionais sob supervisão dos farmacêuticos brasileiros e norte-americanos, e posteriormente seriam iniciados os chamados estudos clínicos, em humanos, através de testes iniciais de tolerabilidade. O nome do produto proposto para estes testes clínicos no Brasil é Acidform e os ingredientes incluídos em sua fórmula já são utilizados em medicamentos de uso vaginal, retal e/ou oral. Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA). 
Modo de usar
 Enquanto esses métodos não chegam ao mercado e eles não se tornem seguros para uso em todas as relações, alguns métodos preventivos adotados atualmente, dentre eles, o uso de camisinha feminina pode ser uma alternativa, tanto para ser usada durante a penetração (numa relação heterossexual) quanto para a proteção da vulva no decorrer do sexo oral. Outras alternativas de proteção são o preservativo de língua, luvas de látex e camisinhas recortadas (formando um lençol pra envolver a área), lençol de borracha para procedimento odontológico e plastifilme (instruções de corte e uso nas figuras ao longo do texto). Para introdução dos dedos podem ser usadas as camisinhas de dedos, (dada a dificuldade de ser encontrada luvas de látex podem ser usada como alternativa). Os brinquedos eróticos estilo dildo, quando compartilhados, devem ser protegidos pela camisinha. Outros brinquedos que entrem em contato com fluidos corporais e não possam ser adequadamente protegido ou higienizado o ideal é que não seja compartilhado. 
Plastifilme

“Um levantamento feito pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo com 145 lésbicas entre 18 e 61 anos de idade revela que apenas 2% delas se previnem durante o sexo para evitar doenças sexualmente transmissíveis (DST), como o vírus da Aids. Segundo o Centro de Referência e Treinamento DST/Aids da secretaria, responsável pela pesquisa, as mulheres que mantêm relações com suas parceiras desconhecem que podem pegar as mesmas doenças que as heterossexuais”. Bem Estar. 

Camisinha feminina
Dados adicionais envolvendo a saúde da mulher lésbica podem ser obtidos no link acima, inclusive com as respectivas estatísticas. Seria bem interessante dá uma olhada. Você também pode dar uma conferida de como fazer sexo seguro (oral e outras práticas) nas páginas Duas Damas e Sapatômica. 

Instruções de uso

“vale lembrar que a prevenção é muito importante, não só no caso da infecção pelo HPV como também pela possibilidade de contaminação por qualquer outra doença sexualmente transmissível. Então, lembre-se sempre de conversar com a parceira sobre DST’s. Se vocês têm uma relação legal e querem parar de utilizar alguns métodos de prevenção, vale pedir para que ela faça os exames de DST’s  e fazer você também. Eu sei que isso pode ser um pouco desagradável e que, mesmo que os testes tenham resultado negativo, a possibilidade da presença de alguma doença ainda existe, mas vale a pena utilizar mais esse meio de prevenção. E mais, se você já foi diagnosticada com alguma DST, não esconda isso da sua parceira. Ela tem o direito de saber e você tem o dever de contar. Só assim vocês vão poder conversar abertamente sobre o assunto e sobre como impedir a contaminação dela. Além disso, lembre-se de se conferir antes das relações sexuais para ter certeza de que não existe nenhuma lesão na cherry (vulva) ou em suas proximidades.” Sapatômica.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Vítimas de estupros estão com seus direitos ameaçados



“O futebol é ópio do povo”. Nada define melhor o brasileiro que seu espírito festeiro, principalmente em se tratando de torcer e comemorar pelo time de coração. Tomando emprestado as palavras de Luiz Caversan, jornalista, “o futebol serve para entorpecer corações e mentes das pessoas com as emoções que proporciona.[...] De maneira que todos nos tornamos uns lesados, tontos e inebriados pelos gols, dribles e grandes defesas, permitindo assim que políticos e governantes nos explorem e nos enganem. No fundo, a coisa é sempre a mesma: fortes emoções a cegar, entorpecer, nublar as ideias para que se possa ludibriar o povo, surripiá-lo em seus direitos, tirando-lhe o livre arbítrio.”

Então, de repente, temos o maior evento futebolístico mundial na nossa casa. E rapidamente a Copa do Mundo no Brasil configurou-se, segundo os alardes da imprensa, “a copa das copas”. Ufanismo ou não, o evento paralisou o país. Entre feriados, restrições legais, estado de exceção e outros, nossos parlamentares aproveitaram-se do entorpecimento do povo, apesar do pífio desempenho da nossa seleção e do impronunciável número de gols sofrido contra a Alemanha, para cercear liberdade, caçar e propor cassação de direitos conquistados a duras custas.

E, na “calada da noite”, enquanto estávamos distraídos festejando o desempenho do país na recepção da Copa do Mundo ou lamentávamos os resultados dos últimos jogos da nossa seleção, a bancada conservadora do Congresso apresentou três Projetos de Lei que visam derrubar integralmente ou diminuir a abrangência da
Lei 12.845 (veja no parágrafo 1º no final do texto) que estabelece garantias às vítimas de violência sexual (oferta imediata da pílula de emergência, informações sobre os direitos da vítima, incluindo orientações sobre aborto em casos de gravidez decorrente de estupro).
Observe através do relato logo abaixo, de autoria de uma garota de 16 anos, de quem a bancada religiosa quer caçar direitos. 

“Eu moro no mesmo terreno do meu estuprador.
Eu tinha 4,5 e 6 anos quando aconteceram as primeiras vezes.
Eu moro no mesmo terreno do meu estuprador, e às vezes, de noite, ele bate na janela do meu quarto.
É, eu tenho muita dificuldade pra dormir.
Ele chama meu nome.
Sussurra, com aquela voz horrenda.
Minha mãe aluga uma casinha ali, pra ele, a mulher e a filha.
Eu insisti pra ela não fazê-lo.
Eu pedi.
‘Ele é trabalhador. Para de implicância’
Minha mãe o viu, em pleno ato, uma vez.
Mas é, implicância minha.
 
Uma noite, no mês passado, minha mãe saiu pra ir na igreja com meu irmão.
Nesse dia em especial, ela não trancou a porta.
Eu não tranquei a porta do banheiro também, por achar que estava sozinha em casa.
Entrei no banheiro, me despi e liguei o chuveiro. A agua correu.
Ele veio por trás e me agarrou, tentei gritar, mas ele com a mão forte esmagou minha pele no aparelho, me calando, ou quase.
Ele me jogou no chão e me estuprou.
Foi pior dessa vez, talvez pela minha consciência do que tava havendo de fato.
Sangrei e chorei, mas ele acabou rápido.
Me lavei, chorei e não consegui contar nem pro meu maior amor.
Sim, eu ainda me sinto sujo, mesmo sabendo que não foi minha culpa.
Eu queria morrer.

 Os dias passaram, e eu não dormia, não comia, não sentia.
Até que...
Até que o tempo passou e eu não menstruei. Só um sangramento leve.
Nem cólica.
Eu tava grávida daquele monstro.
Daquela aberração.
Então contei tudo pra minha parceira.
Ela prometeu me ajudar, prometeu me apoiar, e apoiou. Eu tomei litros do famoso chá de canela e nos dias que se seguiram veio todo o sangue. As cólicas. Chorei de alegria.
Não tive a aberração.
Eu não.
Mas minha janela ta trancada.
E eu moro no mesmo terreno do meu estuprador.” Sarah (nome fictício)
 

Confesso que conversar com ela sobre o caso foi uma das tarefas mais difíceis que tive ultimamente. Senti cortar na pele suas palavras e a dor da impotência por não poder fazer nada para ajuda-la. Também me sinto indignada que as pessoas que poderiam endurecer a lei contra abusos e dessa forma ajudar a ela e a outras vítimas jogam no time dos estupradores.

Como coloquei acima, a autora desse relato tem apenas 16 anos, é quase uma criança e vejam só com quanta coisa precisa lidar: estupro, gravidez, omissão da família. Infelizmente, como muitas outras meninas e mulheres, ela não apresentou queixa à polícia. Da mesma forma, não pôde contar com o apoio da família para lidar com a violência e nem com a eventual gravidez. Aos 16 anos, ainda sem saber exatamente o que ocorria com ela, teve de buscar ajuda e assistência de outra garota que não tinha a preparação adequada pra lidar com a situação. O ideal para lhe prestar auxilio seria um profissional treinado para atuar nesses casos uma equipe que pudesse cuidar da sua saúde física e psicológica. 
Sarah, durante a nossa conversa, demonstrou uma maturidade precoce, diz estar bem, que quer seguir sua vida normalmente e que seu caráter não será resultado dos abusos, embora tenha insônia e seu sono seja sempre turbulento. Afirma também, que alivia boa parte da tensão desenhando e escrevendo e que isso a ajuda pegar no sono. O último estupro ocorreu somente há dois meses. No entanto, os abusos ocorreram principalmente entre os 4 e 6 anos
Durante a minha conversa com essa garota duas coisas ficaram bem claras; uma é que a estrutura patriarcal protege os homens em detrimento de mulheres e crianças; outra é que o Estado é falho na garantia de proteção dessas pessoas. Temos uma sociedade que é tolerante com as agressões e parlamentares que até elaboram leis contrárias aos direitos já reconhecidos que beneficiam esse grupo. Leis que são feitas por homens que visam punir a mulher por crimes praticados por homens. Entretanto, só pra constar, gostaria de deixar um recado aos senhores Eduardo Cunha e Hugo Leal, não esqueçam que pouco mais da metade do eleitorado brasileiro é feminino.

Lei 12.845. Dispõe sobre o atendimento obrigatório e integral de pessoas em situação de violência sexual.


Art. 1o  Os hospitais devem oferecer às vítimas de violência sexual atendimento emergencial, integral e multidisciplinar, visando ao controle e ao tratamento dos agravos físicos e psíquicos decorrentes de violência sexual, e encaminhamento, se for o caso, aos serviços de assistência social. (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12845.htm)