sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O fenômeno bolsonarete



Nos últimos dias, lamentavelmente, temos assistido nas mídias um debate ferrenho entre os defensores de Bolsonaro e àqueles que repudiam suas atitudes e encabeçam o movimento "Fora Bolsonaro", abra o link clicando aqui. Digo lamentavelmente porque, enquanto feminista e defensora dos direitos humanos, entendo que figura como a do deputado não deveria ser representante do povo e menos ainda ter tantos defensores e tão empenhados quanto os que temos visto. No entanto, o que realmente me surpreende é que haja entre os bolsonaretes uma quantidade expressiva de jovens.
Embora não tenha me surpreendido a forma agressiva, intolerante, machista, homofóbica e violenta com que os bolsonates têm defendido o Deputado. Sempre atacando com palavras de baixo calão, ameaçando, coagindo e ridicularizando quem se posiciona contra o Parlamentar. Naturalmente, não fiquei surpresa com as estratégias porque só pode defender uma pessoa truculenta quem tem atitudes semelhantes as dele. Para quem ainda não conhece, o Deputado Jair Bolsonaro é filiado ao Partido Progressista (PP). Mas, ironicamente, ele deixa bem claro que seu posicionamento ideológico é de extrema direita.

Conhecido por sua postura homofóbica e seus comentários racistas, Bolsonaro, ex-militar, é contra o casamento igualitário, defende que bater em crianças e gays pode 'colocar um gayzinho na linha', além de se opor claramente aos direitos das minorias, que, na opinião dele, devem se calar e se curvar à maioria. É defensor do encarceramento em massa e da redução da maioridade penal.Ponte.
 


Defendendo esse discurso, altamente conservador, ele amealhou quase meio milhão de votos. Acredito que votos conquistados, em sua maioria, de pessoas que se sentem vulneráveis diante da violência. Mas, dentre eles também há uma parcela considerável de gente que diz acreditar que a família tradicional se encontra ameaçada por conta da conquista de direitos da comunidade LGTT. Outra considerável quantidade de pessoas parece que acabou se decepcionando com Partido dos Trabalhadores (PT). Instituição que tem sido frequentemente alvo de críticas ferrenhas desses eleitores. Some-se a essa lista aquela parte privilegiada da população que tem visto ameaçados seus privilégios pelas várias conquistas que a classe trabalhadora alcançou nos últimos anos, como a PEC das domesticas por exemplo. Sem esquecer a revolta de parte da classe média com o Bolsa Família/PT, programa que impediu que alguns miseráveis vendessem sua força de trabalho por um prato de comida. Também não deixando de levar em conta a insatisfação com as cotas, mecanismo que permitiu que os pobres começassem a circular no ambiente universitário não mais como porteira/o ou faxineira/a e sim como estudante, e alguns deles “invadindo” espaços tradicionalmente ocupados pela elite, como por exemplo, a faculdade de medicina. Acrescente-se ao rol de eleitores os seus históricos devoto que seriam os militares e as viúvas da ditadura militar, os que se reivindicam fascistas e os simpatizantes do regime.
Por outro lado, entendo que numa sociedade em crise, onde a violência se tornou uma ameaça real e onde todos se tornam vulneráveis, as pessoas tendem a cobrar por fórmulas imediatas, fáceis e rápidas de sanar com esse problema.  No entanto, o que não se leva em consideração ou não se compreende é que não existe solução rápida para o problema da violência. A defesa da redução da maioridade ou do encarceramento sistemático e do extermínio de jovens é uma clara demonstração de que ainda não aprendemos ou não entendemos o tamanho do impacto dessas medidas para a própria população e para os cofres públicos (seja introduzindo pessoas cada vez mais jovens na universidade do crime, seja na produção e reprodução das injustiças e das iniquidades sociais ou até mesmos nos gastos para a manutenção de penitenciárias). O problema da violência se resolve com justiça social e educação e não exterminando ou encarcerando adolescente pobres/negros. Ou será que alguém ingênuo o suficiente para achar que a “força da lei” atingiria todas as classes indiscriminadamente.

Precisamos entender também o que há por trás doutra questão maxi valorizada pela direita e ultradireita, e um dos elementos do discurso de Bolsonaro, é a questão da família, alardeada aos quatro ventos que se encontra ameaçada pela homossexualidade. Ora, se estamos falando da família tradicional, essa já foi destroçada pela cultura machista faz tempo, ou a reaçada esqueceu os abusos, o abandono e a violência domestica promovidas pelos homens! Esse povo machista esqueceu que hoje quase 40% das famílias brasileiras são chefiadas por mulheres. Em que mundo esse povo vive? Devem também ter esquecido que quem gera filhos e os abandonam ou abortam são os casais heterossexuais. No entanto, é mais fácil culpar os homossexuais pela degeneração da família tradicional e usar o discurso homofóbico, com a desculpa que estão seguindo orientações bíblicas, para promover o preconceito e o desejo de extermínio dos homossexuais. Compreendo perfeitamente que parte do preconceito contra a comunidade LGBTT se deve a falta de conhecimento sobre orientação sexual divergente da heterossexualidade. Mas, a outra parte, a de homofóbicos conscientes, essa representada pela ultra direita, não quer realmente conviver com a diversidade e por isso pratica todo tipo de ataque. E é essa última parcela da sociedade que anseia por exterminar homossexuais. O que há por trás do machismo e da homofobia é o desejo e a vontade de manter os privilégios e a hegemonia do homem branco heterossexual sobre os outros grupos.

Quanto a corrupção, ela realmente está entranhada em todas as instituições e isto realmente causa revolta em toda a população. Quem é que não deseja viver num país sem corrupção? Mas será mesmo que estamos preparados para abandonar o velho jeitinho brasileiro? Ou você acredita mesmo que o “da cerveja” não é propina? Que uma camisa de presente de natal a fim de facilitar um processo ou fazê-lo andar não é mesmo que 25% de propina numa licitação? Temos sim que combater a corrupção, mas temos de combate-la em todas instâncias desde às pequenas cometidas no cotidiano. Entretanto, o que a direita prega é prender o ladrão de galinha e não punir os envolvidos na sonegação de impostos, tais como a Família Marinho ou estelionatários como o Eike Batista e Paulo Maluf.
Então, o Partido dos Trabalhadores (PT) tem sido usado pelos bolsonates como sinônimo de corrupção para legitimar os impropérios ditos pelo Deputado. E ser a favor da cassação do Parlamentar significa ser petista ou pró-corrupção, ser comunista, fã de Cuba, Fidel e Guevara, defensor de bandido ou até mesmo, como alguns preferem chamar, ser da esquerda caviar. Interessante que a luta em defesa do Deputado parece que acaba rivalizando diretamente com o “fora PT”. Para os eleitores de Parlamentar e outros conservadores o PT representa exatamente a permissividade com a violência, com a “libertinagem” e a corrupção. Pautas exaustivamente abordadas pelo Deputado sempre em tom crítico, jocoso e violento. Dizer/acusar os defensores da cassação de serem eleitores do PT, da esquerda caviar, comunista ou que são defensores de bandidos é uma tentativa de deslegitimar, desvirtuar ou tirar o foco da luta defesa dos direitos das mulheres e de outras minorias e invalidar o pedido de cassação.
Então, é bom avaliar a qualidade dos discursos que a gente aplaude e/ou reproduz, muitos deles tem a única finalidade de privilegiar uma classe. Bolsonaro, que não é bobo e nem nada, se utiliza do discurso de defensor da população e contra os marginais, reivindica pra si o título de chefe de família e de homem de honra ilibada agradando a direita e ultradireita, como também aos incautos que não conseguem enxergar a nocividade do seu discurso, para arrebanhar eleitores e votos. Sendo assim, ele se utiliza da tríade, violência, moralidade e corrupção para continuar usufruindo de todos os privilégios que os políticos gozam, se perpetuando no poder, e, de quebra, eleger membros da sua família. Apesar do discurso por mudança na sociedade, na verdade, ele não tem interesse em mudança alguma, ele não quer mudar. Para ele, quanto pior melhor, pois, caso as coisas realmente mudem seu discurso perde força, ele perde seu gado e portanto, perde o poder que tem hoje. O Deputado faz parte de um grupo privilegiado desse país. Ou alguém já parou observar que o Parlamentar é branco, se diz heterossexual, e pertence à classe média alta? Será que a maioria no nosso país está nesse perfil? Portanto, os ideais de Bolsonaro são os ideais do grupo que ele pertence, a elite. 

Enquanto isso, os seus defensores, os bolsonarestes, pertencem ao estrato inferior da pirâmide social. São aquelas pessoas que sofrem vários tipos de opressões, inclusive os negros, a comunidade alvo principal das abordagens policiais (categoria a que pertence o deputado) e principal vítima do extermínio entre a população jovem. Outro grupo oprimido que sai em defesa do Deputado é composto por mulheres, vítimas majoritária de estupro, ameaça, coação e violência física, as mesmas patrocinadas por Bolsonaro contra Maria do Rosário por mais de uma vez, exceto pelo estupro, que segundo ele não o faria porque ela não é “merecedora”. O grupo maior, o de pessoas pobres, que engloba os retratados anteriormente, está sendo ameaçado de perder os poucos direitos que tem, o de poder frequentar a universidade ou ter tratamento igualitário nos concursos, receber o Bolsa Família e outros benefícios justamente por conta da doutrina defendida pela Deputado. Sem falar que é exatamente esse grupo que é chamado de vagabundo. Sim, porque para a direita, pobre que recebe Bolsa Família é sinônimo de vagabundo. Contraditório não?



quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Fora Bolsonaro, vaza!




A deputada Maria do Rosário (PT-RS)
Maria do Rosário (PT)
Depois de insultar a colega de plenário, Maria do Rosário (PT), afirmando que não a estupraria “porque ela não merece”, o  deputado federal Jair Bolsonaro (PP) reafirma a ofensa, inclusive dita antes,  em 2003, durante participação no programa 'Superpop', da Rede TV.

– Ela não merece porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia. Não faz meu gênero. Jamais a estupraria – disse, por telefone, Bolsonaro ao ZH.
“Na última quarta-feira, Dia Internacional dos Direitos Humanos, a deputada elogiou o trabalho da Comissão da Verdade, que investiga os crimes cometidos durante a Ditadura Militar. Ao perceber que Maria do Rosário deixava o plenário durante a sua fala, Bolsonaro se exaltou. ‘Não sai daqui não, Maria do Rosário. Fica aí, fica. Há poucos dias você me chamou de estuprador, no Salão Verde, e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece. Fica aqui pra ouvir’, disse Bolsonaro. Um vídeo da sessão, gravada pela TV Câmara, mostra o momento do insulto.  O Dia

Rafaela Marques
Rafaela Marques
“No dia do lançamento do resultado das investigações da Comissão Nacional da Verdade, parte de nossa energia é gasta com o mais [...] dos representantes do povo. Temos que reafirmar, em pleno 2014, que mulher nenhuma merece ser estuprada. A afirmação feita por um militar da reserva, hoje deputado, de que não estupraria uma deputada porque ela não merece, ganha ares ainda mais grotescos por ter sido feita em plenário. Na véspera. Da. Entrega. Do Relatório. Da Comissão.” Rafaela Marques, jornalista.
Nana Queiroz
Nana Queiroz
Só ‘não estupra a deputada Maria do Rosário porque ela não merece’. A pergunta que ficou pairando no ar, porém, foi: ‘E alguém, por acaso, merece ser estuprada, deputado?’ Porque Bolsonaro parece acreditar que ser estuprada por ele é algum tipo de prêmio para as bem comportadas [ou as bonitas]. E, assim, ele ofende a dignidade das brasileiras, faz piada da dor pela qual passam 50 mil mulheres anualmente em nosso país e, ainda por cima, mostra que pensa igualzinho aos estupradores. Ou estupradores não pensam que algum tipo de mulher "merece" ser estuprada? Ou estupradores não pensam que é ok usar a cartada do estupro quando uma mulher discorda deles. Um grupo de mulheres resolveu, então, criar um novo protesto online, um lembrete ao deputado. Convidaram todas os participantes do "Não Mereço Ser Estuprada" a republicarem sua foto nas redes sociais com a hashtag #forabolsonaro. Para participar, basta entrar aqui. Seu pedido é claro: que o deputado seja cassado por falta de decoro parlamentar e apologia ao estupro.” Nana Queiroz, jornalista.
 
“Ou cai Bolsonaro desta vez ou a expressão ‘decoro parlamentar’ perde qualquer sentido que porventura ainda possuir. É simples assim. Bolsonaro disse que negras são promíscuas, e é absolvido no Conselho de Ética. Bolsonaro diz que nunca entraria num avião pilotado por um negro cotista, e nada lhe acontece. Bolsonaro faz diuturnamente declarações homofóbicas em padrão nazista, e é recompensado como campeão de votos no Rio de Janeiro. De que os eleitores de Bolsonaro o elejam justamente porque ele faz questão de desconhecer direitos humanos e de violar direitos fundamentais das minorais, não tenho a menor dúvida. [...] Por ser tratado com condescendência (e frequentemente com efusivo apoio) pelos confrades deputados, quando ofende e humilha minorias, enuncia em estardalhaço os mais indignos preconceitos e ataca com virulência quem condena a ditadura militar e luta por direitos humanos, Bolsonaro comporta-se como se fosse inalcançável pela lei e pelos seus constrangimentos. É a canalhice com imunidade, a brutalidade de costas quentes e tapinhas nos ombros, o aspecto mais sombrio da vida pública brasileira levado aos ombros por um enxurrada de votos. Pois bem, hoje Bolsonaro passou todos os limites, ao se gabar, no plenário da Câmara, de ser um violador de mulheres e informar à colega deputada que só não a violentava, pasmem os senhores, porque ela não se qualificava para o nível requerido por ele para executar o estupro. Em suas palavras: ‘Não te estupro porque você não merece’. 

Bolsonaro não faz isso por ser de direita. A direita republicana não estupra mulheres, deputados de direita não se jactam de serem violadores, homens de direita republicana não dizem às mulheres que elas não servem nem para serem estupradas. Quem faz isso são fascistas, isto é, a direita não republicana que não respeita igualdade, liberdade, dignidade humana, Estado de direito. Bolsonaro tampouco o faz por ser conservador. Conservadores não se gabam de violar mulheres, nem exibem o seu poder fálico descontrolado para o Plenário da Câmara dos Deputados, urrando o seu direito de exercer um estupro punitivo de uma pessoa que é ao mesmo tempo mulher e uma colega deputada. Canalhas é que fazem coisas desse nível. Bolsonaro não é uma caricatura, nem um ponto fora da curva; Bolsonaro representa um novo estilo político, uma nova onda de políticos que proclamam-se orgulhosamente ‘contra o politicamente correto’ enquanto se dão ao desfrute do politicamente canalha. Está mais do que na hora de esta gente ser contida. Fazer de Bolsonaro um exemplo seria um presente para a democracia. Não fazê-lo seria lhe conceder um ‘habeas corpus preventivo’ para fazer coisas cada vez piores. Ou o Congresso se respeita, ou é melhor fechar as portas.” Wilson Gomes- Professor da Universidade Federal da Bahia.
Durante muito tempo as palavras do deputado ecoarão nos nossos ouvidos. Durante muito tempo nos lembraremos que a cultura do estupro marca presença dentro da casa legislativa. Também não nos esqueceremos que dentro dessa casa não estaremos seguras. Fatalmente estaremos vulneráveis a agressões verbais e físicas, sujeitas a sermos chamadas de vagabundas e/ou sofremos empurrões. Sem falar que poderemos ser alvos de ameaça de estupro e de agressão. É certo também que sempre que se aproximarem os pleitos ou nos encontrarmos diante da urna nos perguntaremos se não estaremos dando imunidade a um agressor. Refletiremos se aquele que receberá nosso voto não será o nosso algoz. Pensaremos bem antes de digitarmos na urna números que elejam homens. Pois, enquanto mulher, questionaremos reiteradamente se não estaremos elegendo um indivíduo que usará seu mandato como mecanismo de opressão para agredir e violentar mulheres impunemente ou para oprimir minorias com aval de seus colegas parlamentares.  



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Abusos na academia



Por Laís maia
 
Em solidariedade às vítimas do Idelber Avelar*, às minhas jovens alunas que corajosamente denunciaram um professor que as assediava, às colegas do UFMG que se mobilizaram para denunciar o Francisco Coelho, que há mais de uma década sistematicamente assediava as graduandas em sala de aula, e às tantas outras que já passaram por isso, decidi relatar um dos assédios em ambiente acadêmico que sofri esse ano (e eu definitivamente nem sou a pessoa mais interessante do mundo e contei três em um ano).
Sonho com o dia que a vergonha fique para eles e que os questionamentos pairem sobre a postura desses homens toscos de nossa intocada esquerda machista. Em que minha amiga não tenha que reembolsar à Capes [valores referentes à bolsa] porque desistiu do doutorado com um bam bam bam internacional que a assediou toscamente. Sonho com o dia em que as vítimas possam relatar os abusos sem precisar se esconderem atrás  do anonimato e que não sejam alvos de processos tenebrosos ou que não haja comparação com a inquisição por exigirem algum tipo de respeito.
A academia é nosso campo de batalha mais velado e impenetrável. Por isso, mulheres, vocês são lindas. Sintam-se todas abraçadas e admiradas.
Os casos que escolhi relatar são os que mais me imobilizam, pois me afetam pessoalmente. E apesar do embaraço que senti, admito que ainda não consegui desconstruir a admiração por tantas qualidades dessa pessoa. Tenho um professor fantástico e com um engajamento político de grandes repercussões. Fiz algumas disciplinas com ele e sempre me senti envolvida no diálogo instigante que ele nos propunha. Enquanto fizemos uma obrigatória com ele, logo que iniciei o mestrado, eu e uma amiga querida fomos a um congresso que ele estava organizando. Foram sistemáticas as investidas dele sobre ela, deixando inclusive de estar entre os ilustres docentes e pensadores que lá se encontravam para sentar-se conosco em nossa discreta mesa durante momentos de descontração pós-evento. Houve mão na perna de minha amiga, mão na cintura e, por fim, quando ela se levantou por algum motivo, ele a pegou firme pelos quadris, deu uma encoxada e disse “você é uma mulher maravilhosa”. A mulher maravilhosa – sim, ela é maravilhosa, professor, mas não pelo que você estava interessado em obter – era uma recém ingressa no mestrado, vinda do interior e que se sentiu constrangida em fazer qualquer comentário na disciplina obrigatória que cursávamos com ele e que passou a evitar encontrá-lo, até mesmo nos corredores.
Meses depois, estivemos no maior encontro nacional da área e houve situação parecida comigo. Por diversas vezes ele insistiu em sair conosco e, mesmo com um casal de professores da mesma instituição que ele trabalha na nossa mesa do bar, ele não se envergonhou de “afetuosamente” colocar as mãos no meu rosto diversas vezes. Livrei-me dele com bastante dificuldade após sustentar horas de sorriso amarelo de tanta vergonha. Porque a gente acha que todo mundo (colegas e professores) vai pensar que estamos dando linha, que há conivência da nossa parte, que se a gente quisesse teria acabado com a situação, que somos interesseiras e que há alguma relação pessoal com ele. Além disso, é impossível não tratar com algum respeito (medo?) alguém com quem vamos cruzar certamente muitas vezes no decorrer da vida profissional/acadêmica e que supostamente ocupa uma posição hierárquica infinitamente superior à sua. 
Por fim, na confraternização do último dia, bem no início da festa, ele abandonou as várias mesas com os grandes pesquisadores do nosso campo de estudo e decidiu sentar-se com três mestrandos no canto mais afastado, longe dos burburinhos. Nisso fez questão de me tirar para dançar, dizer como eu estava linda e elogiar de forma exagerada os meus progressos acadêmicos. Em algum momento, depois de pelo menos uma hora, ele desistiu das investidas.
Noutra ocasião, ele atuou comentando um trabalho elaborado por mim. Nesse caso, imaginava que não que pudesse ocorrer nada de errado. Minhas perspectivas eram; que lá estaria meu orientador, um homem íntegro e muito sério, outro professor e meu namorado. Poderia receber as contribuições brilhantes que ele daria – e de fato deu - sem me expor a nenhum constrangimento. Entretanto, não foi bem assim...
Eu estava falando de meu trabalho quando, no meio da minha exposição, ele pegou uma das minhas mãos, a colocou entre as dele e ficou acariciando em cima da mesa, enquanto todos podiam ver. Fiquei nervosa e comecei a gaguejar. Não conseguia olhar para nenhum lado de tanta vergonha. Fiquei constrangida porque pensei que o professor, que eu mal conhecia, iria achar que eu tinha um caso com ele, que o meu orientador pensaria que eu mantinha essa relação por interesse... Pouco depois me recuperei e com o máximo de naturalidade possível retirei minha mão. Ele voltou a colocar e novamente eu a retirei. 
Por último, no corredor, ele voltou a me assediar dizendo que não discutia qualquer trabalho ou de qualquer pessoa, que eu era promissora e etc etc etc...

Enfim, eu e minha amiga não denunciamos. Essa é a primeira vez que relato publicamente esses fatos. Não vou dizer o nome, mas sei que muitos do nosso meio já sabem. Dezenas de pessoas estavam presentes em todas as situações que mencionei e com certeza perceberam o que ocorreu. Ninguém veio apoiar-nos, dizer que já tinha passado por isso ou qualquer coisa parecida. Ninguém se aproximou para dar um toque nele, distraí-lo, constrangê-lo de alguma forma ou tentar interferir na situação que estava posta. Nenhuma pessoa, inclusive nenhum dos meus amigos, comentou conosco sobre o assunto, nenhum sequer genérico “a gente percebeu”. Percebi que em alguns momentos amigos e conhecidos notavam o que se passava, mas ninguém se aproximou em nenhuma das situações.

Ainda continuo perplexa. No entanto, não consegui separar o professor e militante fantástico do cara nojento que usou das relações de poder que comumente se estabelecem entres professoras/es e alunas/os para obter êxito em suas investidas. E debato-me por não conseguir deixar de admirá-lo. Envergonho-me, assim, perante mim mesma e minhas manas feministas. Por isso agradeço às mulheres firmes que se colocaram contra tudo isso e denunciaram seus agressores ilustres, algumas com as quais tenho o prazer de conviver. Meu feminismo é para as mulheres e agradeço a vocês, que me ajudam a tensionar esses sentimentos contraditórios e minha postura diante dessas situações. Laís Maia
O relato de Laís reflete a realidade de muitas universitárias, mestrandas ou doutorandas. Eu mesma, enquanto era universitária, fui assediada em várias ocasiões por meus mestres. E olhem que eu já era casada e estava na casa dos trinta. Dentre as minhas colegas de cursos e de faculdade a realidade era a mesma. O que ocorre na academia é mais um reflexo do que acontece na rua e em outras instituições. O assédio sistemático ocorre porque os homens acreditam que tem superioridade ou poder sobre as mulheres e fazem questão de usar esse suposto poder para nos subjugar e impor suas vontades. Nada mais deprimente que usar esse tipo de ardil para “conquistar” uma mulher. Pena de homem que só tem a hierarquia como arma de sedução.


*Ildelber  Avelar - professor brasileiro de literatura na Universidade de Nova Orleans, nos EUA.
 
“Na última semana[...] Idelber Avelar passou a receber acusações de assédio sexual em uma página na internet. O site trazia reproduções de conversas do acadêmico com mulheres comprometidas pelo Facebook, em que era possível ver fotos do seu pênis e outras cantadas do professor. O professor repudiou as acusações através de uma publicação em sua página pessoal. Idelber conversava como ‘amansar os cornos’ dos maridos das mulheres e dizia que ‘sabia que tinha deixado você no cio’. Junto com as reproduções, as mulheres colocavam relatos pessoais sobre como Idelber se aproximou delas e suas abordagens. G1.