Eu
não ia escrever sobre o projeto de lei que torna todos os assentos dos
transportes públicos preferenciais para mulheres, idosos e obesos. Entretanto,
esse final de semana troquei e-mails com a Lola, blogueira feminista, sobre o
assunto e acabei instigada a discorrer sobre. Bem, avaliei bastante a questão e
entendi que a medida é um desserviço ao movimento feminista. Pra começar, o
projeto cria privilégios entre os usuários que gozam das mesmas condições, que
seriam jovens saudáveis. Apesar disso, reconheço que quando há lotação ou
superlotação frequentemente ocorrem abusos de mulheres (homens se masturbando
ou se esfregando). Mas entendo que abuso por abuso eles ocorrem em qualquer
local onde haja a possibilidade de contato entre homens e mulheres e haja um
abusador entre eles. Até mesmo porque os abusos também são cometidos quando não
há lotação e os agressores se aproveitam justamente disso para agirem. Já ouvi
relatos de garotas que foram literalmente estupradas, sob a mira de armas, em
ônibus vazios ou praticamente vazios e são relatos bem pesados, como por
exemplo, o caso de estupro de uma mulher de 30 anos ocorrido num ônibus no ano
passado.| Imagem do estuprador |
“Estupro de mulher em ônibus no Rio
durou seis minutos, diz delegado. A ação criminosa teve início às 15h35, quando
o suspeito anuncia um assalto, cinco minutos depois de entrar no ônibus, na
altura da favela do Muquiço, em Guadalupe, na zona norte. Havia cerca de dez
passageiros no coletivo. Em seguida, armado, ele ordena que os passageiros
fiquem na parte de trás do ônibus a fim de consumar a violência sexual. [...] A
mulher, que estava sentada no penúltimo banco, também é agredida com
coronhadas. Segundo a polícia, enquanto a vítima era estuprada, um dos
passageiros foi obrigado a recolher os pertences dos demais. Toda a ação teria
durado cerca de 40 minutos. Uol.
Preciso
repetir que o problema não é a posição da mulher no transporte? É a cultura do
estupro, da coisificação da mulher, da impunidade.
Pela
perspectiva da feminista, acho que o projeto tende a manter a discussão sobre
as diferenças entre os gêneros e fomentar os imaginários estereótipos tais como
o da mulher frágil, pura e outros. Então não iria demorar para que a gente, sob
a ameaça de ser atacada, não pudesse andar sozinha na rua, não permanecer
sozinha na presença de homem ou homens. Parece absurdo, mas esse tratamento
desigual abre margem para outras medidas que de repente, a partir do resgate
dos estereótipos citados anteriormente, podem provocar a cassação de conquistas
femininas, que necessitaram de uma séria ruptura de paradigmas para que
ocorressem e que nos permitiram, não só uma relativa liberdade sexual, como
relativa igualdade de tratamento com relação aos homens, além da inserção
ou participação feminina em setores do mercado de trabalho que até pouco tempo
eram destinados somente a homens, como por exemplo o emprego de mulheres na
construção civil, nas forças armadas, no mercado financeiro e outros.
Outro
sério risco que corremos, e que podemos já observar nos comentários feitos nos
portais que divulgaram a noticia sobre o projeto, é o acirramento da antiga briga
entre homens e mulheres acerca das lutas feministas por direitos iguais, privilégios
e equidade. E confesso que minha paciência está bem pouca para lidar com
comentários do tipo “As feministas não lutam por direitos iguais? Ai tão
querendo ter privilégios em relação aos homens no ônibus né?”. Não bastasse a
desinformação sobre os debates e opinião das feministas sobre o assunto ainda
há a ignorância sobre a autoria do Projeto Lei 0097/2014,
que é do vereador Carlos Dutra (Pros). Salvo engano esse senhor não é feminista
e muito menos mulher, ele até pode se reivindicar pró-feminismo, mas falar em
nome das mulheres feministas ele não pode.
Então,
por tudo que foi colocado acima, acho pouco provável que a adoção da medida proposta possa evitar ou diminuir o assédio e garantir que homens
respeitem o direito das mulheres de não serem importunadas, bolinadas,
assediadas ou estupradas dentro de ônibus, trens ou metrôs. Efetivo seria a educação
de meninos e meninas sobre o assédio, abuso e estupros. Além disso, a efetiva
aplicação da lei de proteção à mulher e o rompimento do ciclo de impunidade
poderiam ser medidas eficazes contra os abusos cometidos em qualquer ambiente.
2 comentários:
Eu fico dividida nesses casos. Separar é inútil para resolver o problema, mas tem que encarar a realidade também.
Se num ponto de vista não precisa ter vagão lotado para um estranho se esfregar na gente, de outro, quando isso vai mudar? Vamos ficar esperando até que surjam homens criados para não acharem que tem o direito de passar a mão em qualquer mulher que ver por aí.
E os caras que reclamam não se tocam de que esse é um problema que eles mesmo criaram.
Curiosamente no vagão das mulheres eles querem que só elas entrem, mas na hora de ajudar ela com o vão entre o trem e a plataforma elas pedem ajuda as mulheres.
Se ficarem esperando minha ajuda pode esperar sentada.
Conselho pras mulheres, ajudem as outras, principalmente as mais velhas.
ASS: Mascu MGTOW rs
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