terça-feira, 13 de outubro de 2015

Instinto materno, eu não tenho!



Sobre a maternidade, algumas questões aprendi na prática ou no susto, outras eu fui absorvendo das experiências que nunca tive, mas pude observar de longe.  Possivelmente, eu ainda não tenha a exata noção do que representa maternar, contudo, me permito avaliar, com relativa precisão, tudo o que a maternidade representa: todas as renúncias, as horas sem dormir, as despesas, o desafio da educação, as preocupações que sempre estarão as espreitas à cabeceira da cama... Enfim, todas essas questões práticas que tão facilmente não damos conta ou levamos em consideração quando somos muito jovens.
Não quero dizer que a maternidade seja um inconsequente ímpeto juvenil, muito embora não possa negar que eventualmente chega a sê-lo. Obviamente, estamos imersas numa cultura e ninguém, absolutamente ninguém, passa por ela ilesa. E essa cultura influencia e direciona todas as nossas decisões e nos obriga a fazer coisas sem antes refletir sobre elas. Então não é difícil compreender porque grande parte de nós mulheres tendemos a enfrentar a maternidade com a simplicidade de quem vai brincar de boneca, principalmente quando ainda somos muitos jovens. Afinal, o nosso condicionamento começa ocorrer na infância. Somos desde cedo submetidas à ideia de que a nossa função primordial é nos tornarmos mães, que só nos tornamos plenas após nos tornarmos mãe. E se negar a exercer essa função fatalmente nos leva a sermos julgadas egoístas, narcisistas ou mulheres infelizes. Eu já nem sou capaz de determinar quantas vezes fui tratada como egoísta por afirmar que não queria ter filhos. Também não esqueço as vezes que, por conta disso, me disseram que nunca iria me tornar uma mulher completa, conhecer o amor verdadeiro, que eu era uma pessoa amarga e cruel com meu marido por não permiti-lo se tornar pai.
Particularmente, devo confessar que nunca sonhei com a maternidade, em nenhum momento esteve entre minhas prioridades me tornar mãe. Mas, talvez tenha, por algum tempo, acreditado que havia nascido com o tal instinto materno e que ser mãe poderia ser o melhor que eu podia me tornar. Acho que assim como eu quase todas as mulheres, em algum momento de suas vidas, acreditaram nisso, outras nunca deixam de acreditar. Confesso que, em muitos momentos, isso me fez infeliz, até mesmo quando uma mulher me dizia para tocar em sua barriga para sentir o bebê e aquilo me incomodava. Sempre me senti profundamente desconfortável em tocar barrigas grávidas.
Honestamente, acho um grande equívoco essa idealização do instinto materno, a crença que toda mulher sabe exatamente como cuidar e educar uma criança, que este conhecimento e amor incondicional estão no DNA feminino. Por muito tempo me senti culpada por não sentir esse tal instinto materno. Acho que muitas mulheres que não condicionaram sua completude ao exercício da maternidade em muitas ocasiões se sentiram culpadas e socialmente inadequadas. 
Por outro lado, quem cede às convenções, em muitos casos, se deparam com uma realidade com a qual não está preparada para conviver. Mesmo nessas circunstâncias há um preço muito alto a se pagar. Para manter inabalada a crença de que o amor materno supera tudo e compensa todo sofrimento ou dor, pagamos com o nosso silêncio, a ocultação das nossas dores, dilemas, dúvidas e muita insegurança. Os conflitos que as mães sofrem são completamente abafados, se tornam tabus. Durante a minha vida inteira eu ouvi poucas mulheres reclamarem da maternidade em si, elas reclamam constantemente dos filhos. Então eu pensava: é só saber educar para tudo sair perfeito e ninguém precisaria reclamar nem mesmo das filhas ou filhos. Mas, não se tratava disso, trata-se de tabu. Qualquer mulher sabe que, ao se tornar mãe, sequer pode reclamar do lado ruim da maternidade sem correr o risco de sofrer olhares de reprovação, ser julgada péssima mãe, ou ser acusada de estar maculando a santíssima função de maternar. Reclamar das obrigações de ser mãe é, desde sempre, socialmente inaceitável. E por conta dessa cultura, a gente cresce achando que ser mãe é somente a coisa mais linda que nós mulheres podemos nos tornar, que é, nada além, de maravilhoso. Somos condicionadas a acreditar que não há nenhum ponto negativo. Eis a receita da frustração.


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Carne com bastante osso



Resultado de imagem para prato vazioNa nossa casa eram servidas somente duas refeições, o almoço e jantar. Pela manhã só tomávamos café preto, eventualmente eu podia comer pão. Contudo, como havia dinheiro somente para meio pão apenas eu comia. A gente só comia carne uma vez por semana. Então, no sábado, por volta das nove horas, meu avô apontava numa esquina próxima a nossa casa trazendo um pacote envolto num jornal amarrado com barbante e sujo de sangue. Era um pedaço de carne com bastante osso. Seria mais justo dizer que era osso com o que sobrou da carne, quase comumente um pedaço de costela. Minha avó o temperava somente com um pouco de coloral, pimenta de cheiro e cozinhava boiando em água. Eram uns dez litros de água para meio quilo de osso. Parte do caldo era reservado para fazer o pirão escaldado que tanto meu avô gostava. Depois que o cozido esfriava se formava uma espessa camada de gordura amarela que encobria tudo aquilo estava submerso. Caso esquecêssemos um garfo no recipiente seria possível remove-lo juntamente a camada inteira de gordura em forma de pirulito apenas puxando o garfo pelo cabo.
A visão, o sabor e cheiro dessa comida me embrulhavam o estômago. Quando não me restava outra opção, que não me servir dessa iguaria, eu permanecia por horas com o forte sabor de sebo encerrado na boca. Como não fosse suficientemente torturante ser obrigada a ingerir aquele alimento tão mal preparado minha avó ainda removia a gordura que boiava na panela e guardava para “temperar” o feijão no decorrer da semana. É quase desnecessário dizer que eu odiava comer esse e outros pratos que nos eram servidos. Entretanto, era comer aquilo ou ficar com fome. Não eram somente os alimentos que eram ruins, era a cozinheira, primordialmente, o pior ingrediente. Ela teria o dom de tornar um filé mignon, uma lagosta ou camarão alimentos indesejáveis.
Por isso, quase todos os dias eu fugia de casa no horário das refeições. Naturalmente, eu ia para algum lugar onde eu pudesse comer alguma menos ruim que as gororobas servidas por minha avó. Então, minutos antes das refeições eu chegava à casa dos vizinhos. Ficava de pé com as mãos voltadas para trás, a direita segurando o cotovelo esquerdo e a esquerda segurando a parte de trás da saia. Fazia aquela cara de criança faminta – ou melhor, eu tinha cara de criança faminta – até que a dona da casa se comovia e me servia. Lamentavelmente, nem sempre eu conseguia fugir na hora das refeições ou a tática funcionava. Entretanto, quando ela funcionava eu comia num desespero e numa pressa de chamar a atenção. Cada refeição que eu fazia fora de casa parecia que seria a ultima. Eu comia muito, comeria tanto quanto me servissem.
Dentre as vizinhas, que se compadeciam da minha chantagem emocional, de uma em especial eu nunca esquecerei. Era uma senhora um tanto desapegada, generosa, farta e, na mesma medida, mesquinha, hipócrita, traiçoeira, simulada e cruel.  Ela era suficientemente generosa ao ponto de quase sempre me oferecer e servir refeições e, portanto, ela era a minha escolha predileta. No entanto, sua generosidade era invariavelmente acompanhada de boas seções de humilhações. Essa senhora, Dona Aparecida, jamais deixava de fazer comentários constrangedores enquanto eu comia, “Come devagar que a comida não vai fugir não”, “Parece que nunca viu comida”, “Come bicha rea. É mesmo uma morta de fome!” e ainda hoje, volta e meia, alega que eu vivia “para morrer de fome” e que nem pareço “aquela”, “daquele tempo”.
Embora ainda fosse uma criança, eu percebia o tom pejorativo e ofensivo de alguns dos seus comentários. De qualquer forma, eu acreditava que me humilhar era seu direito. Bem, aceitando ou não, compreendendo ou não os ataques, eu tinha mais fome do que orgulho. Então, eu os ignorava ou os engolia tendo em vista poder matar a fome ou simplesmente poder experimentar algo diferente.
Ao retornar para casa e encontrar minha avó ela perguntava se eu não queria almoçar, eu dizia que não, ela desfilava uma tira de xingamentos, mas acabava me deixando em paz depois de me colocar diante de uma porção de louças para lavar ou ir irritar meu avô com um comentário qualquer.
Bem, como disse anteriormente eu não a esqueço, e jamais irei esquecer essa senhora que “generosamente” matava minha fome, porque ela continuou me alimentando e me humilhando tempo suficiente para eu perceber que comida nenhuma pagaria por aquele tipo de ultraje. É óbvio que não havia generosidade no seu gesto, ela me alimentava unicamente com a finalidade de me expor ao ridículo, de ter alguém para poder espezinhar.
Ela era uma criatura infeliz, uma alcoólatra fracassada, insatisfeita com a vida, que precisava humilhar quem quer fosse para que pudesse se sentir melhor. Ela acordava para beber e dormia porque era derrubada pela bebida. Não trabalhava fora e ainda assim não cuidava satisfatoriamente dos filhos ou da casa, mesmo tendo empregada doméstica. Sem contar que vivia num casamento infeliz. Apesar de o alcoolismo ser uma doença, de um casamento bem sucedido não depender somente da vontade e do empenho de um dos cônjuges e de uma casa arrumada não ser garantia de sucesso de ninguém, o seu fracasso não pode ser usado para justificar o seu caráter leviano. No entanto, no final das contas, tudo é uma relação de causa e consequência. Eu até entendo que ela não seria completamente responsável pelo tipo de vida que levava. Agora é fato que eu, que sequer teria alguma gerência sobre a minha vida, teria alguma responsabilidade pelos infortúnios que ela passava.   
No entanto, vamos considerar que, talvez, ela tentasse ser uma pessoa melhor me dando um bocado de comida. Mesmo assim, seu caráter mesquinho falava mais alto. Eu sempre era servida depois que todos fossem servidos e quando sobrava comida. Quando não sobrava me restava ficar apenas os assistindo comer. Quando ela fazia aniversários em sua casa eu nunca, jamais, era convidada. Mesmo assim, excepcionalmente, quando eu fugia da minha avó – que me proibia de “ficar pelas biqueiras” das casas enquanto aconteciam festas para as quais eu não havia sido convidada – e era vista me esgueirando pelo portão alguém acabava me convidando a entrar.
Embora eu acompanhasse de perto todos os preparativos – da confecção dos convites a preparação das lembrancinhas e comidas – apesar de me insinuar bastante eu nunca era convidada para as festas. Mesmo assim, eu partilhava da mesma ansiedade que os convidados e os aniversariantes sentiam. Minha ansiedade atingia o nível máximo no anterior a festa, quando eu perdia o sono pensando em tudo que poderia acontecer. Quando finalmente era vencida pelo sono os meus sonhos eram povoados por balões, chapeis de festa, língua de sogra, refrigerantes e muito bolo. No seguinte acordava cedo, reservava minha melhor roupa e, pouco antes das dezessete horas, eu lavava o rosto, passava um pano molhado por entre as axilas, penteava desajeitadamente o cabelo, me vestia e ficava na expectativa de ser chamada para desfrutar um pouco da diversão e das guloseimas. Algumas vezes eu não conseguia fugir aos olhares da minha avó e era obrigada a me recolher mais cedo. O que me levava a dormir era o cansaço de tanto chorar.
Quando eu conseguia ser mais esperta que minha avó, ou quem sabe, quando ela propositalmente me deixava ser mais esperta, eu acabava indo parar nas pistas de dança repletas de balões, meninas e meninos dançando ao som do Balão Mágico, Xou da Xuxa, comendo docinhos e tomando refrigerante. Na hora dos parabéns eu me encostava bem à mesa para garantir que eu ganharia uma lembrancinha e me fosse servido um pedaço de bolo. Quase sempre eu era a última a ser servida e receber a lembrancinha. Normalmente as lembrancinhas eram confeccionadas somente para aqueles que haviam sido formalmente convidados.
Bem, o tempo passou, as coisas mudaram, eu mudei. Mas, lamentavelmente, Aparecida não mudou muito. As experiências pelas quais passou – grande parte delas muito ruins – não a ensinaram nada. Ela continua a mesma pessoa traiçoeira, simulada e escrota. Certa ocasião, enquanto eu dirigia pelo bairro onde morávamos – ela continua morando na mesma casa onde eu passei por tantas humilhações – em busca de uma imóvel para comprar eu a encontrei bebendo sentada na calçada da casa à frente da sua.
Dirigia devagar procurando placas de venda quando ela me avistou e me convidou para descer do carro e lhe falar. Atendi ao seu pedido e fui me sentar ao seu lado. Tão logo me sentei ela me solicitou que lhe pagasse uma cerveja. Mandei lhe trazer duas e enquanto ela alimentava seu vício a ouvia dissertando pela enésima, agora para duas pessoas que eu acabava de conhecer, como havia sido a minha infância, de como era magra, descuidada, de como ninguém achava que eu iria “dar pra alguma coisa”... Ela não economizava na dramaticidade. Falava que eu não tinha o que vestir, que vivia nas casas em busca de comida e me escondendo atrás portas com medo de tudo. Ressaltava que, porém, atualmente não havia quem dissesse “quem fui eu”.
Talvez a irritasse o fato de não me causar constrangimento algum as revelações a cerca da minha história de miséria e humilhações. Então, ela repetia de forma jocosa algumas histórias da minha infância e adolescência e da minha relação com minha avó. Eu apenas ria. Infelizmente, ela não compreende que ser muito pobre ou nascer numa família desajustada não é uma escolha, é uma fatalidade. Já, passar a vida inteira sendo uma pessoa medíocre ou mau caráter aí sim é uma escolha. Uma péssima escolha, vale ressaltar!
Era visível a satisfação que ela sentia ao relatar a minha antiga condição. A mim estava claro o quanto era doloroso para ela perceber que nada do que ela dizia me atingia e que tudo aquilo que passei não me assombrava mais. Eu percebia o quanto era difícil para ela perceber que eu não era mais aquela pessoa indefesa e vulnerável e que ela não poderia usar sequer seu poder econômico para me humilhar. Pelo contrário, finalmente eu podia retribuir a “generosidade” que ela teve comigo.
Enquanto conversávamos pedi para uma das garotas que lhe fazia companhia antes da minha chegada e que eu acabara de conhecer para ir pegar um sanduiche e um refrigerante para mim na mesma lanchonete onde foi comprada a cerveja. Aparecida me perguntou se eu poderia pedir outro sanduíche para ela. Orientei a moça para que trouxesse dois sanduíches e um refrigerante. 
O pedido chegou e continuamos conversando, já que todas as vezes que esbocei movimento para ir embora ela insistia para que eu ficasse mais um pouco e, como com tempo livre naquela tarde, acabei cedendo a pressão. Também devo confessar que a situação estava bem divertida e eu daria um braço para permanecer ali e ver até onde aquele conversar iria nos levar. Não me incomodava sua presença, muito menos a sua conversa sobre o meu passado e suas perguntas sobre minha condição atual. Já as minhas revelações a deixavam visivelmente contrariada, a incomodava saber que eu estava bem. A naturalidade com que falava sobre as coisas que fazia e que havia feito e até mesmo sobre meu crescimento pessoal e profissional lhe causava um despeito sem tamanho. Até o tom da sua voz denunciava o desconforto que ela sentia. Mesmo assim ela não o parava de me fazer perguntas a meu respeito.
Quando finalmente a conversa se esgotou e conclui que ali nada mais me interessava resolvi partir. Agradeci pela companhia agradável de todas e me despedi. Caminhei até ao meu carro, liguei o motor e, finalmente, fui arrumar o retrovisor. Ao olhar em direção ao local onde estávamos sentadas pelo espelho do retrovisor a avistei com o dedo médio em riste. A encarei, sorri mais uma vez e movimentei a mão direita dando adeus. Conclui o aceno dizendo “Até mais Aparecida”. A sua expressão facial jamais poderá ser descrita. Apenas me arrisco dizer que revelava um misto de desapontamento, vergonha e medo. Fui embora rindo muito. Nunca mais a vi.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Meus três abortos

(Ou como a vida pode ser diferente para as mulheres que  decidem seguir em frente)

 Por: Uma Das Lutas (anônima)

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“Meu corpo, minha escolha”

A DOR


Aos 17 anos, engravidei pela primeira vez. Apaixonei-me perdidamente por um fotógrafo bem mais velho do que eu, ele devia ter 38 na época, extremamente sedutor e mulherengo. Logo de cara, nossa relação foi abusiva. Ele me manipulava, me fazia ficar próxima de uma das filhas dele (e me afeiçoei à criança), me expunha, era possessivo, mas sem dar pinta para quem estava fora da relação. Eu estava muito envolvida, muito entregue, e não percebia que esse era um modus operandi, era uma forma de controle. Um dia, em casa, passei muito mal. Enjoos, cólicas… fui parar numa emergência achando que era problema na menstruação. Estava grávida. Três semanas. Fiquei sem ação. Desde novinha eu imaginava como seria quando eu tivesse filhos, e fantasiei como seria ter aquele filho com ele. Eu liguei pra ele para contar, cheia de sonhos, expectativas de uma mocinha apaixonada, ainda com pretensões românticas… Ele falou categoricamente e que aquele filho poderia ser de qualquer um. Ele não iria assumir nada e eu era “uma vagabunda que saía com qualquer um”. E mais, não me daria um tostão para eu tirar um filho que não era dele. Claro que não era verdade, eu só estava com ele, mas ele estava usando uma das muitas armas que o patriarcado oferece: o aborto masculino. Ali, ele abortava aquele filho, sem a menor dor ou problemas. Para mim, os trâmites foram muito diferentes.
Eu queria aquele filho. Então, fui conversar com as minhas amigas da época. Elas simplesmente me destroçaram. Expuseram toda a violência da minha relação com o cara, ridicularizaram o fato de que eu ainda pudesse querer ter aquele filho, que seria uma ligação eterna com ele, que aquilo ia estragar minha vida (eu não acreditei nisso, nem lá, nem hoje em dia, esse nunca seria o motivo), que minha mãe nunca ia me perdoar (elas não sabiam que minha mãe era feita de companheirismo). Percebendo que não tinha jeito, que eu ia ser julgada eternamente (assim que me sentia), como muito medo, eu decidi que precisava tirar aquele feto de dentro de mim. Tentei com o Citotec, mas não adiantou, só tive uma hemorragia, morri de dores, mas a quantidade que me recomendaram não era o suficiente para que desse certo. Fui parar num hospital público e tive que ouvir absurdos religiosos de uma médica (que ela sabia que eu tinha tomado algo para abortar): que eu ia parar no Inferno, que ela estava cansada de ver vadias como eu engravidarem e não assumirem a responsabilidade, etc. etc... Ainda não havia coletivas feministas que pudessem ajudar e ensinar meninas desesperadas. Com muita vergonha, tive que recorrer à minha família. Estávamos passando por muitos problemas financeiros, meus pais tinham se separado e tudo era muito complicado. De qualquer forma, consegui marcar, com o valor que conseguimos, em uma clínica baratinha num bairro da Zona Norte, recomendada por uma amiga de uma amiga de uma amiga que havia feito o procedimento lá. Entrei naquela casa escura com muito medo, mesmo acompanhada. A sala era mal higienizada, um cheiro estranho, cheia de ladrilhos quebrados, sofás marrons de couro e o médico era um senhor com cara de mau humor nada reconfortante. A única pessoa ali que sorria, tentando ser receptiva, era uma enfermeira, uma mulher grande e gentil. Usava tranças afro enroladas em um coque preso numa touca branca. Ela me pediu para entrar e sentar na mesa ginecológica. O médico entrou, me deu um remédio sublingual e uma injeção anestésica. O problema foi que a injeção não pegou. Eu senti cada etapa do processo, urrando de dor, enquanto a enfermeira olhava para mim com aqueles olhos gentis, passava a mão na minha cabeça tentando me acalmar, me dizendo que “já estava acabando”. Depois de um bom tempo de muito sofrimento, fui levada para outra sala, onde pude descansar por alguns minutos em um dos sofás marrons antes de ir embora. Tive dores muito fortes, contrações uterinas absurdas, de me levarem a delirar, e hemorragias que escondia de minha mãe, ficando horas no banheiro durante uma semana, chorando envergonhada.
O saldo dessa experiência foi duro, foi muita anemia, foi muito medo de morrer, e foi muito ódio e incompreensão de porque eu havia sido jogada nessa fogueira por tanta gente que dizia que me amava. E claro, muitos olhares tortos pelo “pecado” que eu havia cometido e que, “de repente”, todo mundo parecia saber.
O ALÍVIO
Aos 24 anos, dei mole com a tabelinha, calculei errado, e engravidei de meu ex-marido, na época ainda era namorado. Eu estava muito doente. Muito doente mesmo. Com depressão gravíssima e síndrome do pânico. Já foi chamado de psicose gravídica, ou de depressão gestacional e eu não sabia como era comum. Só fui saber muitos anos depois, lendo um estudo sobre patologias mentais durante a gravidez. Na minha cabeça, não havia a menor possibilidade de ter uma criança. Eu provavelmente mataria qualquer ser que dependesse de mim naquele momento, fosse planta, bicho ou bebê. Mal conseguia sair da cama, quanto mais pensar em passar madrugadas amamentando, criando, cuidando… Ele deixou bem claro que a decisão era minha, mas eu conseguia ver o medo que ele estava sentindo. Não era a hora, não tínhamos condições de ter e cuidar bem de um filho. Nem condições materiais, nem condições emocionais. Eu estava tão mal, que até terminei com ele, não queria ver a pessoa que havia causado aquilo (ciente que havíamos feito tudo juntos, mas além da doença, meus hormônios estavam me deixando irritadiça, quase raivosa… Até o cheiro dele me incomodava).
Juntamos nossos dinheiros, recebemos ajuda de amigas queridas e pude marcar em uma clínica de alto luxo na Zona Sul. Uma clínica que parecia um hospital. Limpa, cheirosa, toda arrumadinha. Fiquei esperando numa sala, e lá recebi a medicação sublingual. Quando começou a fazer efeito, fui encaminhada para a sala de procedimento numa cadeira de rodas, e ao chegar percebi que era um centro cirúrgico. Recebi anestesia geral das mãos de um anestesista, o obstetra me mandou contar de trás pra frente, e apaguei por completo. Quando acordei, estava numa maca, coberta com um lençol, e rapidamente uma enfermeira veio me ajudar a vomitar (a anestesia causa isso) e passar pano molhado no meu rosto. Não me lembrava de nada! Não senti nada do processo!!! Eu chorava convulsivamente e ela me abraçou, achando que era tristeza. Eu a abracei de volta, olhei as outras macas e vi outras mulheres chorando e sendo amparadas. Era um lugar de escolhas difíceis, mas onde as mulheres eram realmente amparadas!!! Olhei para a enfermeira, e disse: “Estou triste, mas esse choro é de alívio, acabou”. Ela sorriu, sem julgamentos, e me ajudou a levantar e trocar de roupa. Na saleta ao lado, um pequeno lanchinho, “só para levantar a pressão”, ela me disse. Recebi os medicamentos que precisava para conter a hemorragia e qualquer possibilidade de infecção (vejam bem, me deram os medicamentos!) e pude ir embora com a amiga que me aguardava, pois não quis que ele fosse comigo e ele respeitou. Mais tarde ele foi me ver e choramos juntos, pela tensão de tudo, pela experiência partilhada (em alguns níveis) e deitei em seu colo e seu cheiro não importava mais.
Esse foi o aborto que quem tem dinheiro pode fazer. Esse foi o aborto que toda mulher que não quer ter um filho deveria ter o direito de fazer, pelo SUS, pelos planos de saúde. Mas as mulheres com dinheiro abortam com segurança, as pobres morrem com hemorragias e intolerância.
A TRISTEZA
Nesse meio tempo, aos meus 29 anos, eu tive um tumor no ovário esquerdo. Esse tumor era enorme e englobou meu ovário e minha trompa. O médico que me operou precisou retirar ambos junto com o tumor, e me disse que eu tinha sorte de não ter perdido todo o aparelho reprodutor, pois o tumor era agressivo, apesar de não ser maligno. Fui avisada que, se eu já tinha certa dificuldade com ovulação, tinha períodos menstruais dolorosos, seria muito pior. E que provavelmente eu não mais conseguiria engravidar. O ovário que sobrou já tinha um cisto grande, que foi raspado, mas a possibilidade de ter outros era certa, então entrei no tratamento de pílula anticoncepcional ininterrupta. Não menstruaria mais e diminuiriam os folículos que poderiam se tornar tumores na área.
Aos 36, achei que tinha encontrado um amor desses de arrebentar o peito. Passávamos horas e horas discutindo livros e rindo na cama, depois de uma noite juntos. Ele despertava em mim o desejo de cuidar, de estar junto, de mexer em coisas na minha vida que eu havia deixado para trás. Eu não fazia o mesmo por ele, acho que ninguém seria capaz de fazer o mesmo por ele, uma vez que ele é a pessoa mais importante de sua vida. Poliamorista, de acordo com ele, abusador psicológico, de acordo comigo. Uma pessoa desestruturada e egoísta que questionava o status da nossa relação o tempo todo somente para garantir que ela não alcançasse status algum. Dava-me amor num dia, para tirar no outro. Deixou-me sozinha num dos piores momentos da minha vida: quando fui agredida e quando minha avó morreu. Estou explicando essa relação para poder explicar minha decisão de não avisar a ele que estava grávida. Minha decisão de tirar essa pessoa terminantemente da minha vida. Soube duas semanas depois que terminamos que eu estava grávida. Mas somente quando fui parar no hospital com dores que fariam o mundo explodir que soube que era uma gravidez ectópica, ou seja, o feto estava se desenvolvendo dentro da trompa de falópio.
Quando soube que estava grávida, todo um misto de sentimentos me perpassou. Ter um filho, finalmente. Ter um filho de alguém que amo, mesmo que essa pessoa não esteja presente. Ter um filho, meu momento, minha escolha. Dessa vez, foi meu corpo que não quis. Se eu não tomasse o medicamento, eu perderia a trompa que me restava e poderia morrer no processo. Meu corpo, minha regras, minha vida em primeiro lugar. Chorei muito, sozinha, eu queria ficar sozinha naquele momento, era muito triste saber que algo que me fora dito que jamais tornaria acontecer, aconteceu, mas eu não poderia ter. Como minha avó estava internada, caminhando para seu falecimento, não contei para ninguém o que estava acontecendo. Marquei com o médico e fui sozinha para o hospital, um hospital particular. Um ginecologista num hospital particular pago pelo plano de saúde que eu tinha na época. Ele conversou muito comigo. Explicou-me exatamente o que faria. Ele aplicaria uma injeção de Metotrexato e Misoprostol, que provocaria uma hemorragia severa com aborto num período de 01 semana. Após o aborto, eu deveria voltar para curetagem e ultrassonografia. Quando a gente tenta explicar a dor para as pessoas, geralmente elas não entendem, a não ser que tenham passado por isso. Vou tentar ser gráfica: meu útero contraía com tamanha força, que eu não conseguia ficar parada em um lugar da cama. Quando o fluxo de sangue veio, era tanto, que eu precisava ficar sentada na privada por minutos e minutos. A força era tão grande que parecia o experimento em que se coloca um Mentos dentro de uma Coca Zero. Logicamente, o médico passou um medicamento para dor e outro para conter a hemorragia. Quando voltei ao hospital, ele me informou que a curetagem seria apenas para garantir que não haveria infecção, porque eu já havia expelido toda a “massa”. Receitou-me mais uns medicamentos e me pediu para voltar em 06 meses. Eu não pude voltar, porque nesse meio tempo fiquei sem plano de saúde e sem grana para pagar um médico de hospital particular. Mas, ficou tudo bem porque fui tratada a tempo, sem preconceitos e sem medos. O procedimento era “legal”, uma vez que minha vida estava em perigo.
Pergunto-me: Quantas vidas em perigo não foram tratadas a tempo, ou adequadamente porque as pessoas acham que aborto é uma monstruosidade? Quantas mulheres não morreram por viver o mesmo que eu vivi? As estatísticas são assustadoras. O aborto “clandestino” é a quinta causa de morte materna no país. Mais de 850 mil mulheres realizam abortos por ano no Brasil. E morrem milhares porque a anestesia não pega, ou dá choque anafilático, porque não sabem a quantidade exata de medicamento tomar, porque nem tem dinheiro para um médico e furam o útero com um arame e ficam jogadas sangrando num quarto qualquer. Morrem porque quando chegam à emergência de um hospital com hemorragia causada por tentativa de aborto, são mal tratadas, mal recebidas, julgadas como vadias, vagabundas e pecadoras. E mesmo que o caso tenha sido de aborto espontâneo, muitas vezes recebem o mesmo tratamento, porque nossa sociedade é perversa com mulheres. Mulheres que trepam, mulheres que engravidam, mulheres que adoecem, mulheres que… SÃO MULHERES. Mulheres que querem ser donas de seus corpos.
Eu estou compartilhando minhas experiências mais traumáticas com vocês porque sei que alguma mulher vai ler e vai se enxergar aí. E vai se perdoar, como eu me perdoei. Vai se olhar no espelho e entender que essa culpa não vem dela, mas de uma sociedade patriarcal conservadora e moralista,  com valores ultrapassados que precisam ser rebatidos diariamente. E quem sabe algum preconceituoso leia, e perceba que fazer um aborto não é ir ali na esquina tomar um cafezinho. Fazer um aborto causa muita dor, física, emocional. Muita! E tudo que nós mulheres precisamos é de compreensão, apoio e o direito de decidir.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Parto no Brasil



Resultado de imagem para parto humanizadoNo mundo: TODAS as mulheres dilatam em trabalho de parto;
No Brasil: a maioria das mulheres não tem dilatação 'eficiente'.

No mundo: cordão umbilical enrolado em qualquer parte do corpo (inclusive no pescoço) não atrapalha o nascimento do bebê por via vaginal;
No Brasil: cordão umbilical é 'assassino' e coloca em risco a vida do bebê.

No mundo: só se verifica 'falta de passagem' em mulher com dilatação completa, após horas de não-evolução de trabalho de parto e com monitoramento das condições materna e fetal;
No Brasil: a 'falta de passagem' depende da agenda do médico, dos antepassados da gestante e é avaliada em exame de toque e ecografias. 

No mundo: existem pouquíssimos motivos para se recorrer a cesariana (eletiva ou intraparto). E os casos são avaliados individualmente;
No Brasil: unha encravada, feriado, e diversos motivos absurdos levam mulheres saudáveis com gestação de risco habitual à mesa para uma cirurgia de grande porte;

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No mundo: parir é um processo natural. Parteiras atendem partos.
No Brasil: parir é um perigo. EXIGE médico!! (Talvez seja este o motivo pelo qual o índice de mortalidade materna e neo-natal brasileiro é alto).

No mundo: bebês nascem!!!!!
No Brasil: gravidez tem prazo de validade.

No mundo: casas de parto são maravilhosas;
No Brasil: ou as pessoas não sabem que existe, ou as pessoas falam mal.

No mundo: parto domiciliar é comum.
No Brasil: parto domiciliar?????????????? Tá louca????????????????

Resultado de imagem para parto humanizadoNo mundo: episiotomia de rotina foi abolida há anos;
No Brasil: médicos insistem em mutilar a vagina da mulher, sem consentimento, e acham que estão fazendo um favor ao marido (Lembrando: episiotomia não previne nada! Só complica!)

No mundo: mulher pari na posição que quiser.
No Brasil: a mulher precisa ser amarrada (na perna, no braço e na boca).

Resultado de imagem para violencia obstetriciaNo mundo: bebê saudável nasceu roxo (TODOS nascem roxos!), vai pro colo da mãe e mama;
No Brasil: bebê saudável nasceu roxo, que perigo! "Se o parto demorasse um pouquinho mais, tinha morrido...." ou então "Ainda bem que fizemos cesárea.... seu bebê estava sofrendo.... salvei a vida dele!".

No mundo: aspiração no bebê só se precisar;
No Brasil: todos os bebês são aspirados!

No mundo: nitrato de prata nos olhos do bebê não existe mais!
No Brasil: nitrato de prata nos olhos de todos os bebês pra evitar contaminação.
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No mundo: humanização é regra.
No Brasil: humanização é exceção. (Dani Fressato)


DILATAÇÃO E PARTO - Não existe dilatação de “5 dedos”. A dilatação se mede com 1 dedo, 2 dedos e a partir disso são centímetros, pois não dá para colocar 3 dedos, 4 dedos.. até dá, mas não é bonito. Então a dilatação vai em 1 dedo, 2 dedos, 3 cm, 4 cm… até 10 cm. (Ana Cristina Duarte )

Resultado de imagem para parto humanizadoCORDÃO UMBILICAL - Muitas grávidas estremeceriam ao ouvir que seu bebê está com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Mais ainda se soubessem que o cordão deu duas, três voltas na criança. Se você está entre essas mulheres saiba que a chamada “circular de cordão” é bem frequente e raramente resulta em uma contraindicação para o parto normal. De acordo com o obstetra Jorge Khun, da Casa Moara, um espaço de convivência dedicado às mulheres grávidas em SP, “cerca de um terço dos bebês se encontra nessa condição no final da gravidez”. A circular é resultado da própria movimentação do feto, que pode fazer com que o cordão se enrole e desenrole diversas vezes. E, ao contrário do que prega o senso comum, ele não “enforca” a criança, e pode ser facilmente desenrolado pelo médico durante o parto, depois da passagem da cabeça do bebê. O ginecologista e obstetra Alexandre Pupo Nogueira, do Hospital Sírio Libanês (SP), confirma e complementa: “A ocorrência de circular de cordão não é indicação de cesárea. O que vai definir o tipo de parto é a vitalidade do feto”.  (Revista Crescer.)
 
BEBÊS ROXOS - Todos os bebês nascem roxos, porque dentro do útero eles vivem o tempo todo com essa cor, sendo o útero um ambiente de baixa oxigenação. Só quando nasce e respira é que ele vai começar a ficar cor de rosa aos poucos. Mesmo bebês de afro-descendentes ficarão rosados, pois a cor rosa vem da circulação do sangue oxigenado. Portanto, quando disserem “você passou da hora, tanto que nasceu roxo na cesárea”, desconfie. Bebês nascem roxos, todos! Inclusive hoje, nos novos protocolos de reanimação, já não se considera a cor rosa como item essencial para um bebê que acaba de nascer. (Ana Cristina Duarte)
 
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- A episiotomia é um pequeno procedimento cirúrgico. Basta um corte na região perineal e, após a passagem do bebê, sutura. Se tudo der certo, a cicatrização leva cerca de seis semanas, período em que a mulher deve evitar esforços e relações sexuais. Quando os pontos não são feitos corretamente, porém, há risco de fibrose, dor prolongada, dificuldade de cicatrização e perda da sensibilidade na região. Alguns estudos da Biblioteca de Cochrane (ONG mundial que revisa publicações da medicina) mostram que a episiotomia pode trazer complicações graves, como laceração e frouxidão na região perineal, que, por sua vez, levam a problemas intestinais (caso de Amy Herbst!) ou, até mesmo, na contenção de órgãos como o intestino. [Indiada somente em casos particulares) Embora não existam recomendações formais, a episiotomia geralmente é indicada para mulheres com rigidez no períneo, parto pélvico (quando o bebê está sentado), sofrimento fetal e macrossomia (excesso de peso do bebê) ou, ainda, em parto de prematuros – já que a cabeça ainda não está completamente formada, a ampliação cirúrgica ajuda a evita hemorragias cranianas. Estes casos representam 10% dos partos normais, de acordo com a OMS. (Revista Crescer)

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- Não é necessário aspirar bebês saudáveis, nem colocar sondas na boca, nariz, ânus e vagina. A maior parte das malformações genitais podem ser observadas a olho nu. As atresias de esôfago são tão raras que não se justifica colocar sonda nos esôfagos de todos os bebês, pelo próprio risco do procedimento. Em suma, bebês não precisam de sondas. (Ana Cristina Duarte)

NITRATO DE PRATA - Nos últimos tempos, a necessidade da utilização de medicamentos para prevenção da conjuntivite neonatal (CN) passou a ser questionada em alguns países desenvolvidos, devido ao elevado nível de assistência pré-natal. Ao contrário, no Brasil, embora não haja dados oficiais sobre sua ocorrência, vários trabalhos recentes comprovam elevada prevalência da infecção genital em mulheres em idade fértil e em gestantes. Isso, aliado ao fato de que o índice de transmissão da infecção genital por clamídia e gonococo, da mãe infectada para o recém-nascido é de 30 a 50%, leva à conclusão de que a profilaxia medicamentosa está mais que justificada. A CN implica em importante potencial de complicações locais e sistêmicas, além da necessidade de exames laboratoriais para seu diagnóstico etiológico. Por isso, constitui importante problema de saúde pública, negligenciado no Brasil, onde não há padronização do método de prevenção. Embora o uso do nitrato de prata pareça ainda ser o método oficial, seu uso tem sido questionado devido à incompleta proteção contra clamídia, principal agente da conjuntivite neonatal nos dias atuais, e pela frequente ocorrência de conjuntivite química. Por isso, tem sido substituído por outros agentes, como a eritromicina, a tetraciclina, além de outros antibióticos. A superioridade da Iodopovidona em relação a esses antibióticos, nos vários quesitos analisados, tem sugerido que esse é o mais adequado entre os produtos, testados até o momento, para prevenção da CN... (Angelo Ferreira Passos, Fernanda Spinassé Agostini)