quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Jamais me chamem de louca!



Resultado de imagem para luz de candeeiro imagemAté há algum tempo considerava a possibilidade ser um pouco doida. Cresci ouvindo a minha família dizer que eu era louca, doidinha varrida. Tentaram até obter laudo para atestar a minha insanidade. Aos doze anos, mesmo com toda dificuldade de acesso à saúde pública e exames de média complexidade, fui levada ao hospital para fazer um eletroencefalograma em busca de alguma anormalidade no meu cérebro que pudesse ser usada para confirmar o diagnóstico de qualquer doença de ordem psiquiatra.
Eu não era exatamente aquilo que minha família esperava de uma garota. Não me encaixava naquilo que se convencionou chamar de imagem de uma menina. Não me comportava conforme os estereótipos criados para o meu gênero. Mas, a sentença tácita de que era louca veio quando parei de chorar durante os espancamentos que sofria. 
Isso, eu era constantemente espancada, tanto em casa quanto na rua. Em casa para “tomar jeito de gente”, “me emendar” ou “deixar de ser maluvida”. Na rua porque era a pobretona raquítica que não aguentava um sopro. Num dado momento cheguei a conclusão que a minha forma de enfrentamento seria o silêncio. Não havia como revidar as agressões que sofria dos meus familiares, então, me restava o silêncio como forma de resistência. 
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Se as surras já eram violentas, a partir desse momento se tornaram ainda mais severas. Entretanto, eu não mais me esquivava dos golpes, como também não derramava uma lágrima ou emitia qualquer som. Nunca havia ouvido falar na filosofia ou no conceito da não-violência do Mahatma Gandhi, pregada como uma forma de revolução. Mesmo assim, sem querer, eu fiz a minha revolução. 
Agir assim criou uma celeuma na minha casa. Era o que faltava para o decreto “tá doida”. Diziam “ela não está bem, apanha calada imóvel de olho fixo. Temos que bater um eletro da cabeça da coitadinha”. 
Felizmente, atestaram que não havia nada de errado com meu cérebro. Apesar do diagnóstico, ainda hoje, por vezes, dizem que não sou muito normal. Até bem pouco tempo eu achava que tirava proveito disso. Achava que o bom de ser louca é não ser contrariada. Lembra a expressão, “louco não se contraria”? Eu achava que dava para pintar e bordar e ouvir no máximo “isso é coisa de doido, não devemos levar em consideração”.  E sob a prerrogativa de ser doida eu me senti livre pra dizer e fazer as coisas mais estapafúrdias que me desse vontade. Pintava o cabelo de laranja, lilás, loiro, azul, cortava quase no zero. Usava calças jeans rasgadas, pintava o olho todo de preto. 
Não, eu não era punk ou emo. Pessoas da minha classe social seriam doidas mesmo. Minha suposta loucura só não me permitiu fazer uma tatoo. Só não fiz porque as tatuagens do meu tempo de adolescente eram medonhas. A menos que tivesse uma grana legal pra pagar um bom tatuador.  E, embora fizesse toda essa porralouquice, eu mantinha relativo senso estético. 

Resultado de imagem para luz de candeeiro imagemPassei a vida inteira acreditando na minha loucura. Qualquer coisa que eu fizesse que desagradasse me chamavam de doida, louca, desequilibrada e similares. Eu estava tão acostumada a ouvir esse tipo de agressão que achava natural. Até que conheci a expressão GASLIGHTING. 
Na psicologia o termo "gaslighting" (à luz do candeeiro a gás) refere-se a um método de manipulação sutil, embora, eficiente no qual o agressor (no casal, ou de pais para filhos) destrói a confiança e -em casos extremos- a sanidade mental da vítima.
 “Quando a vitima é uma criança, que precisamente por confiar absolutamente nos pais e nos adultos em geral está mais vulnerável, uma convivência prolongada com um perpetuador de ‘gaslight’ deixa marcas muito profundas na sua personalidade. O adulto distorce o que a criança diz para a levar à contradição ou para a convencer com argumentos lógicos de não estar a dizer a verdade, não estar a ser razoável ou estar a enganar-se nas suas memórias. O ‘gaslighting’ prolonga-se e mesmo quando o sobrevivente adulto confronta o pai ou parente agressor não obtém dele a admissão deste tipo de manipulação e abuso.
Quem faz ‘gaslight’ sobre outro(s) tende a faze-lo tanto sobre o/a companheiro/a como para com os filhos, evita confrontos directos em vários sectores da sua vida, não admite as suas perversões nem em privado, protege a sua imagem social, manifesta consternação e sofrimento por ser acusado ou colocarem em causa a sua integridade.
Este adulto manipulador nega sempre que é confrontado. Por exemplo, nega sempre que a criança (ou já em adulto) lhe diz que fez comentários insultuosos e abusivos, nega que faltou a uma promessa, que abandonou a criança num momento critico, etc.
A negação não é absoluta, por exemplo, não nega que tenham ocorrido aquelas situações apenas assegura que a vítima/sobrevivente não se está a lembrar delas claramente e que está a interpretar mal o que o adulto (agressor) disse ou fez. Por este motivo o ‘gaslight’ é muito difícil de gerir pela vítima, que fica confusa e não consegue compreender que está a ser manipulada, vindo a duvidar da sua percepção e eventualmente do seu juízo.
Perante terceiros este adulto (pai, mãe ou outro cuidador) expressa preocupação e cuidado com a criança, evidenciando casualmente que a criança tem tendência para a mentira ou que é ‘problemática’ ou que ‘quer atenção’, de modo que outros adultos não venham a levar a sério eventuais insinuações por parte da criança.” 
Sobreviventes de Negligência Infantil. 
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Então, eu me tornei adulta, casei e continuei ouvindo esse tipo de insulto. O interessante é que se tornou mais frequente ouvir isso sempre que contrariava, principalmente, homem. Naturalmente, apesar de ficar irritada, tentava não criar confusão para não passar de vez o atestado. No entanto, depois de tomar conhecimento do termo compreendi que essa é uma prática bem antiga e é usada para nos controlar.
Em casa, é uma luta diária para desconstruir o costume que meu companheiro tem de vez por outra dizer que eu estou louca ou que outras mulheres estão loucas.
“O Objetivo de quem promove este tipo de violência emocional é remover a credibilidade da parceira, atribuindo suas queixas e desconfianças a uma psicose, desta forma não só ela mesma vai crer que é louca, mas todos ao seu redor também. Gaslighting é usado para se referir a qualquer tentativa de fazer outra pessoa duvidar de seu senso de realidade.
O agressor levanta informações falsas com a intenção de causar duvida na vítima. A vitima passa a duvidar de suas próprias memórias, percepção e sanidade. Feminismo Sem Demagogia.
Resultado de imagem para luz de candeeiro imagemEm outras palavras, o Gaslighting ocorre no momento em que o agressor convence de maneira premeditada de que a vítima praticou atos e participou de fatos inexistentes com o intuito de transformar a mesma em alguém dependente do próprio agressor. Isso porque, normalmente, o Gaslighting ocorre em relações que existe uma proximidade íntima entre a vítima e o agressor, ou seja, o agressor aproveita dessa própria intimidade para assim promover essa modalidade de agressão. Com isso, nota-se claramente que o Gaslighting trata-se realmente de uma violência psicológica em face da vítima, pois existe presença de uma conduta que promove o dano emocional e até mesmo a diminuição de sua auto-estima, tendo em vista que a vítima está tendo a sua vida indevidamente manipulada.[...] Um exemplo típico de Gaslighting é quando o agressor afirma falsamente à vítima que a mesma não atendeu aos seus telefonemas ou até mesmo que não compareceu ao encontro marcado, fazendo assim que a vítima se sinta culpada de um fato inexistente e que foi criado somente com o escopo do agressor ter o pleno domínio da relação afetiva. Portanto, observa-se que o agressor pratica o Gaslighting com o objetivo principal de sempre ter o domínio da relação existente com a vítima. Juliana Brechó. 
Apesar de o termo ser bastante novo a prática é relativamente antiga. Ao longo do tempo, diante de qualquer atitude/sintoma desviante, quase sempre relacionada à nossa sexualidade, fomos tendo reiteradamente a nossa sanidade questionada . Quem nunca ouviu falar em histeria?
“A palavra histeria está em circulação há mais de dois mil anos. Desde a antiguidade e em particular com Hipócrates a histeria já era usada para designar transtornos nervosos em mulheres que não haviam tido gravidez. Em manuscritos egípcio muitos séculos mais antigos que a acepção de Hipócrates, aparece uma doença identificável correspondente ao termo. A palavra histeria – histeros, que em grego, quer dizer útero- ao longo da história estava, por definição ligada de forma indissociável ao feminino e com o sexual. Na Idade Média a Histeria passou a ser definida como possessão pelo demônio.” Psicologado.
Da histeria à possessão, sempre se buscou formas de marginalizar a nossa sexualidade e por em xeque a nossa capacidade de ter controle sobre o nosso corpo e a nossa própria vida.
“[...] a loucura esteve ligada a várias compreensões ao longo da História, sendo que a loucura feminina, em muitos momentos, foi associada à sexualidade. Alguns registros que remontam ao Egito Antigo atribuíam ao interior do corpo da mulher uma condição de malignidade, pela presença do útero e pelas particularidades desse órgão, que, ao deslocar-se pelo corpo, produziria sintomas semelhantes aos atribuídos ao quadro atual de histeria, compreendido como um protótipo de loucura (Vilela, 1992). Outro fragmento da compreensão a respeito da loucura na Idade Antiga é colocado por Del Priori (1999), através do resgate da obra de Galeno, na qual a melancolia era associada aos vapores advindos do sangue menstrual, causador de alucinações. Ao longo da Idade Média, muitas foram as mulheres classificadas como bruxas pelo Movimento Inquisitor (Tosi, 1985; Pessotti, 1994). No geral pobres e de origem rural, as chamadas bruxas apresentavam condutas estranhas, indicativos de possessão demoníaca. Algumas dessas condutas assemelhariam-se a quadros, atualmente, descritos como histeria, melancolia, mania, depressão ou ansiedade. Além dessas condutas, outras características dessas mulheres seriam suas competências ou poderes anormais frente à sua condição social dentro da comunidade: também denominadas como feiticeiras ou "mulheres sábias", as bruxas conheciam "[...] as propriedades das ervas ou plantas com que preparavam poções e ungüentos reputados eficazes no tratamento de doenças tanto físicas quanto mentais" (Tosi, 1985, p. 42). Uma terceira caracterização acontecia através da voluptuosidade, acusações de transgressão à ordem moral, prática da prostituição, adultério e aborto (Pessotti, 1994). Tratava-se de mulheres que não haviam se integrado à sociedade pelo casamento, procriação, produção doméstica, convertendo-se em sobrecarga para a época. A caça às bruxas, segundo Vilela (1992), fortaleceu a associação entre mulheres e a loucura, o livre exercício da sexualidade, a existência fora do casamento e a maternidade e, de acordo com Tosi, cumpriu dois objetivos: o primeiro foi a eliminação das mulheres que praticavam a medicina empírica, e, segundo, a disseminação do "[...] terror na população feminina, o que facilitaria sua normatização social" (Tosi, 1985, p. 42).  Renata F. Pegoraro e regina Helena L. Caldana

Resultado de imagem para luz de candeeiro imagemPortanto, por todos os milhares de anos de repressão sexual, de tolhimento da liberdade, de sujeição a papeis sociais secundários e inferiores por conta do útero. E principalmente, por conta do massacre de centenas de mulheres consideradas bruxas, do aprisionamento de de outras centenas de milhares de mulheres que não se submetiam passivamente as normas sociais, não aceito que nenhum homem me chame de louca, doida, histérica ou sugira que tenho qualquer desequilíbrio de ordem psicológica. Espero sinceramente não ter minhas vivências, experiências questionadas simplesmente para legitimar um esquema milenar opressor machista que me inferioriza e me desacredita.  

PS: O Gaslighting também é caracterizado como violência psicológica e está devidamente inserida na Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) como sendo uma das formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, conforme prescreve o artigo 7º, inciso II, da referida lei.


3 comentários:

Anónimo disse...

Ana,
você é uma inspiração pra mim.

Ass: Ana.

ROSA gONÇALVES disse...

ANA ESSE TEXTO ME REMETE A MINHA ADOLESCÊNCIA EM QUE SEMPRE FUI UMA MENINA REBELDE NÃO ME DEIXAVA SER MANIPULADA NEM SEQUER OBEDECER REGRAS ,APANHAVA DE MINHA IRMÃ QUE ERA DAQUELAS MENINAS PURITANAS ! .NA VIDA ADULTA AINDA ME CHAMAM DE LOUCA QUANDO ME REBELO CONTRA ESSAS INJUSTIÇAS ACOMETIDAS NA SOCIEDADE,NA VIOLAÇÃO DE DIREITOS.MAIS DE FATO É UMA VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA E QUE PRECISAMOS COMBATER COM DENUNCIAS E BUSCAR EFETIVAR A LEI MARIA DA PENHA.

Denise Marinho disse...

Que tema pesado, hein? Quantas de nós não são chamados no dia a dia de loucas? Imagina se cada irmãzinha for contar sua história? Acho extremamente importante.

Hoje, quando me chamam de doida, não tenho mais paciência para dar aquela risadinha e deixar por isso mesmo. Faço questão de pontuar a ignorância daquela pessoa, geralmente a chamando de ignorante e limitada. Faço passar vergonha SIM. Eu posso, não sou louca? Hahahah!

Qualquer coisa que saia daquela norma do "meninas foram feitas para serem vistas e nao ouvidas" já é tachada como louca, histérica, mal amada e mais recentemente: recalcada. Assumiu-se que é normal q a mulher cuide da casa, do marido e dos filhos. Isso td depois do trabalho. E sem dar o famoso "show"!

Vivemos uma época de uma grande maioria que repete oq ouve sem reflexão e/ou entendimento, que usam essas palavrinhas chave sem nem saber pq e assim vão perpetuando essa bosta toda. Bosta sim, pq até a pessoa mais ignorante e subdesenvolvida sente falta de se expressar livremente. Só não sabe o que é.

O que essa gente babaca nao entendeu é que são as pessoas que quebram os limites que fazem o mundo.