quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O que é sexismo?



Por Ana Eufrázio


    Sexismo pode ser definido como atitude, comportamento e/ou ideologias discriminatórias as quais se atribuem disposições e capacidades exclusivas ao indivíduo ou grupo em detrimento de outros indivíduos em razão de sua identidade de gênero ou orientação sexual. Resulta na tendência para estabelecer estereótipos, pretensamente fundamentados na Biologia, onde se reconhece qualidades e defeitos que seriam intrínsecos e específicos de cada sexo.

    Trata-se de uma forma de discriminação que em geral atinge o gênero feminino, buscando sua subalternização, à marginalização ou mesmo à exclusão do meio social.  Por atingir fundamentalmente o gênero feminino, aqui se inclui homens não viris, pode-se considerar que o sexismo abrange uma postura ou conduta misógina de desprezo pelo gênero feminino, sua pretensa desqualificação e desautorização. Tais comportamentos estão associados ao predomínio de culturas tipicamente androcentricas ou falocentricas, onde as mulheres são tomadas como seres de menor prestígio social.  

    
    Nas sociedades tidas como sexistas há a tendência de se legitimar a violência contra o gênero feminino (quer seja na forma sexual ou em suas outras tipificações) através da culpabilização da vítima. Nos crimes sexuais busca-se questionar o comportamento da vítima, inferindo-se que teria sido este o verdadeiro provocador do crime e o homem vítima dos desvios morais da violentada. Esta conduta tenta inocentar o homem, afinal, ele seria apenas mero objeto dos estímulos sexuais produzidos pelas fêmeas, as reais culpadas pelos transtornos produzidos. No caso de violência física, o procedimento é o mesmo, logo se questiona qual comportamento da vítima teria precipitado a agressão. Como se qualquer agressão, seja ela praticada por homem ou mulher, pudesse ser justificada.
  
    Entretanto, deve-se destacar que enquanto postura, comportamento, posição ou ideologia, o sexismo e atitudes sexistas podem ser cometidas por todo e qualquer indivíduo, independente do gênero a que pertença. Nesse contexto, atos sexistas são cometido também intra-gêneros, tanto de mulheres contra mulheres, quanto de homens contra homens, e de gay contra gay. Entre o gênero feminino se dá a partir da revalidade entre as mulheres com a consequente desqualificação, desprezo ou visível submetimento de umas com relação às outras.

    Diferentes termos podem ser utilizados para nomear os processos ideológicos, culturais e atitudes sexistas dependendo do alvo dos agravos. O sexismo contra homens é chamado de misandria ou androfobia. O sexismo contra mulheres é comummente denominado de machismo, chauvinismo ou misoginia. As formas de sexismo contra LGBT podem ser genericamente nomeadas como homofobia ou cissexismo.

Os mecanismos que levam ao sexismo, apesar de baseados nos aspectos sexuais biológicos, estão essencialmente fundamentados na censura aos comportamentos que se afastam daquele que seriam “esperados” para determinado gênero. Assim sendo, no chauvinismo ou machismo o comportamento feminino está sempre sob suspeita; se a mulher tem muitos parceiros é vagabunda, se não, é santinha do pau oco; se a mulher veste-se de maneira sensual está querendo ser estuprada, insultada ou procurando homem; se sorrir pra alguém está se oferecendo, se fica sozinha com ele num ambiente está permitindo ser violentada; ao se casar esta dando permissão para o marido ter sexo com ela sempre que quiser, independente da sua vontade...
 
    Esse tipo de concepção deriva dos pressupostos de que um gênero (ou uma identidade sexual) é superior a outro. Na negação de que, apesar das diferenças biológicas, os indivíduos são iguais e têm direitos iguais. Na existência de características comportamentais que são intrínsecas de cada gênero, de modo que todas as pessoas deste gênero as possuem e se revelam através de generalizações como "todo homem é mulherengo" ou "toda mulher é delicada" ou "todo homossexual é promíscuo". Além de centenas e milhares de sentenças que são repetidas ostensivamente com a finalidade de oprimir e subjugar o outro.


Fontes: http://www.infopedia.pt/$sexismo 
Karin Ellen von Smigay; Sexismo, homofobia e outras expressões correlatas de violência: desafios para a psicologia política

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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Confissão: Eu matei a mulher que morava comigo.




Eu, que já não suportava mais olhar para aqueles olhos de desconfiança, não tive escolhas e cometi um homicídio.
Eu a matei por não suportar sua subserviência, suas maneiras delicadas de achar bonito o “psiu” a beira da rua.
A matei por rejeitar seu jeito sonso de se sentir lisonjeada com o “gostosa” dito por algum gaiato protegido por sutil anonimato.
Cometi o homicídio por acreditar verdadeiramente que essa mulher me traia ao propagar que toda mulher deveria estar sempre erotizada pra olhares masculinos.
A estrangulei por perceber que ela se insinuava pra se sentir desejada e por isso mais mulher.
Ela morreu porque achava que era normal o homem brigar por ela e sentir ciúmes quando ela saia sozinha.
Ela foi morta porque acreditava que a maternidade era dever de toda mulher e que ser mãe era o maior sonho de toda e qualquer mulher.
Eu a matei porque ela repetia que toda mulher é frágil e precisa ser protegida pelo seu companheiro. Além disso, pensava que o homem deveria sempre segurar a “onda” e nunca se fragilizar.
Matei-a porque ela dizia que todo homem tem de querer fazer sexo sempre que for instigado pela mulher.
Ela morreu porque achava que era da natureza do homem trair e que a mulher honesta não pensa em outros homens.
Matei-a porque ela achava que mulheres casadas não deveriam gostar muito de sexo e, menos ainda, assumirem publicamente que gostam de sexo...
Matei a Ana Eufrázio sexista pra que eu fosse livre e pudesse viver plenamente minha feminilidade.


Por Ana Eufrázio.


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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O baile


Por Ana Eufrázio


Ela ainda não teria quinze anos. Era, ao meu ver, ainda uma criança. Perco-me em recortes que possam recriar a figura da minha mãe. Como seria? Penso que deveria ser parecida comigo. Poderia ser magra, ter lábios carnudos, cabelos compridos, pele bronzeada de sol. Com certeza seria tímida, teria poucas roupas, não saberia dançar e não conheceria as músicas tocadas pelos bailes da cidade. Ainda chamaria as festas de tertúlias, usaria perfume da Avon e vestiria saias plissadas em tergal. 
Estela estaria na casa de uma amiga se produzindo pra o baile de logo em seguida. Em seu estômago centenas de borboletinhas voavam, se tocavam e roçavam delicadamente suas paredes. O banho demorado, a dúvida sobre o que vestir, se a saia azul turquesa com blusa de cetim preta, ou se vestido frente única vermelho e sandálias plataforma dourada. O batom vermelho derraparia levemente o contorno dos lábios, o blush rosa expandiria a bochecha até o canto da boca e o lápis contornaria sinuosamente de um canto ao outro do olho. Ver-se ante o espelho a faria deixar despencar pequenas gotas de lágrimas. Na agonia do quarto se ouvia o tilintar agudo do tremor de suas pernas.  Estaria pronta? Não, inexoravelmente não estaria pronta. Nem em mil anos estaria acabada pra sua estreia.
Todavia, ouvia-se ao longe rasgos de guitarra, a percussão da bateria e os testes do microfone. Da janela da sala surgiam burburinhos de moças e repazes que sorriam, falavam e cantavam. Sobre a mesa a lamparina anunciava o fim do querosene, a chama deslizava de um lado a outro ensaiando seu ato final. Através do lençol branco, que fazia às vezes de porta, viam-se as sombras passando, era o entra e sai dos rapazotes que também estariam na festa e que, assim como as moças, se aprontavam pra sair. Dona Lúcia, mãe de Rejane, desfilaria uma centena de recomendações e conselhos que deveriam ser seguidos à risca. Não poderiam beber, chegar depois das onze, sair de perto dos irmãos, dançar com estranhos, voltarem sozinhas...
  Talvez Rejane, amiga de Estela, não tivesse noção do que representaria aquela aventura pra vida da minha mãe. Dona Estela conheceria o homem que mudaria a sua vida irreversivelmente. De todos os homens que passaram por ela, os que a encararam, dos que a ignoraram, dos que a chamaram pra dançar, ela optou por seu Chico Quebra Rádio. 
Como teria sido o primeiro encontro deles? Estaria dona Estela sentada diante de sua mesa, e ele insistiu em buscar seu olhar?
Certamente ele chegou até sua mesa, cumprimentou Estela, Rejane e seus irmãos. Ofereceu um gole de bebida pra os rapazes e uma Coca-cola para as moças. Olhou nos olhos da minha mãe e ela retribuiu de canto de olho com um sorriso tímido, amarelo e gaiato. Meu pai a convidou pra uma dança. Seria apenas pretexto para tira-la da mesa e leva-la pra um canto. Com reservada delicadeza a imprensou entre ele e à parede, esticou o braço direito e encostou a mão no muro, a mão esquerda tentaria levar o copo de cerveja a boca de Estela. Ela recusou e tentou se desvencilhar de seus braços. Ele ousou mantê-la sob seu controle. Entretanto ela lhe escapou e lhe virou as costas fazendo a saia girar e ele caminhar em sua direção. Ao voltar-se pra trás, levantando levemente a saia, deu de cara com ele. Neste momento ele a segurou pela mão e prometeu nunca mais deixa-la fugir novamente.
Imagens: http://revistaquem.globo.com/Revista/Quem/foto/0,,15141084,00.jpg 
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