terça-feira, 23 de abril de 2013

O grito como mecanismo de intimidação.




 O feirante grita pra chamar a atenção dos clientes. O leiloeiro grita com o intuito de entusiasmar o comprador. O treinador grita pra incentivar o time. O homem grita com a companheira com o intuito de intimida-la, como meio de fazer valer sua vontade, livrar-se de uma situação desfavorável ou como uma simples demonstração de poder.
É fato que a imensa maioria dos homens tem compleição física superior a das mulheres e, portanto, um grito masculino nos soa extremamente intimidador. O simples encarar de olhos esbulhados já quer nos dizer que há perigo à vista. E o homem sabe disso. Sabe também que dificilmente vamos enfrenta-los fisicamente. Então ele usa o grito como ameaça. Subentende-se que depois que ele grita nada mais deverá ser feito ou dito, pois há risco iminente de ter que enfrentar sua fúria na forma mais devastadora, a agressão física.
Ouvimos gritos quando estacionamos mal o carro, quando passamos a marcha errada, não entendemos algo, cometemos algum erro. Mas, sobretudo, ouvimos gritos quando questionamos os homens, quando tentamos iniciar um diálogo acerca de algum assunto que lhes possa ser inconveniente.  Nessas ocasiões o grito é a ferramenta que vai impedir a progressão da conversa, ele vai nos manter sob controle, vai fazer com que recuemos e desistamos dos esclarecimentos. O efeito desejado é realmente nos amedrontar, nos acovardar e nos causar insegurança.
Para o homem, o confronto é efeito colateral do grito. Ele deseja evita-lo, mas caso não seja possível não se esquiva dele. Já a mulher se preocupa bastante com o embate, pois não pode precisar que contorno este irá tomar. Todas nós conhecemos bem as possíveis consequências do enfrentamento e nos esquivamos dele o máximo possível. É uma batalha desigual, cujos danos podem ser irreparáveis. Esses fatores nos deixam em grande desvantagem. Essa fragilidade é usada pelo “macho” pra nos oprimir.
Há a cultura da tolerância aos gritos, olhares intimidadores, palavras grosseiras e xingamentos. Estamos tão condicionadas que não vemos toda essa hostilidade como uma forma de violência, uma forma de demonstrar superioridade física e de nos submeter as suas vontades. Apesar de passar despercebida, essa é a mais comum forma de opressão contra nós mulheres. É a cultura machista se impondo sobre nós e nos mantendo sob seu domínio. E sempre que se sentem encurralados eles gritam. É um ciclo vicioso, quanto mais se conquista com o grito, mais eles gritam. Não obstante, quando o grito deixa de surtir efeito, a violência passa a manifestar-se através do espancamento.
Devemos, portanto não nos deixar intimidar, devemos encarar o grito como ele realmente é, uma ameaça, uma violência e mais um mecanismo de opressão contra a mulher. Numa relação entre iguais deve prevalecer o diálogo, os conflitos devem resolvidos através da conversa, deve prevalecer o respeito mútuo.  Onde há hostilidade há uma relação doente, falta respeito e igualdade. Neste contexto não há como se manter saudável ou educar filhos saudáveis.
O grito é uma das manifestações da violência psicológica e como tal pode ter implicações contra o agressor quando denunciada. É imprescindível que nós mulheres não sejamos conivente com essa agressão. 

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