
E, na “calada da noite”, enquanto estávamos distraídos festejando o desempenho do país na recepção da Copa do Mundo ou lamentávamos os resultados dos últimos jogos da nossa seleção, a bancada conservadora do Congresso apresentou três Projetos de Lei que visam derrubar integralmente ou diminuir a abrangência da Lei 12.845 (veja no parágrafo 1º no final do texto) que estabelece garantias às vítimas de violência sexual (oferta imediata da pílula de emergência, informações sobre os direitos da vítima, incluindo orientações sobre aborto em casos de gravidez decorrente de estupro).
Observe através do relato logo abaixo, de autoria de uma garota de 16 anos, de quem a bancada religiosa quer caçar direitos.

Eu tinha 4,5 e 6 anos quando aconteceram as primeiras vezes.
Eu moro no mesmo terreno do meu estuprador, e às vezes, de noite, ele bate na janela do meu quarto.
É, eu tenho muita dificuldade pra dormir.
Ele chama meu nome.
Sussurra, com aquela voz horrenda.
Minha mãe aluga uma casinha ali, pra ele, a mulher e a filha.
Eu insisti pra ela não fazê-lo.
Eu pedi.
‘Ele é trabalhador. Para de implicância’
Minha mãe o viu, em pleno ato, uma vez.
Mas é, implicância minha.
Uma noite, no mês passado, minha mãe saiu pra ir na igreja com meu irmão.
Nesse dia em especial, ela não trancou a porta.
Eu não tranquei a porta do banheiro também, por achar que estava sozinha em casa.
Entrei no banheiro, me despi e liguei o chuveiro. A agua correu.
Ele veio por trás e me agarrou, tentei gritar, mas ele com a mão forte esmagou minha pele no aparelho, me calando, ou quase.
Ele me jogou no chão e me estuprou.
Foi pior dessa vez, talvez pela minha consciência do que tava havendo de fato.
Sangrei e chorei, mas ele acabou rápido.
Me lavei, chorei e não consegui contar nem pro meu maior amor.
Sim, eu ainda me sinto sujo, mesmo sabendo que não foi minha culpa.
Eu queria morrer.
Nesse dia em especial, ela não trancou a porta.
Eu não tranquei a porta do banheiro também, por achar que estava sozinha em casa.
Entrei no banheiro, me despi e liguei o chuveiro. A agua correu.
Ele veio por trás e me agarrou, tentei gritar, mas ele com a mão forte esmagou minha pele no aparelho, me calando, ou quase.
Ele me jogou no chão e me estuprou.
Foi pior dessa vez, talvez pela minha consciência do que tava havendo de fato.
Sangrei e chorei, mas ele acabou rápido.
Me lavei, chorei e não consegui contar nem pro meu maior amor.
Sim, eu ainda me sinto sujo, mesmo sabendo que não foi minha culpa.
Eu queria morrer.

Os dias passaram, e eu não dormia, não comia, não sentia.
Até que...
Até que o tempo passou e eu não menstruei. Só um sangramento leve.
Nem cólica.
Eu tava grávida daquele monstro.
Daquela aberração.
Então contei tudo pra minha parceira.
Ela prometeu me ajudar, prometeu me apoiar, e apoiou. Eu tomei litros do famoso chá de canela e nos dias que se seguiram veio todo o sangue. As cólicas. Chorei de alegria.
Não tive a aberração.
Eu não.
Mas minha janela ta trancada.
E eu moro no mesmo terreno do meu estuprador.” Sarah (nome fictício)

Lei 12.845. Dispõe sobre o atendimento obrigatório
e integral de pessoas em situação de violência sexual.
Art. 1o Os hospitais devem oferecer às vítimas de violência sexual atendimento emergencial, integral e multidisciplinar, visando ao controle e ao tratamento dos agravos físicos e psíquicos decorrentes de violência sexual, e encaminhamento, se for o caso, aos serviços de assistência social. (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12845.htm)
2 comentários:
É amiga Ana é mais sério do que a sociedade encara! O pior de tudo é que não temos na bancada parlamentar, ainda, uma feminista ou umas feministas "porretas" para calar a prepotência desses canalhas que ameaçam um direito já garantido à mulher brasileira!
Abraços cheios de esperança de mudança!
Ana Eufrásio, parabéns e obrigada por abordar um assunto tão importante para as mulheres e para uma sociedade mais humana de uma forma tão clara e corajosa. O depoimento da menina é forte, mas dói mais ainda saber que isso é muito comum em tantos terrenos, quintais, e até famílias, onde a vítima é obrigada a conviver com o estuprador e vive acuada... O debate sobre estupro precisa sair do terreno do medo/vergonha/culpa e ocupar espaço de responsabilidade na sociedade. Se omitir é ser cúmplice!!!
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