Apesar
de estuprador ter sido preso em flagrante, juiz diz ter levado em conta que o
agressor, um indivíduo de 25 anos é réu primário e disse que estupro é “fato
isolado” ao ordenar sua soltura.
“A Justiça mandou
soltar, nesta terça-feira, um dos dois
suspeitos de estuprar uma adolescente de 17 anos na noite do último
domingo, próximo do Anfiteatro Pôr-do-Sol, em Porto Alegre. Segundo o juiz da
6ª Vara Criminal da Capital, Paulo Augusto Oliveira Irion, a decisão foi tomada
com base no fato de o jovem de 25 anos ser réu primário. [...] Com a
decisão, mesmo tendo sido preso
em flagrante, Marlon Patrick Silva de Mello, que completou 25 anos
exatamente no dia em que cometeu o crime, vai responder em liberdade. No
entanto, deve cumprir algumas exigências, como comparecer em juízo regularmente
e não se aproximar da vítima. Ainda conforme Irion, o segundo suspeito, Rodnei
Alquimedes Ferreira da Silva, 56 anos, deve permanecer preso até o julgamento,
porque já foi condenado anteriormente, incluindo tentativa de estupro. Foi graças
a três moradores de rua que a polícia conseguiu prender os dois
suspeitos. Ao ouvir os gritos da vítima, dois deles foram tentar socorrer a
garota enquanto outro correu à Delegacia da Criança e do Adolescente (Deca)
para chamar a polícia. O caso aconteceu próximo ao Anfiteatro Pôr-do-Sol, por
volta das 23h30min de domingo. Vanessa Kannenberg em ZH
Antes
de qualquer comentário é interessante fazer uma observação importante sobre
essa notícia; os dois não são suspeitos de estupro, eles foram presos em
flagrante. Portanto, eles são estupradores sim. Dito isso, felizmente essa
garota teve sorte que os moradores de rua tenham se importado com seus gritos.
O que tem sido bem incomum em se tratando ir prestar ajuda a algum desconhecido
na rua. Principalmente uma mulher gritando pedindo ajuda. Esse esquema de não
intervir quando uma mulher pede socorro achando que pode ser briga de casal é
uma forma cruel de omissão.
Acho
que já passou da hora de esquecer essa história de que “em briga de marido e
mulher não se mete a colher”. Quando há uma mulher pedindo ajuda ela realmente
precisa de ajuda. E é necessário que a gente comece a entender que nenhuma
mulher está pedindo, pediu ou gosta de apanhar. Ninguém gosta de apanhar, se
está apanhando e não sai da situação de abuso é porque não tem mecanismo para
romper com o processo de abuso.
Mas,
voltando à atitude do juiz, eu simplesmente não compreendo como um homem que
está praticando um estupro e foi preso em flagrante possa ser colocado no
convívio com a sociedade. Ele não cometeu um furto, não cometeu um estelionato,
não foi pego transportando drogas. O cara foi preso praticando um dos piores
crimes cometidos contra uma pessoa, que inclusive pode se converter numa séria
ameaça a vida. Como assim vai responder em liberdade?
Quando
eu falo que existe cultura do estupro tem gente que fala que eu exagero, que eu
sou muito radical. Como não acreditar que esse tipo de benefício não é mais um
artifício que acaba corroborando com a
ideia de que o estupro é um delito de menor gravidade?
Vivemos numa sociedade que sistematicamente abusa e violenta nós
mulheres. Uma em cada dez meninas com menos de 20 anos já foi vítima de violência sexual,
segundo um relatório divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância
(Unicef). Ainda de acordo com o documento estima-se que cerca de 120 milhões de
meninas no mundo tenham sido sujeitadas a atos sexuais forçados somente em
2012. De acordo com a Secretaria de Políticas para as Mulheres uma mulher é
estuprada a cada 12 segundos.
“Segundo a Anistia Internacional, em relatório divulgado
em 05/03/2004, mais de um bilhão de mulheres no mundo - uma em cada três - foi
espancada, forçada a manter relações sexuais ou sofreu outro tipo de abuso,
quase sempre cometido por amigo ou parente.
No relatório "Está em nossas mãos. Páre a violência contra a mulher", a Anistia diz que o problema não está confinado a regiões mais pobres e fez um alerta: “Em todo o mundo, um quinto das mulheres foi vítima de estupro ou de tentativa deste tipo de crime”.[...] Na França, 25 mil mulheres são violentadas a cada ano. De acordo com a Anistia, o número de vítimas reais de abuso deve ser muito maior, devido ao estigma que inibe denúncias. Cedesfes.
No relatório "Está em nossas mãos. Páre a violência contra a mulher", a Anistia diz que o problema não está confinado a regiões mais pobres e fez um alerta: “Em todo o mundo, um quinto das mulheres foi vítima de estupro ou de tentativa deste tipo de crime”.[...] Na França, 25 mil mulheres são violentadas a cada ano. De acordo com a Anistia, o número de vítimas reais de abuso deve ser muito maior, devido ao estigma que inibe denúncias. Cedesfes.
Diante
de dados tão alarmantes como os apresentados acima acredito que não há espaço
para tolerância, para medidas brandas ou paliativas. Estamos diante de um grave
problema de ordem social que tem provocado um sério problema de saúde pública. Nossas
mulheres estão adoecendo tanto física como psicologicamente por conta de abusos
sexuais e estupros. Sem contar com o medo generalizado que temos de nos tornarmos
às próximas vítimas de violência sexual e que acaba também sendo adoecedor.
O
abuso e o estupro são fantasmas que nos rondam a todo momento, dentro dos consultórios médicos,
ônibus, universidades e na própria casa. Além de temer nos tornarmos às
próximas vítimas ainda temos de lidar com a desconfiança de que o estupro acabe
caindo nas estatísticas da impunidade. Isso porque além de sabermos que a
polícia não investiga e não tenta localizar o culpado, ainda há casos como
esses, em que o abusador/estuprador mesmo localizado e sendo processado
continua livre para continuar agindo.
“A
historiadora Denise Bernuzzi, professora da PUC e especialista em relações
entre o corpo e a cultura contemporânea, afirma que a impunidade de criminosos
sexuais deteriora o processo democrático. ‘Segundo ela, em uma democracia, a
mentalidade machista vai naturalmente sendo reduzida e dando lugar a um
pensamento igualitário. Denise afirma que aqui esse processo, que já é
lentíssimo, ainda engatinha, visto que vivemos em uma democracia há pouco
tempo.’ Mas se houvesse uma punição mais efetiva, aliada à educação, isso
certamente aceleraria essa mudança. No entanto, o que vem ocorrendo no Brasil,
com a falta de vigilância da lei, acaba emperrando ainda mais o processo de ser
ver uma mulher como igual’, diz.” BBC
3 comentários:
Ótimas palavras.
Muitos falam em reforma política, reforma de judiciário, penas mais duras... e isso seria até válido, mas acho que o que mais resolveria mesmo seria uma mudança de mentalidade. Pois enquanto o estupro continuar sendo assim banalizado - como se o cara tivesse cometido uma "molecagem" - é que pessoas como essa serão devidamente punidas.
Oi Isabela, muito boa a sua contribuição. A sensação é exatamente a que você colocou, de que o estupro é uma molecagem inconsequente sem maiores danos. Naturalmente essa ideia é alimentada na cabeça dos meninos para que possam abusar e não se sentirem culpados por seus crimes, como também não serem punidos. Mas quando o estupro ocorre dentro da família deles aí a revolta é tamanha que o desejo é de matar o estuprador. Contraditório né?
Cada vez fico mais estarrecido com o rumo que o Brasil esta tomando. A impressão que tenho é que os maus intencionados tem se infiltrado em altos escalões da justiça, dos direitos humanos e outros para legislar em beneficio próprio e dos demais com igual indole.
Concordo plenamente com o exposto, como o estuprador pode ser considerado suspeito; ele foi pego em flagrante!!!
Depois quando vemos noticias da comunidade prendendo adolecentes infratores a postes para os expor e apoiamos publicamente (caso da Jornalista Rachel Sheherazade) somos acusados de apologia ao crime. Apologia ao crime é o que este juiz e muitos outros fazem diariamente ao deixar todo tipo de infratores sair em liberdade por serem primario. Na escola podemos errar e corrigir, em muitos casos ainda na escola somos abrigados a perder um ano repetindo novamente por nao termos atingido media. Todos os dias temos exemplos que favorecem os criminosos como reduzir a criminalidade.
Quem faz uma lei que faz dar a mulher do criminoso um auxilio de mais de R$ 900,00 por dependente, quando muitos pais de família trabalham um mês inteiro pro bem menos que isso.
Quanto temos uma rebeliao em um presidio, um preso torturado quem aparece?? Os direitos humanos.... mas onde eles estão quando um cidadao de bem é vitima, quando a familia de um policial fica orfão ??
Esta tudo errado, tudo.
A este juiz eu só não desejo que a filha dele seja igualmente estuprada (caso ele tenha uma filha), por que ela nao tem culpa de ter o pai que tem. Mas ele gostaria de saber que foi vitima de tal violencia. Ai gostaria de ver se agiria da mesma forma....
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