segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Anita X Pitty quem ganha?



O feminismo é claro. Quem pensou ou tentou usar o debate sobre sexualidade, centrado nas duas, para vender fofoca acabou perdendo seu precioso tempo. Anitta e Pitty estão muito bem. Agradecida!
Anitta participa da gravação do programa Altas Horasimg-1028124-pittyO que ficou de lição de tudo isso foi a sororidade, linda lição dada pelas feministas. E ainda de quebra o debate e repercussão na mídia ajudou a difundir um pouco mais o feminismo nosso de cada dia e conceitos como sororidade.
Pitty e Martin conversam com Serginho durante o intervalo do Altas Horas.“O feminismo promove a sororidade. Sororidade vem do latim, sororis irmã e idad, relativa a qualidade. Se o pacto entre os homens é conhecido como fraternidade e reconhece parceiros e sujeitos políticos excluindo as mulheres, a Sororidade é o pacto entre as mulheres que são reconhecidas irmãs, sendo uma dimensão ética, política e prática do feminismo contemporâneo. Patriarcado é uma cultura, um sistema, uma civilização, um sistema econômico, um sistema político, um sistema legal, um sistema religioso, um sistema científico, e assim por diante. Mas acima de tudo, o patriarcado é um PODER. Um poder que se manifesta em todos os lugares, instituições, pessoas, hábitos, culturas, religiões, ideologias, mesmo entre mulheres. Isto porque o patriarcado socializa com os papéis e as hierarquias de gênero que existem entre homens e mulheres. O patriarcado existe há tanto tempo pois promove a sociabilidade entre homens, que se tratam como irmãos (fraternidade), atribuindo-lhes poder. Enquanto isso, obriga as mulheres a reproduzirem e sustentar materialmente os homens, socializadas entre si como inimigas, servindo aos interesses do desejo masculino.” Texto adaptado de: “O que é feminismo” de Dra. Elida Aponte Sánchez e publicado no “O machismo nosso de cada dia”.

Anitta (Foto: Celso Tavares / Ego)Então, o que rolou foi mais uma tentativa de provocar uma rivalidade entre as divas. No entanto, como prática do feminismo, não concordamos em humilhar, ridicularizar ou expor negativamente outras mulheres e sim compreender o universo no qual elas se encontram inseridas, nós feministas acolhemos Anitta e compreendemos que as declarações feitas por ela refletem conceitos apreende e não um pensamento plenamente consciente. 




Pitty (Foto: Celso Tavares / Ego)Por isso, as críticas devem se concentrar na estrutura que incute nas mulheres, e homens, conceitos reproduzidos por ela e nas próprias frases que ela repetiu. Sempre de forma respeitosa e a apoiando pra que ela possa desconstruir todos os preconceitos que carrega.  Então, como parte dessa empatia e desse pacto de irmãs, precisamos antes de qualquer comentário ou crítica compreender de que forma foram construídas as ideias resumidas nas frases reproduzidas pelas duas.
Felizmente a Pitty teve um melhor acesso e opressão diferenciada, Anitta tem muito que aprender sobre o movimento, mas ela é somente uma vítima. A Anitta era suburbana, parda que se embranqueceu, cantava em baile funk de periferia, tem 21 anos. É MUITO mais hiperssexualizada que a Pitty, que é branca, sempre foi classe média, tem 37 anos, é casada e formada. É sim mais fácil problematizar liberdade sexual e machismo quando tu não é das carnes mais baratas do mercado, quando tu não sofre uma hiperssexualização mais intensa e quando tu não é taxada de "vadia" mais vezes pelos motivos que citei e também por cantar um tipo de som periférico. É inegável que o machismo que a Anitta e a Pitty sofreram na vida são diferentes, e que o tema da discussão delas é sobre algo que atinge SIM mais a Anitta. Ela recorreu ao, infelizmente, típico modo de defesa: falar que as mulheres tem que se dar respeito. Ela [Anitta] a vida inteira ouviu que precisa se dar respeito, que não pode usar a maioria das roupas sem parecer sensual demais, foi mais assediada na rua, porque ela e milhares de outras mulheres foram marginalizadas e oprimidas de uma forma diferente, por se encaixarem nos padrões que a sociedade não mostra um pingo de preocupação.
A alienação da Anitta é uma opressão, ela mesma é acusada o tempo inteiro de não se dar respeito pelo seu estilo de se vestir, cantar e dançar. Dói em mim ver uma menina achar que está se libertando reproduzindo o que ela ouviu a vida inteira, mas isso é o resultado da alienação misógina, não algo que eu deva apontar o dedo e rir me achando superior por não pensar mais assim. Nós temos que nos focar em combater quem fez ela pensar assim, não combater ELA.'' Maia Muniz.
Doutra forma, reproduzir o machismo acaba sendo um dos efeitos da socialização feminina.

“Anitta é tão vítima do machismo quanto qualquer outra mulher. Ela só está reproduzindo machismo, como muitas mulheres ainda fazem. Infelizmente, nós, mulheres, somos ensinadas desde pequenas a agradar o homem, sendo delicadas, boas donas de casa, boas amantes, a cuidar de nossos corpos para os homens e nos ensinam também a odiarmos umas às outras. Porque assim, as mulheres criam a rivalidade entre si e não conseguem se unir e ainda defendem os homens. Porque, além de aprender todo esse comportamento que temos, também aprendemos que homem é assim mesmo, que ele apenas segue seu instinto masculino de ser escroto e que nós que devemos nos preservar. Resumindo, não julgo a Anitta, porque já tive discurso bem parecido com o dela e sei como é difícil desconstruir toda essa postura. Venho aprendendo e desconstruindo com o feminismo e ainda tenho muito o que aprender. Jéssica Lorraine    Valadão.

Então, importante também é compreender que Anitta não foi machista.
“Anitta é vítima do machismo, da misoginia e do patriarcado.
Ela, assim como qualquer outra mulher, não se beneficia do discurso machista, os únicos que se beneficiam disso são os homens. Ela, assim como qualquer outra mulher, sofre com a misoginia e machismo diariamente.
Nós somos ensinadas pela sociedade machista de que somos inferiores, de que não podemos certas coisas porque somos mulheres, nós temos nossa sexualidade reprimida, nosso corpo controlado, nossas vontades e desejos podados, somos ensinadas que mulher não é confiável, que mulher é nossa inimiga, que temos que disputar homens com elas.
É nossa culpa? Não! Isso é algo enraizado, é algo que nós aprendemos como certo e portanto, é comum que a gente reproduza essas coisas, mas nós não nos beneficiamos disso.
Precisamos desconstuir essas coisas, em nós mesmas e nas outras mulheres. Foi isso que a Pitty fez. Ela não sambou, ela não destruiu, ela não acabou e nem humilhou a Anitta, ela desconstruiu um discurso.
Quando uma mulher diz: "Mulheres não podem fazer coisa A", ela não se beneficia, porque ela também nunca poderá fazer a coisa A.

Quando um homem diz: "Mulheres não podem fazer coisa A", ele se beneficia, porque ele exclui mulheres, mas ele poderá fazer a coisa Ah! Numa boa. Entendem porque mulher não pode ser machista? Entendem porque ela só reproduz o discurso? Ela nunca vai se beneficiar daquilo! E não é culpa dela porque é algo que foi ensinado como certo a vida toda!
Não vamos perder tempo nos vendo como inimigas, não vamos perder tempo brigando umas com as outras, nossa luta é contra o patriarcado...
Luiza       



2 comentários:

LUCIANO disse...

Textos Sublimes.
Parabéns, Ana Eufrázio.
Vc sempre "sambando" na cara do Patriarcado!!!
Me lembro que na época do ocorrido, as pessoas criticaram muito a Anitta por isso, esquecendo que ela é apenas um PRODUTO DAS CIRCUNSTÂNCIAS...não tem um projeto musical e sim é comercializada.
Já a Pitty, mais experiente e afins, e mostrou ACIMA DAS CIRCUNSTÂNCIAS por pertencer a uma realidade diferenciada.
Ser Feminista é como desenvolver o gosto pelos estudos na escola pública..é muito dual, mas gratificante.
Eu, por ser um homem Progressista Feminista, sofro a cada dia.
Estou tentando destruir o patriarcado, e confesso que é extenuante,
Pois as pessoas não discutem ideias e sim fixa dogmas.
Enfim, Precisamos por abaixo esse machismo naturalizado pelas mulheres. esse é o pior..

Ana Eufrázio disse...

Obrigada por acompanhar o blog Luciano.
É muito gratificante receber esse o retorno do leitor. Espero que este blog contribua, de alguma forma, na luta pela desconstrução do machismo.