domingo, 8 de março de 2015

Aborto legal, seguro e gratuito.


Resultado de imagem para imagem de feministaHoje, no dia internacional das mulheres, vou fazer uma reflexão bem pessoal. Não vou me estender sobre os milhares de estupros de mulheres que ocorrem anualmente no Brasil, ou sobre o relato de estupro, em tom de deboche, feito por Alexandre Frota numa emissora da TV aberta. Também não vou explicar que a postura do “ator” tem relação com a cultura do estupro. Muito menos vou falar – noooovamennnnnte – sobre a pornografia de revanche que tem levado muitas mulheres ao suicídio porque a sociedade acredita que mulher não pode ter fantasias ou sexualidade. Também não vou alertar que a cada 05 minutos uma mulher é agredida, que a cada 12 segundos (doze segundos) uma mulher é estuprada ou que a cada 02 horas uma mulher é morta no Brasil. Não vou me demorar relatando sobre os diversos tipos violência que nós mulheres sofremos a cada segundo e nem sobre as diversas formas que essas afetam a nossa autonomia, autodeterminação, saúde, autoestima...
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Hoje reflito sobre mim e sobre minha mãe (e por extensão sobre muitas outras mulheres) e todas as opressões que, principalmente ela sofreu, inclusive com a maternidade compulsória.

Estou com 41 anos, num casamento estável, que está beirando 18 anos. E diferentemente da minha mãe (e de muitas outras mulheres) não tenho filhos porque tive oportunidade de escolher. Pude escolher porque sou instruída, tive acesso a métodos contraceptivos e quando estes falharam eu pude pagar pelo aborto.
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Sim, anticoncepcionais falham, camisinhas rasgam, tabelinhas falham... Eu engravidei tomando anticoncepcional, mas não queria ser mãe, não tinha tempo, tinha outras prioridades. Tinha 25 anos, um marido incrível, que não queria que eu abortasse.

Entretanto, eu tinha muitos planos. Inclusive de viajar, terminar a faculdade, fazer uma especialização... E por mais que digam que filhos não é empecilho filho é sim fator impeditivo para muita coisa. Dizer o contrário é no mínimo desonestidade. Filha/o não é empecilho para o pai, que pode até se eximir da responsabilidade financeira imagine dos cuidados. Enquanto que para a mãe, de acordo com a nossa cultura, é obrigação dela cuidar, educar, tudo isso sem ao menos reclamar do trabalho sob o risco de ser acusada de não ser uma boa mãe.
Resultado de imagem para imagem de feminista 
Então, optei por não levar adiante a gravidez. Meu companheiro, apesar de não querer que eu fizesse o aborto, me apoiou, inclusive buscando os meios para que eu interrompesse a gravidez (como ocorre em muitos casos) e cuidando de mim. Já os cuidados pós aborto muito raramente são prestados pelo namorado, ficante ou companheiro. Cabe sempre a uma amiga, mãe, tia.
Bem, diferentemente da mãe, eu tinha e tenho condições financeiras e psicológicas para fazer um aborto. Se eu faria novamente? Acredito não, porque estou cogitando a possibilidade de ser mãe. Ainda não estou certa disso, filha/filho é muita responsabilidade e trabalho.
Então, por que sou a favor da descriminalização do aborto?

Resultado de imagem para maternidade compulsóriaPorque muitas mulheres não têm condições de escolher. E por conta disso estão morrendo ou se submetendo a procedimentos inseguros, colocando a vida e saúde delas em risco.

Sou a favor do direito de escolhas das mulheres. Sou a favor dos direitos das crianças que merecem nascer e viver num lar onde elas sejam realmente desejadas e amadas.

Resultado de imagem para imagem de feministaEnquanto mulher, feminista, não me cabe somente ter empatia para com outras mulheres, cabe ter sororidade com todas elas. Então, é minha obrigação ser completamente solidária com todas as outras mulheres indistintamente. E foi com esse senso de sororidade que compreendi o quanto que a vida da minha mãe poderia ter sido diferente se a gente não vivesse numa sociedade machista e de tolerância com a violência. Não só a vida da minha mãe como a de muitas outras mulheres e crianças poderiam ter sido diferentes caso não vivêssemos numa sociedade nos culpabilizando por nossas escolhas e nos estigmatizando pelo simples fato de sermos mulheres.

Resultado de imagem para maternidade compulsóriaEntão, é necessário que a gente compreenda que aborto não é um fetiche. Mas, pode ser uma medida legal e segura que pode afastar a possibilidade de morte da mulher, o abandono da criança (principalmente pelo pai) e os problemas de saúde decorrentes de procedimentos lesivos.
 
Resultado de imagem para maternidade compulsóriaE se minha mãe tivesse me abortado?

Minha mãe recorreu a muitos chás na tentativa de me abortar. Sinto muito que ela não tenha tido as mesmas condições que eu tive, principalmente, a financeira. Porque ela não precisava levar a diante uma gravidez onde foi abandonada à própria sorte pelo meu pai, apanhou dele durante a gravidez - já perto do meu nascimento- e ainda assim, teve que me deixar para ser criada pelos meus avós. E pior de tudo é que hoje, mesmo sabendo que foi o melhor que poderia fazer por mim, se culpa por não ter acompanhado o meu crescimento e\ou não ter sido uma boa mãe.

Se eu queria que minha mãe fosse presa por ter tentado me abortar?

Resultado de imagem para maternidade compulsória
É a partir da relação que construí e da sororidade que tenho com minha mãe que compreendi a importância de uma das mais relevantes bandeiras do feminismo, a legalização do aborto e o acompanhamento desse procedimento através do serviço público de saúde.

É por mulheres como a minha mãe que eu sou a favor do aborto legal, gratuito e seguro.


6 comentários:

Mulher Ideal Cariri disse...

Gosto da tua ousadia Ana Eufrázio!!
Certo dia comentei com alguém por aqui, que existem muitas crianças abortadas após virem ao mundo! Os maus tratos e abandonos também abortos!
Presenciei seis crianças sendo levadas dos pais, para abrigos! A mais velha tinha 12 anos e cuidava dos irmãos... os pais? dependentes de álcool e drogas, espancavam e queimavam os pequenos, e ainda lhes mandavam comprar "pinga" no boteco!
Se isso não for pior que um aborto, que nome tem?
Concordo com você Ana, somos autoras das nossas ações e donas do nosso corpo! Só cabe à mulher decidir e o estado acatar... bjooo

Ana Eufrázio disse...

Obrigada pelo carinho Célia Rodrigues (Mulher Ideal). Sempre me prestigiando. É uma honra tê-la como leitora.

Silvia Bastos disse...

Ana, o drama da sua mãe é o de muitas Marias do nosso país e principalmente do nordeste.
Ser uma situação comum, infelizmente, leva para a naturalização e seu texto faz a ruptura com esse processo do "é assim mesmo"!
Vivi e vi também muitas coisas que valorizam uma voz escrita e falada como a sua..Parabéns

Silviabastos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Silviabastos disse...

Ana, estou em Fortaleza se quiser conversar final de tarde me ligue....

Rosyane disse...

Oi Sílvia, Moro em Acarau - CE como faço para falar com você?