quinta-feira, 12 de março de 2015

O lado cruel da obstetrícia



Essa semana me deparei com um relato chocante de uma estudante de medicina. Gostaria de deixar com vocês para que possam perceber até onde pode ir o sadismo de alguns profissionais de saúde.

Grávida de seu primeiro filho aos 16 anos, mulher chega à maternidade, com contrações em intervalos regulares e 07 cm de dilatação. Não se queixava de dores fortes, apenas desconforto e certo cansaço. Andamos pelos corredores, do lado de fora da sala do pré-parto das 23h até 0h.
Tudo corria bem, eu fazia, quando ela solicitava, massagens em sua região lombar.
Quando, de repente, a médica plantonista apareceu no local, para atender outra paciente (ali não há pré-parto individual), e, ignorando o meu relato que a paciente estava evoluindo super bem -prescreveu ocitocina* diretamente no soro, sem preciso controle do número de gotas- apesar de a paciente e a mãe dela haverem dito que não queriam.
"A obstetra aqui sou eu!" retrucou a médica.
Bom, a paciente começou a sentir contrações dolorosas, ficando impossibilitada de caminhar.
A obstetra mandou ela se deitar na cama, para novo toque, dizendo "Ah, você está fazendo é fiasco!" e rompeu a bolsa da paciente com amniótomo (equipamento usado para furar a bolsa). O Líquido amniótico era claro e os batimentos cardíacos do bebê eram lindos, e eu captava a cada 10 min, preocupada com tanta ocitocina. E argumentando com a obstetra, porque a paciente queria tirar 'o sorinho"

"Dra, ela estava com contrações efetivas, ritmadas..."
"Ah, mas agora é 0h30min... Vamos acabar com isso já!"
"Mas...Dra, não vejo necessidade, ela estava caminhando..."
e repete a pérola "Quem é a obstetra aqui? É tu?".
Bom, lá pelas 2h da manhã, a paciente estava completa, ainda que o bebê ainda estivesse alto. E a "dra"...tasca outro soro com ocitocina na moça... sobre protestos da paciente, da mãe (acompanhante) e meus... (levei uma super bronca porque deixei a paciente beber ÁGUA).
Bom, quando o bebê "desceu" e estava quase coroando, a doutora, com gestos rudes, fez a paciente levantar-se do leito e me pediu para levá-la para a sala de parto, cerca de 10 metros dali.

E disse para que eu me paramentasse, porque seria eu que daria assistência àquele parto.
Minha colega estagiária, também interna, constatou que os batimentos cardíacos fetais estavam em 140bpm, enquanto posicionávamos a paciente em posição de litotomia (ou ginecológica).

Bom, a cabeça vinha descendo lentamente, mas descia... Batimentos do bebê bons, excelentes. Mas a obstetra, impaciente, gritou para minha colega realizar manobra de Kristeller**, mas como ela se negou e eu disse para ela que nós não realizávamos aquilo, ela brigou conosco, xingou todo mundo e mandou a enfermeira subir na escadinha e fazer. A enfermeira quase montou na paciente, que berrava pelamor para pararem, que doía muito e não conseguia respirar.

"Cala a boca!" disse a obstetra. E subiu na paciente também.
e eu dizendo que não tinha necessidade, que estava descendo
Um pandemônio.
A obstetra se enfureceu, me tirou de campo e fez episiotomia***.
Minha colega mediu novamente os batimentos cardíacos fetais = 136 bpm.
Não contente, pediu para a enfermeira trazer o fórcipe. Quando ela colocou, a paciente berrou de dor. E a episiotomia, já enorme e feita contra a vontade de paciente, aumentou ainda mais!
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Bom, enfim, ela puxou a criança à fórcipe, desnecessariamente ao meu ver, porque o bebê descia, ainda que lentamente... Batimentos cardíacos fetais bons, nenhum sinal de sofrimento fetal, até o dorso do bebê estava à esquerda, como manda o figurino.
E olhou para mim, ao final e disse: "você que ficou aí parada, sutura aqui a episio!"
Resultado de imagem para contra a violência obstétricaLevei mais de 1 hora para suturar. A minha colega e eu anotamos TUDO no prontuário. O expulsivo durou cerca de 30 min
A "doutora" não gostou do nosso registro e "passou a limpo o prontuário", fazendo nova folha de registro! E foi dormir.
Ah, ainda recebi bronca por 'ter deixado a familiar entrar'. Quando retruquei que era lei federal, ela disse "mas eles não sabem!"
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Esse foi o caso mais criminoso e horrível que eu assisti, o parto mais violento.
A minha paciente, chorou e a mãe dela disse "É assim mesmo, filha". Eu disse que não era, que não precisava ser assim horrível, enquanto suturava aquela episiotomia horrível, profunda, enorme, ia até quase a nádega da moça.
Quando solicitei á enfermagem gelo perineal, para reduzir o edema, elas disseram 'Só se a Dra. prescrever!". Precisei me humilhar na frente da obstetra, para conseguir que fosse colocada a compressa de gelo, no fim, consegui, mas ela deu a entender que "É bom ela ver que pôr filho no mundo não é brincadeira!"

E daí eu entendi que ela fez tudo isso porque a moça tinha apenas 16 anos!
O que mais me doeu foi ver que as pessoas não tem consciência de que isso é violência, mesmo a minha colega e eu falando.
A mãe dela disse, no fim 'Olha, Dras... Eu não vou denunciar a médica porque a gente precisa dos médicos!! A gente nunca que deve fazer uma coisa dessas com quem cuida da gente!"
Foi de partir coração, ouvir isso. A minha colega e eu choramos de raiva, de frustração, de tudo, no quarto dos internos, depois!".

*A ocitocina é um hormônio naturalmente produzido pelo nosso organismo para gerar as contrações do útero durante o trabalho de parto e a liberação do leite durante a amamentação. Ele foi sintetizado em laboratório e assim se tornou uma medicação muito útil, que pode ajudar a salvar vidas, se corretamente indicado.

** Manobra de Kristeller (ou técnica de Kristeller) é uma manobra obstétrica executada durante o parto que consiste na aplicação de pressão na parte superior do útero com o objetivo de facilitar a saída do bebê, o que pode causar lesões graves para a mãe, como fratura de costelas e descolamento da placenta. Já os bebês podem sofrer traumas encefálicos com o procedimento.


*** Episiotomia é uma incisão efetuada na região do períneo (área muscular entre a vagina e o ânus) para ampliar o canal de parto e prevenir que ocorra um rasgamento irregular durante a passagem do bebê. É geralmente realizada com anestesia local.
Relato de uma aluna de medicina interna.


4 comentários:

ana claudia Folha disse...

Nossa, Ana! chorei com esse relato! é realmente espantoso como a violencia obstetricia é praticada dessa forma e mais dói mais ainda saber que as pessoas simples pensam que isso é normal!

rose gomes disse...

To em choque pq o meu parto foi bem dessa forma mais eu estava tao anciosa pelo meu primeiro filho... E totalmente desinformada... Achei q estava tudo nos conformes!! Meu parto durou 12hrs tomei ocitocina duas vzs tbm.
E ate hj sinto dores nas minhas costelas do lado esquerdo e alem disso a minha placenta q nao foi expulsa, tive q receber novamente outro"empurrão" para expulsá-la...
Hj depois desse relato fiquei super triste, pois minha irmã, q era minha acompanhante achou q eu sofri muito e eu dizendo q nao!!!

Luciano disse...

Isso é atemorizador.
Essas mulheres testemunharam o espetáculo da Médica e Monstra.
Se fosse uma garota de classe média alta ou rica, jamais isso teria acontecido.
Não precisa fazer medicina para constatar o quão cruel foi essa "profissional da área da saúde'...ainda bem que as ESTÁGIÁRIAS foram conscientes e humanas.
Confesso que como Homem fiquei muito abalado psicologicamente.
Não admitiria isso, pois sei que a Ciência não evoluiu para essa direção de tortura física e emocional.
Compete a menina controlar a fecundidade dela.
Se essa mérdica quisesse ajudar, orientaria e não violaria a dignidade humana dessa garota.
ASSUSTADOR.

Ana Eufrázio disse...

Sinto muito que tenha passado por isso Rose. Sinto mesmo. Espero que o quanto antes nós mulheres não tenhamos que passar por tamanha barbaridade ou crueldade. Caso queira me mandar o seu relato eu posso divulgar no blog.
Um Grande abraço e espero sinceramente que tenha superado o trauma.