segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Uma explosão de machismo e homofobia...




 


Lamentavelmente, ainda tem homem que se sente no direito de sair passando a mão nas mulheres que encontram na rua, como se elas fossem meras mercadorias que estão expostas para serem avaliadas ao tato. Não se contentam só em olhar e soltar piadinhas, têm de porem as mãos e tatear. E ainda temos de nos darmos por satisfeitas por termos sido agredidas na nossa intimidade, caso contrário, ante qualquer reação corremos o risco de sermos agredidas. Foi o que aconteceu com quatro garotas que foram agredidas no terminal de ônibus de Sacomã, zona sul de São Paulo.

As garotas desciam as escadas rolantes quando uma delas teve suas nádegas apalpadas por um homem que se encontrava atrás delas. Após reclamarem do assédio, dizendo a atitude teria sido uma falta de respeito, duas delas acabaram sendo agredidas a socos. As garotas afirmam que a violência foi praticada após o agressor ter percebido que elas eram lésbicas. Antes dos espancamentos ele as insultou com xingamentos homofóbicos. Testemunhas afirmam que a agressão partiu primeiro de José Luciano Barbosa, de 26 anos, e que ele teria sido bastante violento com as garotas. O caso foi parar na delegacia. Folha.

Esse é um caso emblemático, envolve dupla opressão, por ser mulher e lésbica, pior ainda se for negra e gorda, ou, de alguma forma não atender ao padrão estético vigente. Eu mesma já tive de discutir na rua por conta desse tipo de agressão e o pior dessa discussão é que a gente sempre perde. Primeiro que nossa sanidade mental é questionada, somos acusadas de loucas. Suspeito que seja resquício do tempo em que as questões sexuais femininas eram tratadas como histeria, ai Mister Freud explica. Ainda tem o lance do cara nos apalpar e se defender nos acusando de mal amada, dizendo que se fosse apalpar alguém não seria uma mulher feia...   Segundo que se ninguém viu o cara DELIBERADAMENTE passar a mão, que fique na conta do esbarrão, do foi sem querer. 

Óbvio que é muito constrangedor ser apalpada por estranhos na rua, mas enfrentar as discussões, os olhares desconfiados ou até mesmo o julgamento público, é tão constrangedor quanto. Por isso muitas vezes não reagimos à agressão. Agora imagina no caso de uma lésbica, como deve ser constrangedor ser acariciada por um homem e ainda ouvir xingamentos homofóbicos. Pois é nesse cenário que muitos homens se sentem à vontade para exercerem o poder de opressão e a suposta masculinidade.

Vamos tentar entender essa questão. Nos mulheres também temos tesão, fazemos sexo, gozamos, sentimos tudo igualzinho aos homens. E porque nós não estupramos, não saímos nas ruas alisando os homens, não exibimos nossa genitália ou nos masturbamos em público para um estranho? Por conta da cultura machista, que reprime a sexualidade feminina e estimula a exacerbação da masculina. Não que seja adequado que a mulher tenha sua sexualidade tão acentuada quanto à do homem. Mas esse movimento vulnerabiliza a mulher, a deixa presa num esquema de opressão que tanto condena suas práticas sexuais como a torna objeto de satisfação do desejo masculino. 

Esse assunto me faz lembrar Elza Soares cantando A Carne, quando ela bate nos peitos e diz que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”.  A carne mais barata do mercado é a carne da mulher negra e pobre. Todas nós mulheres, brancas e negras, formamos um aglutinado de carne barata. Somos nacos suculentos de carne passeando pelas vias públicas, nos expondo em vitrines virtuais, logo ao alcance do toque, sem chance de reclamar os olhares desejosos, as cantadas ou tampouco os indesejados toques indiscretos. Somos meros objetos que reclamamos sem sucesso o direito a autonomia e a inviolabilidade. 

Não são os instintos, é a cultura, é o patriarcalismo, é o machismo, é a coisificação da mulher que estimulam a violação ao corpo feminino. É a permissividade da sociedade que estimula a cultura da tolerância com o estupro ou a outra qualquer violação ao corpo da mulher. É a busca que sempre se faz no sentido de culpar a vítima da agressão e a impunidade que estimula esse tipo de crime. É também a minha recusa, enquanto mulher, a ser solidária com outra numa situação de abuso que estimula a permissividade. É a tendência de achar que “mulher tem de se dar ao respeito” que legitima a violência sexual. Pra que fique claro, se dar ao respeito, é antes de tudo respeitar a si mesma, é respeitar os próprios sentimentos, próprios desejos, necessidades... Enfim, é olhar pra si mesma e se reconhecer como ser autônomo. Então, se dar ao respeito é usar o que estiver afim, independente do que vão achar, é fazer diferente porque esta afim sem se importar com o que vão falar. “Se dar ao respeito” é ser autêntico, é ser verdadeiro. "Se dar ao respeito" é se permitir gozar, é fazer sexo somente com quem e quando estiver afim. “Se dar ao respeito” é ser trans, lésbica, gay, hétero, travesti... é ser plural, é ser quem é sem medo de ser feliz. “Se dar ao respeito” não pode, em hipótese alguma, ser viver em função de conceitos machista de uma sociedade doente, nem tampouco oprimir os outros por conta dos próprios medos.







 Fotos Galera do IF-Ce em homenagem a diversidade sexual.
    

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