terça-feira, 6 de maio de 2014

Justiçamentos e moral conservadora



A volta dos justiçamentos, o crescimento de práticas racista e de outros delitos ou crimes de intolerância denunciam a conjuntura atual como um momento de retrocesso. É perceptível que houve uma ruptura no processo de construção de uma sociedade mais igualitária. Não estagnamos, não! Importantes conquistas no campo dos direitos humanos, como o casamento homoafetivo e o direito ao aborto em caso de estupro, ao invés de se consolidarem, veem-se ameaçadas pela incorporação de discursos e práticas conservadoras e retógradas, principalmente, dentro do legislativo que tem elaborado projetos que visam caçar alguns desses direitos. Caso não tenha se dado conta, ainda não estamos livres da famigerada bancada evangélica, que mesmo tendo saído do comando da Comissão de Direitos Humanos, continua tendo muita influencia na Câmara dos Deputados e no Senado e seus principais expoentes, dentre eles Marco Feliciano, crescem em popularidade. Sem contar com Jair Bolsonaro, ultraconservador, que tem uma legião de súditos o apoiando indiscriminadamente.  

Nesse sentido, vemos por ai uma galerinha que não se constrange mais em demonstrar publicamente seu comportamento conservador e reacionário. Aliais, se orgulham disso, criam grupos e até fazem protestos para defenderem suas ideias/pautas. Poderia citar N comunidades virtuais que pregam o ódio a determinados grupos que se entende como minorias. Sem falar nos diversos sites, blogs e fan pages todos direcionados a misoginia e ou homofobia. E fora do ambiente virtual, só pra contextualizar, temos grupos de neonazistas, que atualmente se ocupa de perseguir negros e nordestinos, espancar e matar homossexuais e prostitutas e ainda queimar mendigos. 


Marcha da Família Com Deus 2014 - Recife
Ainda na mesma linha, quem não lembra da tentativa de resgatar a marcha da família? um evento de cunho ultraconservador que resultou no golpe militar de 64 e numa ditadura que durou mais de 20 anos e que causou centenas de mortes. Apesar do receio de ser mal interpretada vou incluir nesse rol as religiões, que em grande medida, tem pregado a homofobia e instituído a opressão às mulheres como um de seus principais dogmas. Toda essa conjuntura tem me preocupado seriamente. Principalmente quando assisto Raquel Sheherazade, reproduzir o pensamento mediano tipicamente reacionário da classe média e alta ao dizer:
Num país que sofre de violência endêmica, a atitude dos vingadores é até compreensível. O Estado é omisso, a polícia desmoralizada, a Justiça é falha… O que resta ao cidadão de bem, que ainda por cima foi desarmado? Se defender, é claro. O contra-ataque aos bandidos é o que chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite”
Posso estar enganada, mas vejo claramente o caráter conservador e reacionário de suas colocações. Quem seriam os cidadãos de bem? Seriam os que pagam uma “fortuna de impostos” para terem uma polícia ineficiente em defender seus bens? Será que não acha também uma violência o estilo de vida de sua colega Ticiana Villas Boas e o marido?
"É bom ter dinheiro, não fazer conta, sair para jantar a hora que quiser no restaurante que quiser, poder reformar sempre a casa, ter funcionário na casa. Eu chego em casa, meu carro já está abastecido, meu motorista faz isso. Outro dia me perguntei quanto era o litro da gasolina. Não sabia". Portal imprensa.
O casal teria entre seus bens uma casa em Nova York, outra em Angra dos Reis, um jato Legacy avaliado em 25 milhões de dólares. Acho que ostentar esse estilo de vida num país de miseráveis – um dos mais desiguais do mundo – e onde grande parte da população sequer sabe se terá o que comer no dia seguinte é uma das maiores violências que conheço.

Shaherazade, é uma formadora de opinião. E esses “comentários” mais que naturalizam o preconceito contra o pobre e a marginalização dessa classe, estimularam a reprodução da opressão entre os próprios marginalizados. Portanto, diante da legitimação da barbárie por um âncora da TV, o que era comportamento esporádico praticamente tem se alastrado por todo país e causados vítimas fatais. 
O que assistimos é espetacularização da bestialidade humana, um bando ensandecido agredindo a socos, chutes, pontapés, pauladas e pedradas um tal que não se sabe quem é e muito menos por que  está sendo agredido. Basta ver o extremamente lamentável caso de Fabiane Maria de Jesus. 

“Dona de casa espancada até a morte por causa de boato. A dona de casa que foi brutalmente espancada por moradores de Morrinhos, bairro do Guarujá, no litoral paulista, era amável e sonhava em ver a filha mais velha formada, segundo o marido dela, Jailson Alves das Neves. Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, mãe de dois filhos, morreu na manhã desta segunda-feira (5), de complicações cardíacas decorrentes da agressão, provocada porque ela foi acusada de sequestrar crianças. O porteiro, de 40 anos, contou que a mulher é inocente e que tudo não passou de uma confusão. R7
Lamento demais que essa família tenha de conviver com a dor de perder uma mãe e esposa sob estas circunstâncias. Não sou capaz de dimensionar a dor, a saudade e a falta que essa mãe fará. Outra questão também me aflingi, como será que os justiceiros passaram as noites? Acho pouco provável que tenham dormido bem e não tenham sentido o peso da culpa. Por isso, também lamento por eles, e por mais doloroso que possa parecer, eles também são vítimas, apesar de algozes. São vítimas de uma cultura de banalização da violência, dos gritantes problemas sociais e da omissão do Estado.
 


Ao comentar o linchamento de Fabiane Maria de Jesus, 33 anos, em Guarujá (SP), Boechat não citou Sheherazade mas mandou um recado direto a ela. Em fevereiro, Sheherazade fez um comentário, no Jornal do SBT, no qual disse ser ‘compreensível’ a ação de cidadãos que espancaram e amarram a um poste um suposto ladrão no Rio de Janeiro. ‘Esse crime aí, minha gente... tem tanta responsabilidade nele o autor do boato espalhado pela internet (...) quanto pessoas que mesmo em emissoras de tevê estimulam a cultura da justiça com as próprias mãos. Isso está dentro do mesmo panorama que propicia, que estimula, que justifica linchamentos como os que nós andamos vendo recentemente em várias cidades do país, ou tentativas de linchamento. É a hora dessas pessoas virem a público e dizer como se sentem ante a consumação de sua própria teoria’. Carta capital.
Mas sabemos que Sheherazade não está sozinha, por trás dela há toda uma rede fomentando e legitimando seus discursos, cujo desejo maior é que haja uma "higienização social" de controle da miséria no país. E isto só pode ocorrer através do extermínio das classes marginalizadas e sobremaneira os negros, que são maioria dentre os pobres. Apesar de que isso já ocorre na prática, basta ver o altos índices de assassinatosentre os jovens pobres, pardos e negros

Há também quem bata o pé em defesa da moça. Aliais, não só da moça como também da ideologia fascista por trás dos comentários. Acham que é um exagero responsabilizá-la pelas atrocidades cometidas, inclusive antes de seu infeliz comentário, por pessoas sob as quais ela não tem nenhum controle. Não se trata de responsabiliza-la, mas, de entender que ela foi no mínimo irresponsável ao fazer àquele comentário. Enquanto formadora de opinião ela tem sim responsabilidade sobre as ideias que professa. Afinal, como colocou um garoto numa discussão sobre o assunto, a jornalista apenas reproduziu um pensamento de boa parte da população. E foi justamente por isso que ela foi irresponsável, reproduziu um pensamento pequeno burguês, que possivelmente não tenha sido arquitetado por ela, de caça as bruxas quando é exatamente isso que se espera, que alguém "compreenda" a insatisfação de uma massa ensandecida e violenta e que não a julgue por seu destempero. 

Claro que os linchamentos já aconteciam, mas nunca com tanta legitimidade como temos visto recentemente. O discurso de Raquel abre um precedente em cadeia nacional para que muitas pessoas legitimem suas ações violentas, sobre a égide do cansaço da violência cotidiana criam mais violência, tornam-se senhores do julgamento, ou como a repórter se referiu, ‘justiceiros’. O discurso de Raquel abriu as portas para que esses atos tomassem corpo e se estabelecesse a possibilidade de justiças pelas próprias mãos como algo compreensível, como justificou posteriormente Raquel. Mas, ainda acho que compactuar com esse discurso é um erro, ou uma ingenuidade atroz.” Will Lacerda
Enfim, como Ana Maria colocou ao ser chamada de reducionista
“Fui reducionista de certa forma, mas eu quis criticar a ideia da justiça com as próprias mãos. Esse imediatismo nada estratégico que desvia o foco do verdadeiro inimigo: o Estado. O poder judiciário tem nas mãos uma linda constituição, inoperante e vencida pela propina. Eu só acho que enquanto o foco da luta não for o cumprimento dessa constituição, não há como armar a população sem ver acontecer essa verdadeira barbárie como exemplo. Parece que voltamos ao tempo das cavernas: sem Estado e salve-se quem puder.” Ana Maria Amaral.
Concordo demais com Ana, embora deva ressaltar que o problema seja um Estado pautado em ideais burgueses e controlado pelas elites. Os justiçamentos antes de atacar o real problema, a desigualdade social, a falta de educação e de oportunidades, a ausência de expectativas para o futuro, bem como a impunidade, aumentam a marginalização das pessoas já tão marginalizadas e oprimidas. Ou será que ninguém percebeu que são pobres matando pobres? Extermínio que serve bem aos interesses higienistas da nossa elite.

1 comentário:

Paulo Esbabo disse...

Parabéns, Ana, pela rica e documentada análise. Um serviço para a reflexão dos brasileiros.
Paulo Esbabo - Missal - PR