quinta-feira, 22 de maio de 2014

Por todas as vezes em que quis fugir de mim




Durante muito tempo eu quis fugir de mim. Tinha uma vontade enorme de me distanciar de tudo que pudesse me remeter ao meu passado, que sempre foi muito difícil. Eu não queria esquecer que por muito tempo tinha pra comer apenas feijão boiando n’água. Eu queria apagar esse passado. Eu não queria esquecer que precisava mendigar ao meu avô alguns centavos pra comprar meio pão para comer antes de ir pra escola. Eu não queria esquecer, queria deletar. Não me bastava esquecer as muitas humilhações que passei nas casas dos vizinhos nos dias festas as espreitas por trás de muros e portões a espera de um convite pra entrar e degustar um copo de refrigerante com um pedaço de bolo. – Entra bicha rea, mas vai lá pros fundos pra não atrapalhar. Eu não queria esquecer isso, eu queria excluir da minha memória e da memória de todos. Eu não queria esquecer as inúmeras vezes que fui arrastada da rua até em casa a socos, pontapés, chutes e chicotadas à base de cipós, queria banir da minha vida esses momentos. Eu não queria esquecer que não tinha roupas ou sapatos novos pra ir às festinhas e que era muito feia. Eu queria que varrer isso da memória. Eu não queria esquecer que minha primeira relação sexual havia sido um estupro, queria inventar outra história que pudesse substituir essa e que não restasse da outra sequer vestígio.

Então eu fugia, inventava abrigos, outras histórias, outras realidades. Até que fui embora pra outro bairro e inventei outro eu. Mas eu ainda não havia me distanciado o suficiente porque os culpados pelo meu sofrimento ainda estava ao meu lado e tinham autoridade sobre mim, eu ainda morava embaixo do teto deles. Então, parti para um bairro mais distante e dei adeus definitivamente aos controles que exerciam cotidianamente sobre mim e à sensação de que o meu passado ainda me oprimia. Finalmente eu não convivia sob o mesmo teto com mais ninguém que me remetesse aos momentos de tortura, de aspereza na voz e no trato comigo. Mas ainda não podia ser outra, completamente outra. Porque ainda encontrava com pessoas que me resgatavam da memória as dores dos espancamentos, das humilhações, da violação ao meu corpo...
E, em meio ao perder-se e encontrar-se encontrei um cara que me aceitou como eu era, com toda dor, com toda a mágoa e usada como um lixo em relações sexuais não consentidas. E eu quis me “redimir”. Inventei mais uma história, uma “linda história”, onde o amor da minha vida seria também o meu “primeiro homem” e que teria sido com ele que tive a minha primeira noite de amor. 
Para zerar tudo mesmo, mudei de cidade e comecei mais uma nova história. Sem dor, sem sofrimento, sem angústia. Uma história dos sonhos. E finalmente não tinha passado. Pelo menos o que vivenciei não. Na história dos meus sonhos eu teria tido uma infância feliz, uma adolescência normal. Teria perdido a virgindade com o meu marido. Teria namorado, noivado e casado, tudo conforme “manda o figurino”. Muito embora, na prática, tenha namorado somente dois meses antes do meu marido ter ido morar comigo e termos casados somente o civil quase depois de dois anos morando junto. Entretanto eu ainda não havia conseguido fugir de mim. Eu continuava carregando dentro de mim todos os meus algozes; a minha avó alcoólatra, os tios violentos, os vizinhos escrotos e os estupradores.
Então pensei, preciso de dinheiro para devolver na mesma moeda as humilhações que sofri dos vizinhos, fazer uma faculdade e uma porção de outras coisas que revelassem o meu “valor”, além de fazer com que meu casamento pudesse ser comparado aos comerciais de planos de saúde. Só assim eu conseguiria anular meu passado e voltar todas as atenções para quem me tornei, esquecendo-me e fazendo esquecerem-se de quem fui. Por fim, demonstraria que não era um lixo e que havia superado tudo. Restaria apenas a mulher inteligente, bem sucedida, bem casada, classe média e de boa família, nada além disso.

Era um baita desafio e desconfiava que talvez não conseguisse vence-lo, mas, se não tentasse jamais saberia se conseguiria. Comecei passando no vestibular, numa faculdade pública. Enquanto fazia faculdade compramos nosso apartamento. Conclui o curso de Química, comprei meu carro e outros bens que poderiam tapar o meu buraco existencial ou que me dessem status. Voltei para o bairro onde morei (Ah, eu já estava de volta a minha cidade natal) como especialista em Engenharia de Petróleo, aspirante a escritora, para uma casa grande e confortável e, acima de tudo, uma pessoa bastante respeitável, num casamento que já ultrapassava os 15 anos convivência.  Mas eu ainda carregava dentro de mim meus opressores. Estavam todos lá, os estupradores, a avó e os tios agressivos...
Então o que me faltava pra excluir de vez o passado da minha memória?
Faltava-me a compreensão de que por mais longe que eu fosse, seja figurativamente ou geograficamente, eu nunca conseguiria fugir de mim ou do meu passado, porque uma coisa é sinônimo da outra. Eu sou fruto de todas as experiências que vivi, tenham sido elas boas ou ruins. Então, eu precisava abraçar esse passado de forma que eu não precisasse me envergonhar ou sofrer por conta dele. Porque sou uma pessoa muito forte graças a tudo que passei e tudo que construí foi em cima desses tijolos que serviram de alicerce pra quem eu sou hoje.
Sofri pra cachorro, fui humilhada, tratada inúmeras vezes como lixo, mas não conseguiram me dobrar e me vencer. Não só sobrevivi como rompi com as expectativas que criaram pra mim. Nenhum estuprador conseguiu me tornar uma mulher frígida e amedrontada. Nenhuma das pessoas que me menosprezou me impediu de seguir em frente e chegar onde quis. Apesar de ter passado quase toda a vida sendo agressiva e reproduzindo violência (seja na forma de grito, de quebrar coisas ou indo as vias de fato) eu consegui entender que esse processo me causava muito sofrimento e, que não me agradava ser assim, então consegui romper com ele. Aprendi a driblar a dificuldade de estabelecer vínculos emocionais com as pessoas, e hoje consigo lidar bem melhor com amigos, familiares e com meu marido. Estou bem mais carinhosa e troco afetos com mais naturalidade. Já não sinto dificuldade de abraçar, beijar ou dizer “eu te amo”. 
 
Enfim, os fantasmas do passado já não me assombram mais. Mas, acho que de tanto desejar apagar tudo isso o meu desejo foi atendido e muita gente esqueceu o que passei, só consegue ver o que me tornei. Esqueceram principalmente aquilo que faço questão de lembrar que foram as lágrimas que derramei ou me fizeram derramar e que nada foi fácil pra mim. Sou forte porque me fizeram forte, cresci porque não me deixei abater pelos constrangimentos. Não me escondo mais e nem tenho mais vergonha do que fui, afinal ninguém tem culpa de sofrer maus-tratos, ser estuprada, ser pobre e ser humilhada por conta disso.

2 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns pelo texto e pela sua coragem, Ana!
Você é definitivamente uma mulher muito forte psicologicamente e eu a admiro imensamente.

Ana Eufrázio disse...

Como fazer pra controlar a curiosidade com relação a identidade de um(a) adimiradxr anônimx?