Por: Paola Rodrigues
Hoje tomei coragem de contar
o que me aconteceu no dia 3 de dezembro de 2008, que deveria ter sido um dia
maravilhoso, mas até hoje me causa pesadelos.
Engravidei com 15 anos de
idade do meu primeiro namorado e você já deve imaginar o inferno que foi isso.
A vergonha, a culpa, o medo. Três coisas que me acompanharam durante 9 meses.
Porque ninguém está preparado para uma mãe adolescente, nem ela, nem os pais
dela, nem a moça da padaria ou o médico que costumava trata-la. Senti na pele o
preconceito nessa época e a constante sensação de que tinha destruído minha
vida e que iria colocar um ser nesse mundo para sofrer pelo o meu terrível
pecado.
A gravidez foi terrível,
fiquei internada quase os 9 meses, pelo estresse e outros problemas de saúde.
No fim, dois dias antes dela nascer e com 38 semanas, passei muito mal e
desmaiei.H avia mudado de médico no
fim da gravidez pela forma seca que era tratada pelo primeiro GO. Fazia duas
semanas que estava com o novo GO, que parecia muito doce. Como havia batido a cabeça e
barriga na queda, minha sogra me levou ao médico e fui internada. Fizeram todos
os exames e o bebê estava bem. Voltei para casa...
Se soubesse o que iria acontecer depois disso... Acho que por mais que anos e anos passem, nunca vou esquecer o que aconteceu. A dor piorou e muito. Fui informada que não devia gritar, que havia feito aquilo e devia suportar. Uma enfermeira me disse que meninas na minha idade são escandalosas, que na hora de fazer ninguém grita assim – ou grita e saiu dando risada. Pedia para ver a médica, me falavam que a médica estava ocupada. Durante horas fiquei morrendo de dor, com medo de contar para alguém, porque aquilo era minha culpa. Tive três ataques de pânico em 4 horas. Agarrava-me no travesseiro em silêncio. Tinha certeza que iria morrer, comecei a pedir perdão para a minha filha, porque tinha engravidado, por ter feito aquilo com ela. Entre as visitas das enfermeiras, ia ouvindo piadas.
Quando finalmente me
avisaram que iam “tirar o bebê”, percebi que havia algo errado. Foi tudo muito
rápido. Teve um choro baixinho, pouco, não deixaram vê-la. Avisaram-me que iam
mover tudo rápido, mas que estava tudo bem. Olhava desesperada para tudo
e todos, ninguém me falava nada. Meu namorado seguiu com eles para fora e fui
deixada lá, em pânico. Só fui avisada que minha pressão estava subindo e que
seria medicada. Não lembro do que aconteceu
depois, só que fui enviada para o quarto depois de muito tempo e me avisaram
que minha filha estava na UTI, que havia ingerido e respirado mecônio, que
podia ser várias coisas: gravidez na adolescência, algum descuido meu ou culpa
de ninguém. Deles que não era a culpa. Podia ser com o bebê também,
uma má formação no pulmão. Conheci minha filha deitada, entubada, sem previsão de melhoras. Era linda, ruiva, com grandes olhos espertos. Não acreditava que havia feito algo tão lindo e perfeito. Chorava sem parar sempre que estava na UTI e sempre para descobrir que ela havia piorado. No terceiro dia fui informada que a sensação era como se ela estivesse afogando. No quarto dia fui informada que devia tomar cuidado na hora de “aprontar”, porque dava nisso. No quinto dia já sabia que ela teria sequelas graves devido a baixa oxigenação, talvez ficaria em estado vegetativo. No sexto dia fui informada para me preparar e no sétimo dia recebi um telefonema que minha filha havia falecido de falência múltipla. Entrei naquele hospital como uma jovem grávida e saí quebrada, machucada, aleijada e sozinha. Nunca peguei minha filha no colo.
Minha segunda filha tem 1
ano e 2 meses, aprendeu a andar faz uma semana e me faz correr pela casa toda,
se não enfia o dedo na tomada. Hoje sou feliz fazendo minha parte pelos
direitos da infância, sonho poder dar aulas, quero viajar o mundo, terminar meu
livro, passar tardes de domingo na cachoeira e vejo que apesar de doloroso, não
é impossível se quebrar e conseguir forças para continuar. Descobri minha voz,
minha força, minha luta.
Uma adolescente que
engravida não é uma vagabunda, não é promíscua ou qualquer palavra que usem
para descrever irresponsabilidade e falta de caráter. Enquanto tratarmos
mulheres assim, estamos criando na mente dela que ela não é capaz, que ela é
culpada, que ela vai fazer tudo errado. Temos que mostrar que ela é forte, capaz,
mãe, que terá um futuro lindo pela frente, que vai estudar, trabalhar, que vai
se relacionar com o mundo da melhor forma possível porque ser mãe não diminuí
suas chances na vida. Sua idade não dita seu futuro.
Paola escreve em Cartas para Helena