segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Maternidade compulsória



Sou casada há mais de 17 anos e até agora preferi não ter filhos. Hoje a pressão por gerar herdeiros ou perpetuar meus genes é bem menor. Afinal, já se foram mais de quinze anos dando todo tipo de respostas e justificativas que fossem capazes de explicar a minha falta de interesse em maternar. Parece-me que quanto mais as pessoas insistiam na história do instinto materno, no desejo natural de ser mãe ou na premissa de que “a mulher só se torna completa quando se torna mãe” mais eu me afastava dessa tentativa de naturalização da condição de mulher a função materna.
A premissa de que a mulher necessariamente deve parir é uma ideia que se converte numa forma brutal de violência. Por mais que se diga o contrário, a maternidade não é uma vontade intrínseca ou inerente ao sexo feminino. Mesmo antes dos métodos anticoncepcionais serem disponibilizados ou que se processassem todas as transformações que possibilitaram a mulher ter acessos a direitos, inclusive de se inserir no mercado de trabalho, a maternidade não era única aspiração feminina. Eu mesma ouvi várias vezes minha avó, uma senhora bem rude e sem instrução, dizer que se soubesse como evitar filhos não teria tido nenhum. Ela revelava que nunca teve paciência para lidar com nenhuma das questões da maternidade. Dizia inclusive que detestava passar pelo estado de gravidez. Assim como ela muitas outras mulheres se submeteram a esse processo simplesmente por não terem opção, por obrigação, por imposição da condição de estar casada e como consequência de ter uma vida sexual ativa. Pelo que minha avó relatava, em conversas que ouvia as escondidas, até a atividade sexual lhe era uma fardo, porque sabia que corria o risco de engravidar. 
Bem, muitas décadas depois da popularização dos métodos contraceptivos e das informações a esse respeito, a cultura do instinto maternal intrínseco sobrevive. Um processo que faz que muitas mulheres se sintam culpadas por não quererem ter filhos ou que sejam hostilizadas por isso. Uma cultura que faz com que tantas outras cedam a maternidade apenas por imposições culturais e vivam a mentira de que adoram ser mães quando na verdade não têm sequer paciência ou desejo de educar e cuidar dos filhos. 
Essa cultura da mulher como objeto reprodutor é tão disseminada que grande parte da população defende de maneira ferrenha que a mulher seja mãe a qualquer custo. Até se a gravidez decorrer de estupro e que ela sofra sério risco de morte. Enquanto que para a mulher a maternidade é um processo compulsório a paternidade não tem essa configuração. O homem assume o/a filho/a se quiser. No entanto, são eles os que mais cobram e exigem que levemos adiante uma gravidez indesejada. Agora vejamos até onde pode ir a falta de empatia e de solidariedade quando o assunto é a mulher e a sua condição de parideira ou incubadora. Essa semana fui procurada por uma jornalista do Jornal o Dia, Christina Nascimento, para dar uma entrevista sobre um aborto. Ela me entrevistou para saber que motivos me levaram a realizar um aborto há mais de vinte anos. Queria saber inclusive se eu faria novamente. Depois de uma longa conversa ela me pediu que escrevesse um depoimento falando sobre o assunto. Há mais de um mês fui procurada por uma integrante da Avaaz para falar sobre o mesmo assunto. Aproveitei que já tinha um depoimento e o enviei à jornalista. O texto original segue abaixo.
Quando eu fui estuprada pela primeira vez, eu nunca havia visto um pênis, nem em foto, nem em vídeo, somente desenhos nos livros de biologia da escola. Eu tinha quinze anos. Não lembro os detalhes do estupro, mas lembro em detalhes dos três dias seguidos de calafrios, dores pelo corpo, dificuldade pra urinar e sentar, e uma dor de cabeça que não dava trégua. Também não me abandonaram durante mais de 20 anos a culpa e a vergonha por ter entrado em choque ao perceber que seria estuprada. Ainda mais quando, pouco mais de três anos depois não consegui evitar o segundo estupro. Se o primeiro havia me tirado quase todos os sonhos, o segundo me tirou a vontade viver, principalmente quando descobri que estava grávida de um monstro. Quis morrer, até ingeri uma quantidade enorme de remédios na esperança de ter uma morte tranquila. O máximo que consegui foi uma lavagem estomacal e uma centena de sermões. E no meu útero continuava a crescer um feto que carregava metade do DNA do meu agressor. Sofri calada. Não tinha coragem de ir à polícia e me submeter aos constrangedores interrogatórios, exames médicos, ao julgamento e aos sermões que iria sofrer na delegacia. Por isso, pedi a um ex-namorado que me ajudasse com o aborto. 
Desde que descobri a gravidez tinha pesadelos de que a criança era um monstro que consumia minhas vísceras ou nascia um demônio. Não consigo imaginar como amamentaria uma criança que seria metade do meu agressor. Tenho certeza toda vez que olhasse para o rosto dela, veria passar um filme na minha cabeça e vivenciaria repetidamente a angústia que passei durante aqueles instantes e a sensação de morte que tive nos braços dos meus estupradores. Nenhuma criança mereceria ser tratada assim. Foram necessários mais de 20 anos pra que pudesse falar sobre o assunto ou pensar nele sem que eu sentisse nojo de mim, vontade morrer ou de me imolar. Hoje ainda trago marcas no corpo e na alma por conta dos estupros. No entanto, eu superei toda dor e medo, não tenho mais insônia ou acordo no meio da noite em sobressalto com pesadelos. Há mais de 5 anos não bebo (eu bebia muito), não tenho mais ideias suicidas (eu vivia planejando suicídio) e hoje consigo abraçar naturalmente, sem sentir náuseas pelo contato físico. Infelizmente, outras mulheres não têm a chance que eu tive, algumas se suicidam, outras passarão ou passaram a vida inteira tendo uma vida de cão.
 
O material acima foi escrito para ser anexado a um pré-projeto de petição que acabou não conseguindo a adesão necessária para se tornar uma petição dessas campanhas populares coordenadas pela Avaaz. Então, fiz um resumo desse texto e foi esse resumo que foi publicado no Jornal o Dia numa matéria que circulou ontem.  
Então, mesmo lendo um resumo desse relato um indivíduo postou o seguinte comentário muito complicado falar. mas sou totalmente contra, tive um filho por pura irresponsabilidade, fora do momento, com uma pessoa que eu não mantinha um relacionamento serio. ela menor de idade, mas mesmo assim, nunca pensamos em tirar a vida da criança. é sim um crime, não importa se é filho de homem casado, de estuprador... as mulheres tem que pensar que antes de mais nada, o feto é filho delas tambem, é uma vida! merece vir ao mundo, não quer o filho? [sic] a milhares de famílias esperando para uma adoção, a criança não vai te trazer felicidade? encaminhe a uma família onde ela será o principal motivo de felicidade... hoje graças a deus tenho meu filho e sou muito feliz. graças a deus nunca fui fraco ao ponto de me deixa abalar pela possibilidade de abortar. tenho todas as minhas responsabilidades hoje, e arco com elas como homem e acima de tudo como pai.”
Não preciso nem dizer quanta revolta eu senti diante desse comentário. É preciso fazer os homens compreenderem que a gestação não diz respeito ao corpo deles, que ocorre independente da vontade ou da presença deles. Que a gestação de um filho é um processo solitário. Quem sente os enjoos, o cansaço, o peso, as dores somos nós mulheres. Não tem esse lance de “estamos grávidos” em referência ao casal. Quem está gravida é a mulher. É preciso que o homem saiba, e mulheres que não conhecem o que é uma gestação indesejada, que muitos dos comentários e “opiniões” são intervenções violentas e como tais provocam sofrimento. 

Além disso, é preciso que o homem compreenda que a vagina que é violada durante o estupro é feminina, que o ânus violentado durante o estupro, majoritariamente, é da mulher. Portanto, o homem, enquanto potencial estuprador, não pode opinar nesses assuntos. Porque diz respeito à violência cometida contra mulheres e promovidas por homens, às dores sentidas por mulheres e provocadas por homens, às vivencias femininas que homem nenhum, ou mulher que nunca passou por isso, sabe descrever ou dimensionar.

9 comentários:

Fabiane Rocha disse...

Nossa...que texto maravilhoso. Fiquei muito tocada e te desejo toda força na vida. Você é um exemplo de mulher.

Fabiane Rocha disse...

Nossa...que texto maravilhoso. Fiquei muito tocada e te desejo toda força na vida. Você é um exemplo de mulher.

Anónimo disse...

Nossa.... que ridículo.

Anónimo disse...

Vencedora. única palavra q te descreve.

Bruna gonçalves disse...

Nossa que texto incrível...Faz tentarmos se colocar no lugar do outro...A empatia que mesmo com tantas pessoas debatendo sobre o assunto não conseguiram ver desta forma mais clara, objetiva e real. Agora tenho outro ponto de vista!

Bruna gonçalves disse...

Nossa que texto incrível...Faz tentarmos se colocar no lugar do outro...A empatia que mesmo com tantas pessoas debatendo sobre o assunto não conseguiram ver desta forma mais clara, objetiva e real. Agora tenho outro ponto de vista!

Lidiane disse...

Homem como potencial estuprador não pode opinar!!! Me poupe!!! Tenho homens maravilhosos ao meu redor, que respeitam e cuidam das mulheres e me ofendo por eles quando escuto esse tipo de coisa!!! Generalizar é algo muito infeliz!

Cecilia Carvalho de S. disse...

Sinceramente Anonimo e Lidiane, a infelicidade é uma das razoes vinda de pessoas intolerantes como vcs. Sabemos claramente que não é um fato entre todos os homens, me parece até desnecessário seu comentário, mas foi bom pelo simples motivo de que muitos apesar de ser uma lógica com relação a culpa ou não, viram realizar comentários sem a minima reflexão pelo simples fato de expor suas limitações de acolhimento humano, tolerância e igualdade, e ainda assim se julgam no direito defender algo ou alguém.

Cecilia Carvalho de Souza disse...

Não tenho palavras quanto a dor da autora, mas me alegra que expõe e defenda seu ponto de vista. Sabemos que vc não é a única vitima de comportamentos distorcidos em nossa sociedade, e o que me alegra é que relate, ja que muitas terão que sofrer calada justamento por medo de comentários e reações não racionalistas como muitos que nos deparamos e iremos nos deparar.