quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Quem Quer Casar com Meu Filho?




A televisão brasileira não para de “inovar”. No ultimo dia 06, começou a ser veiculado o mais novo reality show da Band, que substitui o “Custe o Que Custar”, o programa apresentado por Adriana Galisteu “Quem Quer Casar Com Meu Filho?”. Naturalmente só o fato de exibirem dezenas de mulheres disputando quatro homens já revela o caráter sexista do programa.
 
A atração exibe 40 mulheres sendo avaliadas enquanto pretendentes a futuras esposas e noras dos participantes masculinos e suas respectivas mães. No mesmo formato, imagino que com o intuito de parecer democrático, um garoto e sua mãe escolhem entre dez rapazes um candidato para um futuro casamento homoafetivo. O programa não só é sexista como de gosto duvidoso. Não bastasse a péssima iniciativa de submeter os concorrentes ao julgo do selecionador, eles ainda têm de passar pelo crivo das mães, ocasião em que os comentários, principalmente das sogras, a respeito dos concorrentes são degradantes, machistas e desrespeitosos. Sem falar que os candidatos se veem “obrigados” a desfilarem de biquíni ou sunga para que mãe e filho avaliem o que ambos gostam, aprovam ou não aprovam nos corpos das garotas e garotos. O programa se resume a exposição dos candidatos a extrema humilhação.

Não se trata da tentativa de encontrar entre eles afinidades, trata-se apenas de uma seleção – isso levando em conta que o programa não seja armação – a partir de características físicas e padrões de beleza normatizados. O programa é claro que seleciona os participantes a partir dos estereótipos que atendam os padrões vendáveis pela mídia, para que possam expô-los e explora-los a exaustão, mercantilizando cada vez o corpo feminino, reforçando a valorização de padrões estéticos inatingíveis para a grande maioria das mulheres e a cultura da mulher objeto.

Não esgotado o debate sobre a coisificação da mulher, mas entendendo que a avaliação sobre a atração precisa avançar, me deparo com a exploração e o reforço do devastador desejo de se tornar celebridade que parcela significativa dos jovens e adultos têm. A mídia alimenta nas pessoas o desejo pela fama e promove a “cultura da celebridade” como um estado de plena realização pessoal e profissional, um estado ideal de felicidade. Os corpos e sorrisos perfeitos, o dinheiro, as festas, o reconhecimento e todo o glamour nos remetem ao mundo de sonhos, onde tudo é perfeito.  Os realitys shows surgem então como um dos meios mais “fáceis” que essas pessoas encontram para terem seus 15 minutos de fama. A busca desesperada pela fama leva a muitos não avaliarem de que forma elas apareceram na mídia, é o aparecer custe o que custar. 

Vale lembrar, a fama instantânea oferecida a desconhecidos por programas desse tipo é um prêmio mais importante que o valor em dinheiro disputado(Turner, 2004). A exposição em cadeia nacional pode render contratos futuros em outros veículos massivos (como a revista Playboy). No limite, a fama alcançada pode ser lucrativa até mesmo no momento da morte. Foi o que ocorreu com Jade Goody, que ganhou notoriedade na versão inglesa do programa Big Brother em 2002. Tendo-se tornado uma personalidade da mídia, e depois participado de outros dois reality shows, Goody vendeu a história de seus últimos meses de vida a diferentes veículos midiáticos ao ter um câncer terminal diagnosticado... A Cultura do narcisismo – Mesmo reconhecendo que o etnocentrismo e posturas egoísticas sempre estiveram entre nós, Lasch (1991) aponta que vivemos hoje em uma sociedade narcisista. O passado perdeu seu valor, as ideologias enfraqueceram, as expectativas diminuíram. Esse cenário teria como causas modificações sociais e culturais como a crescente burocracia, a proliferação de imagens, o culto ao consumo, além de alterações nos relacionamentos sociais e familiares.” Alex Primo

Neste contexto, percebemos que os atores dos realitys shows seriam mais vítimas do sistema midiáticos do que protagonistas. 

“...a incansável busca por um lugar no mundo dos famosos, como se este fosse o passo final para a felicidade. Esta é a mensagem endereçada aos jovens atualmente, prova de que a presença da TV nas casas e nas escolas não é mais com fins informativos, mas sim posta-se como fato social permanente e irreversível, sendo bem interpretada por Rosa Maria Bueno Fischer (2001,p.28), da seguinte maneira: “‘Imagem é tudo!’ – esse é o conselho que ouvimos todos os dias: é preciso não apenas ser, mas ‘parecer ser’; e se não pudermos ser, que nos esforcemos para parecer, e isto até pode bastar, porque cultivar a imagem (de si mesmo, de um produto, de uma idéia) mostra-se como algo tremendamente produtivo. Basta lembrar como ocorrem as campanhas políticas ou as performances públicas dos governantes, especialmente como um país como os Estados Unidos da América.” Diego Pereira Machado.

Apesar de o problema atingir mulheres e homens, a mulher se encontra ainda mais vulnerável e exposta, já que ela sofre mais severamente as cobranças pela imagem perfeita e comportamento irrepreensível. O programa põe por terra essas duas prerrogativas, classificando as participantes como “periguete” e/ou “não atraente” e até “velha demais”. Não defendo de forma alguma o culto a estética. Entretanto, não acho adequado que uma pessoa seja exposta num programa televiso para que sua aparência seja julgada e até criticada. O ser humano deve ser respeitado universalmente e estar livre de todo e qualquer julgamento negativo que possa atingir sua dignidade e os diretores de TV deveriam pensar sobre isso quando da elaboram suas atrações. Explorar as fragilidades humana e torna-las espetáculos me remete a idade média e os circos dos horrores. 




Para concluir, o programa como todo é muito ruim, deprecia a imagem feminina, reforça o estereotipo da mulher objeto e sem conteúdo. Uma verdadeira promoção a cultura machista.  

2 comentários:

Rosa Goncalves disse...

A promoção de valores materialistas, o encorajamento do egoísmo, da passividade, do conformismo, com o consequente enfraquecimento dos valores democráticos, são apenas alguns dos problemas que se criam quando a imagem do ser humano vira objeto de exploração.

O papel de homens e mulheres que se diferenciam apenas pela sensualidade ou por possuírem algo, nos comercias, desconhece lutas sociais de séculos, como a da emancipação feminina, e coloca-a sempre no não lugar de objeto a ser conquistado; ou mostra homens superficiais, que não reconhecem valores éticos ou outras transformações culturais e comportamentais.Por isso a necessidade de uma nova lei de comunicação com a participação social na concepção, gestão e fiscalização das políticas públicas da área, regidas por um marco legal coerente e construído de forma transparente e democrática.

Ana Eufrázio disse...

Muito pertinentes suas observações Rosa. Naturalmente, a exposição feminina como a que assistimos no programa supra citado decorre de um sistema de exploração que se retroalimenta, a exibição da mulher como objeto de consumo aumenta a audiência porque majoritariamente a nossa sociedade é machista e em busca de seus 15 minutos fama (e nesse sentido, ser um objeto de maior valor) as mulheres se submetem a esse tipo de opressão. Para a mulher, esse não é processo consciente, é produto da cultura do fetichismo, uma das engrenagens que movem sistema capitalista, que torna objeto de consumo até mesmo até mesmo as subjetividades.