sexta-feira, 7 de março de 2014

Lilith, primeira esposa de Adão.







Lilith é um mito arcaico que antecede a narrativa mosáica e canônica da criação de Eva, e de acordo com esta Lilith foi criada do barro e no mesmo instante que Adão – No sexto dia da Criação, Deus criou o homem à sua imagem: "à imagem de Deus o criou: macho e fêmea os criou." (Gênesis, 1,27) – Tal afirmação categórica é uma negação da versão mais difundida: a de que o homem foi criado antes da mulher e a partir de sua costela. O registro mais antigo que se conhece sobre Lilith encontra-se no alfabeto de Ben Sirak. É neste manuscrito, datado entre os séculos VIII e X a.C., que ela é descrita como a primeira esposa mítica de Adão.
 
Liliht é desconhecida do cristianismo primitivo embora tenha aparecido nos primeiros séculos da era cristã. Mais recentemente, contudo, Lilith fecundou o imaginário da comunidade judaica e cristã com idéias sobre um demônio feminino que provocava a polução noturna nos jovens castos e ainda era a responsável pela morte prematura de crianças recém-nascidas. Lilith também aparece no Zohar (Koltuv, 1986,p.17-35) o Livro do Esplendor, uma obra cabalística do século XIII que se constitui no mais influente texto hassídico. Ela aparece também no Talmude, o livro da tradição judaica. No Zohar, Lilith era descrita como um súcubos. As poluções, com missões noturnas, eram citadas como um sinal visível de sua presença, isto é da união carnal do homem com Lilith. (Engelhard,1997, p. 32-33).” Antônio M. A. Gomes e Vanessa P. de Almeida – Revista Âncora.

Ainda de acordo com a mitologia, Lilith seria uma figura sedutora, de cabelos longos, que voa à noite, como uma coruja, para atacar os homens que dormem sozinhos e copular com eles provocando as poluções noturnas e gerando com eles filhos demônios para a mesma.  De acordo com a lenda depois da fuga de Eva, Adão queixou-se a Deus e este mandou Três anjos resgata-la, eis que ela se rebelou e disse "Deixem-me, não sabeis que não fui criada em vão e que é meu destino dizimar recém-nascidos; enquanto é um menino tenho poder sobre ele até o oitavo dia, se é menina, até o vigésimo. No entanto, ela jurou aos anjos, em nome do Deus vivo, de que sempre que avistasse as figuras ou apenas os nomes dos mensageiros de Deus, deixaria a criança em paz. Também aceitou o fato de que diariamente iriam perecer cem de seus próprios filhos." (Gorion, :53). Lilith foi então transformada num demônio feminino e rainha da noite, tornou-se a noiva de Samael, o Senhor das forças do mal. E desde então foi a atribuída a ela a morte de crianças recém-nascidas. Durante séculos esse mito serviu para justificar as mortes inexplicáveis dos recém-nascidos.

Conta-se que sua sensualidade e beleza ao invés de ser um bálsamo para Adão era um tormento pra ele. De acordo com a mitologia a relação entre Adão e Lilith foi tumultuada e marcada pela paixão, sendo ela capaz de domina-lo e fazê-lo perder a razão e entregar-se a luxúria. Além disso, acredita-se que toda essa sedução fazia Adão afastar-se dos seus propósitos, ou seja, afastar-se de seus compromissos com a divindade. É consenso de que os conflitos entre Lilith e Adão ocorriam também por que ela se recusava a se submeter a ele. E foi justamente a partir deles e a inflexibilidade de Adão em ceder as reivindicações de Lilith por igualdade, inclusive durante as relações sexuais, que ela foi expulsa da comunidade dos homens e recebeu como punição o exílio no Mar Vermelho e sua transformação num demônio feminino. Ainda há suposições de que Lilith seria a serpente que tentou Eva a tentar Adão a cometer o pecado original. Confuso né?

Roque Laraia, em seu artigo “Jardim do Éden Revisitado”, falando sobre Gênesis declara, “através do tempo, procuraram mediante uma atitude sensorial uma espécie de ‘pasteurização’ do discurso original, numa tentativa de adequá-lo aos valores morais e culturais de suas respectivas épocas”.  É através do envio do mito Lilith à obscuridade – enquanto primeira mulher do Adão e da negação dessa sua condição – e partir da consagração de Eva enquanto companheira que Adão dizia ser ideal,  Adão diz "Esta sim, é ossos dos meus ossos..." (Gênesis 2: 23), que se expressa mais uma das formas de inferiorização da mulher e sua  condução a situação de subordinação e submissão. 

Enquanto, a ‘ordem’ apresentada na narrativa da criação submete a mulher ao homem, legitimando, ao nível ideológico, a submissão feminina. Segundo a narrativa bíblica, apenas o homem é criado diretamente pela divindade. Eva existe graças a Adão, de cuja costela é feita. Aquilo que é prerrogativa exclusiva do sexo feminino — a procriação — lhe é roubado. Inverte-se a lei biológica e o homem se faz o gerador da mulher. A anterioridade de Adão se torna um elemento justificador de sua prepotência e dominação sobre a mulher. Daí o interesse pela figura de Lilith, que não é feita de Adão, mas é igual a ele, feita do pó. Maria J. R. Nunes – Scielo.

“A tradição oral afirma que Adão queixou-se a Deus sobre a fuga de Lilith e, para compensar a tristeza dele, Deus resolveu criar Eva, moldada exatamente para as exigências da sociedade patriarcal. Eva, segundo a narrativa bíblica foi criada por Deus à partir da costela de Adão. É o arquétipo, modelo feminino, segundo a tradição judaico cristã. Eva é aquela mulher submissa e devotada ao lar. Assim, enquanto Lilith é força destrutiva (o Talmude diz que ela foi criada com a imundície da terra e do lodo), Eva é construtiva e Mãe de toda humanidade (ela foi criada da carne e do sangue de Adão) segundo Gen. 2: 1-21. O ideal de uma mulher submissa domina o imaginário cristão na sociedade católica brasileira. Este desejo de submissão da mulher ao homem pode ser bem exemplificada pela síndrome de Amélia do poema “Ai que saudades da Amélia da letra de Ataulpho Alves e Mário Lago.” Antônio M. A. Gomes e Vanessa P. de Almeida – Revista Âncora.
Apesar da tentativa de ofuscar Lilith, enterrando-a na obscuridade, o mito sobreviveu ao tempo e hoje podemos investigar não só sobre sua “existência” como também as motivações da sua exclusão do livro de Gênesis e as sistemáticas tentativas de corromper a imagem feminina. Foi através da figura Lilith, e de outras mulheres bíblicas que construiu a repressão a sexualidade feminina e o ideário da figura da mulher enquanto ser endomoniado, satânico, venenoso. Ainda hoje a mulher, assim como Lilith, a mulher é retratada ou descrita como serpente. É exatamente através dos mitos que se constrói uma imagem negativa do sexo feminino, interiorizando na mulher uma “natureza” perversa, a conduzindo a um sentimento de culpa e de ambivalência. Assim como em Gênesis, noutras passagens também identificamos a intensão de atribuir às mulheres essa “natureza” maléfica. 

Constrói-se assim uma imagem negativa do sexo feminino a partir da narração da culpa introduzida no mundo por uma mulher, que vincula o feminino ao mal. As mulheres tornam-se portadoras dos espíritos maléficos, seu instrumento, por meio do qual agem. O livro dos Provérbios, na Bíblia, está cheio de exortações quanto à periculosidade das mulheres. Assim também o Eclesiástico, que diz:
‘O vinho e as mulheres fazem sucumbir até mesmo os sábios, e tornaram culpados os homens sensatos’. (Ecl. 19, 3) E em outro lugar:
‘É melhor viver com um leão e um dragão que morar com uma mulher maldosa’. (Ecl. 25, 23)
Maomé adverte: ‘Depois que eu tiver partido, não haverá maior perigo ameaçando minha nação e nada mais capaz de criar anarquia e dificuldades do que as mulheres’.” Maria J. Nunes - Scielo

O que depreende a partir de todo esse contexto é que as tradições orais ou escritas, mitológicas ou religiosas, são usadas conforme os interesses daqueles que têm o poder de, ou são hábeis em, manipula-las, usando-as de acordo com os interesses do dominador servindo a finalidade a que atribuem estes. Dessa forma, o mito Lilith toma pra si a expressão máxima do caráter opressor da cultura patriarcal das sociedades ocidental e oriental como também a representatividade dos aspectos obscuros e negativos da personalidade da mulher nessas sociedades. Expressos na profunda repressão a sua sexualidade, negando a ela maternidade e sua e sua espiritualidade, dotando-a de uma agressividade nata. Processo que resultou na dissociação dos instintos femininos entre a maternidade e a sexualidade, ou duplo padrão moral, a mulher pra casar e ter filhos, Eva – embora de natureza ambígua (submissa/dócil e influenciável/volúvel) – e a mulher pra transar, Lilith, de sexualidade exacerbada, desnaturada (que mata recém-nascidos), insubordinada, cheia de lascívia e que perturba os sonhos dos homens castos.

2 comentários:

Dan Ramalho disse...

Pesquisa muito boa, Eufrázio! Mas, eu vejo algumas coisas nela que beira o impossível de se fugir, pelo menos nos próximos séculos. Cito apenas uma: as inúmeras narrativas, mas inúmeras mesmo, sagradas ou mundanas, onde a mulher é apresentada como "um enorme perigo" para o homem é porque eles a temem por serem elas muito mais poderosas que eles. O poder de gerar vida, pra mim é definitivo neste caso. Todos temem o que não podem controlar pela força física, atributo este que se gabam os homens desde que o mundo é mundo. Se a força não domina a mulher, então resta o domínio psicológico que dura milênios. O macho teme a fêmea, pois sabe o poder que ela exerce sobre ele e sobre todas as coisas. É história dos druidas encontradas nas Brumas de Avalon (M. Z. Bradley) e suas sacerdotisas, pré-cristianização. Infelizmente, algo aconteceu na história, bem lá atrás, onde homens e mulheres viviam, não disputavam. Agora, o mito de Lillith é recente demais para ter peso de cotação na interpretação do Gênesis, já que data, segundo sua pesquisa, do Século XIII. Mas, o mito é muito show. Devo ter muito filhos com a Lillith...:)

Ana Eufrázio disse...

Danilo, Gênesis, ou o mito da criação, é mais um mito copiado da tradição judaica e que auxiliou na explicação do pecado original e de outras coisas. Lilith faz parte da dessa tradição, que é anterior ao antigo testamento e, lógico, a própria Bíblia. O que ocorreu é que ela foi sistematicamente apagada da narrativa conforme ocorriam traduções e reedições. Veja “Ademais, o mito de Lilith ( Hurwitz, 2006, p. 85-89) povoou o imaginário sumério babilônico antes dos tempos bíblicos e habita atualmente a subjetividade dos movimentos sociais ligados à libertação da mulher especialmente aqueles ligados aos movimentos feministas e de gênero. A palavra, que a parece em Isaias 34:14: ‘Os gatos selvagens conviverão aí com as hienas, os sátiros chamarão os seus companheiros. Ali descansará Lilith, e achará um pouso para si’. Em português foi traduzida por lâmias, fantasmas e por vezes Lilith. No hebraico, derivado do aramaico lilitu que na Babilônia e na Assíria significa demônio feminino. A etimologia judaica derivou Lilith do aramaico layil, que significa ‘noite’ a lua 'negra’ correspondente a lâmia grega. Sicuteri (1985) fez uma pesquisa sobre as origens do mito de Lilith e sua integração na subjetividade feminina contemporânea. Este autor concorda que Lilith apareceu nas tradições orais, reunidas nos textos da sabedoria rabínica oriundos do Zohar que são escritos sumérios e acadianos. Lilith é um mito arcaico que segundo a mitologia rabínica, de tradição oral, antecede a narrativa mosaica e canônica da criação de Eva. Segundo esta narrativa mítica, ao contrario de Eva, que foi criada por Deus da costela de Adão,(segundo a narrativa de Gênesis), Lilith, de acordo com Hermínio, foi feita do barro, à noite”. http://www.revistaancora.com.br/revista_2/01.pdf