quinta-feira, 5 de setembro de 2013

As duas mulheres de Mario Lago




 “Ai que saudade da Amélia”, letra de Mário Lago e música de Ataulfo Alves, tornou-se sucesso no carnaval de 1942.

A letra descreve duas mulheres, uma que é insatisfeita com a situação financeira do casal e a outra resignada e submissa. Teríamos duas mulheres diametralmente opostas?
A Amélia de 1942 era conformada com a condição social do marido, solidária a ele; abdicava de sua aparência pra cuidar do marido e dos filhos; rejeitava a condição de mulher pra viver tão somente o papel de mãe e esposa; viveu a situação de miséria resignadamente, aceitando de bom grado todos seus dramas e dilemas. Não exigia, reclamava e nem resmungava. E portanto, Amélia era a mulher “ideal”, a mulher de “verdade”.
  A outra (que vou chamar de Patrícia) de aspirações pequeno-burguesas, não se conformava com sua condição social; exigia que o marido lhe fizesse as vontades e, por isso, era problemática. Era vaidosa e lhe fazia coisas que preferia não comentar. Situação que não passaria ao lado de Amélia. 
Caso se tratasse de um casal real; o que teria levado Patrícia substituir a “mulher de verdade”?
Provavelmente a morte de Amélia. Seria improvável que o casal houvesse separado, porque ela não deixaria filhos e marido. E tampouco ele a abandonaria, já que ela era o estereótipo da mulher ideal. Também havia a conjuntura política. O casal teria vivido em plena era Vargas, durante o Estado Novo, de cunho fascista. O presidente Vargas fazia apologia ao “chefe de família” e a “mulher do lar”, valores também propagados pela igreja, fatores que desestimulava os casais a se divorciarem. 
Então, como Patrícia foi parar nos braços de um homem que não teria condições materiais de lhe satisfazer os desejos?
A priori, Patrícia poderia ser tão inconsequente que não levou em consideração a situação financeira do noivo antes de dizer “Sim”. Outra possibilidade seria o arranjo entre o pai e o viúvo, prática que durou até bem pouco tempo. Não que o acordo possa ter se efetivado a revelia ou sem a anuência de Patrícia, nessa época era comum que as mulheres no ímpeto de saírem do jugo dos pais se submetessem a qualquer casamento. E por último, o amor romântico, que hipoteticamente sobrevive a qualquer obstáculo.
No contexto atual a música foi alçada a condição de hino machista. Embora, Mario Lago defenda que não teria sido essa sua pretensão. Lago se dizia a favor dos ideais igualitários e que Amélia era uma apologia à mulher companheira em contraposição a “dondoca”, tipo de mulher que afirmava não suportar. 
Entretanto, Amélia permanece representando o estereótipo da mulher submissa e resignada. Amélia se resigna face aos ditames do marido e o apoia incondicionalmente. Antes de qualquer outro papel Amélia é a mãe e esposa fiel. É, Amélia não trai e não se importa com as “raparigagem” do marido. Doa o sangue pra ajudar nas finanças do casal. Ela faz todas as atividades domésticas (afinal, esse serviço não é pra homem) e cuida dos filhos e marido. E, diferentemente da Amélia de 1942, ela ainda trabalha fora. 
Amélia acata com resignação os insultos do esposo (e até as agressões físicas) e compreende que ele o fez porque estava irritado ou bêbado. Amélia não tem passado. Não, ela não teve outros parceiros, “não conheceu outro homem”. Amélia cede sempre que o marido sexualmente a solicita. Quando muito, justifica sua recusa a suposta dor de cabeça. Mas ela nunca diz simplesmente que não esta afim ou que não esta no clima. Amélia permanece a “santa” a “imaculada”, a “puta na cama” e “dama na sociedade”. E a Amélia continua sendo a mulher “ideal” e a “mulher de verdade”.
Já Patrícia é exigente, perdulária e vaidosa. Gosta de luxo. Não acha bonito não ter o que comer e o vestir, pelo contrário, é aspirante à categoria de pequeno-burguesa, gostaria de ter luxos e não poupa esforços pra obtê-los do marido, ou pelo menos tentar. Ela é incompreensiva, não entende que o marido não pode lhe fazer as vontades. Ela é mimada, egocêntrica e fútil, privilegia o “ter ao ser”. 
Patrícia incomoda pelo inconformismo com sua condição social e não por afrontar o status quo e ameaçar os ideais machistas. Sua ambição ameaça tão somente o “macho” que a possui, já que corre o risco de ser trocado por outro de estrato social superior.  Patrícia se coisificou, tornou-se a bonequinha de luxo e fetiche que está à venda a quem der mais. Ela vive em função de sua vaidade, e sua aparência é sua mais-valia. Apesar do inconformismo, lamentavelmente, Patrícia não se emancipou dos apelos machistas, que tornam a mulher produto de consumo. Assim como Amélia, Patrícia, tornou-se a mulher “ideal”, já que ambas não questionam, não se rebelam e não tentam derrubar a ditadura machista.

    Fonte:http://www.sul21.com.br/jornal/2011/07/mario-lago-%E2%80%9Cfiz-tudo-o-que-foi-possivel%E2%80%9D/.

              http://passeandopelocotidiano.blogspot.com.br/2011/08/historia-por-tras-da-musica-ai-que.html.

     Imagens: http://3.bp.blogspot.com/-tX1QY3a8Aj4/T5mAv8f-q9I/AAAAAAAAB-g/JiG8sOg-hHc/s400/empregada-domestica2.jpg.

                  https://encrypted-tbn2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSWucG5_SbAKNkP8rxw7HRU7lEnqEc08zR4VSFFy_Q8-aG6NzXL
 

1 comentário:

Contra perseguição à trabalhador disse...

EM MINHA OPINIÃO TEM GENTE INTERPRETANDO ESTA IMAGEM DE FORMA ERRONIA, NÃO VEJO QUE A MULHER ESTA CONFORMADA COM ESTA SITUAÇÃO! A CLASSE TRABALHADORA NÃO TEM GÊNERO, TODOS SÃO EXPLORADOS PELO CAPITAL POR ISSO TEM QUE LUTAR, LUTAR ATÉ A VITÓRIA!