quarta-feira, 9 de abril de 2014

O CQC tenta se redimir da imagem de “pograminha” machista dos infernos e erra a mão



O programa CQC, sai da sua zona de conforto – hábito de fazer piada machista e homofóbica – e tenta mostrar a hipocrisia da nossa sociedade através de uma pegadinha bem bolada. E a novidade ficou por conta da vontade de mostrar a diferença entre o que as pessoas revelam em público e o que se diz numa conversa, digamos, mais íntima sobre a relação entre estupro e a vestimenta feminina.


O “pograminha” revelou aquilo que a gente sempre soube, mas que os institutos de pesquisa insistem em não levar em consideração, qual seja, a diferença do é publicável e o que não fica bem na fita para o entrevistando. Poucos tem coragem de dizer com todas as letras que é machista, racista ou homofóbico e dependendo das respostas dadas aos pesquisadores essas posições se confirmam. Então, quase ninguém se sente confortável confirmando as premissas “bater na parceira não deve ser crime” ou que “ mulher que é agredia e continua com o parceiro gosta de apanhar”, o que é corroborado pela pesquisa. Então é mais fácil mentir. Afinal, ninguém vai confirmar se você disse a verdade ou não. 




E será que é uma novidade – que nenhuma mulher percebe no seu cotidiano – a hipocrisia dessa sociedade? Pelo menos a mim não surpreendeu as opiniões contraditórias. As pesquisas dizem uma coisa e a gente sente outra. Um situação que reflete bem o costume do brasileiro,dizer “fazer ou pensar uma coisa” enquanto pensa e faz exatamente o inverso... Basta ver o que o CQC conseguiu registrar durante sua pegadinha, vejam.

Apesar de algumas pesquisas revelarem um índice elevado de pessoas que são intolerantes com os gritos ou e outras formas de violência contra a mulher, na prática o que vemos é uma enxurrada de comentários que pregam a violência como meio de submeter à mulher ás vontades do “macho” e o uso desta em larga escala até mesmo como simples meio de autoafirmação. Basta sair às ruas para observarmos que a comunicação entre muitos casais se processa preferencialmente através do grito (dentro dos supermercados nem se fale). Não me admira que os índices de violência contra a mulher sejam alarmantes. 

“Entre 1980 e 2010 foram assassinadas mais de 92 mil mulheres no Brasil, 43,7 mil somente na última década. Segundo o Mapa da Violência 2012 divulgado pelo Instituto Sangari, o número de mortes nesse período passou de 1.353 para 4.465, que representa um aumento de 230%. Já o Mapa da Violência 2013: Homicídios e Juventude no Brasil revela que, de 2001 a 2011, o índice de homicídios de mulheres aumentou 17,2%, com a morte de mais de 48 mil brasileiras nesse período. Só em 2011 mais de 4,5 mil mulheres foram assassinadas no país.”  Compromisso e Atitude.

“No Brasil, meio milhão de estupros e violência contra a mulher ocorrem anualmente. Meio milhão notificado, isto é, cerca de 1.400 por dia. Se isso corresponde apenas aos 10% que se sabe serem notificados, multiplica-se por 10 e chegamos a 14 mil estupros e violência diários. O fenômeno está no centro do machismo, não na beirada da patologia. Está no eixo da cultura patriarcal, não é ponta de curva. É o controle no limite físico da mulher – ou por agressão ou por estupro.” Fátima Pacheco Jordão.

Apesar de conseguir uns pontinhos com as feministas, o “pograminha” acabou cometendo uma tremenda gafe. Na mesma edição exibiu outra pegadinha, com o mesmo intuito da anterior, onde colocava uma garota para encenar uma suposta embriaguez e pegar os marmanjos que tentassem abusa-la. Vejam a cenas.

Devo admitir que o resultado, muito bom mesmo ver os caras tremerem nas bases foi bem legal. Como mulher, me senti vingada. No entanto, usar a travesti para “punir” o abusador foi péssimo. É no mínimo lamentável que os travestis e/ou transexuais sejam usadas com o objetivo de constranger alguém, causar riso ou como motivo de piada (tática muito usa pelo Pânico – programa da mesma emissora – e outros). 

Outra questão, achei extremamente temerosa a demora da produção em entrar na sala e interromper a “brincadeira”, deu tempo do cara bolina-la e até tocar seu pênis. Situação que poderia gerar uma reação agressiva na “vítima” da pegadinha contra a travesti. Caso isso acontecesse, estavam os dois sozinhos na sala, não havia ninguém para protegê-la, poderia ter ocorrido uma tragédia. Não preciso nem dizer que isso foi de uma tremenda irresponsabilidade, né?

E, deixando de lado os cuidados que deveriam ter sido tomados a fim de assegurar a integridade física da moça, podemos chegar a conclusão de que a travesti foi abusada. Enquanto se percebe claramente um cuidado especial com a outra garota, para que ela não seja tocada ou sofra qualquer abuso, no caso da travesti não há o mesmo tratamento. Eu sei que vai ter quem ache que a travesti gostou, o que não descaracteriza o abuso. Afinal, ela estava naquele local a trabalho, sendo tocada por um estranho, com o qual sequer teve tempo de criar qualquer relação de afetividade e teve sua intimidade violada. E pode até ter sido impressão minha, mas acho que ela se sentiu constrangida com a situação. 

Infelizmente, é senso comum que a travestilidade ou transexualidade sejam condições engraçadas e, portanto, motivos de piadas. Naturalmente, não foi superada a ideia de que a relação entre uma travesti e outra pessoa seja constrangedora. Digo naturalmente porque por exemplo, a relação entre Romário e Bianca, uma linda transexual, é o tempo inteiro invocada com a tentativa de diminui-lo enquanto homem e constrangê-lo. Parece-me que ainda não caiu a ficha da galerinha que há muitos homens que preferem as travestis, às mulheres cis, afinal elas podem ser atraentes, bonitas, caso da travesti mostrada no programa e tantas outras. E aí montam-se essas “peças” em que travestis ou transexuais são usadas para ridicularizarem um cara, situação que demonstra o quanto a televisão é um meio sexista e alimenta a homofobia na sociedade. 






3 comentários:

Carol Fonseca disse...

Mas todos falaram que não merecem ser estupradas, não importando o que estava vestindo

Ana Eufrázio disse...

Carol, acho que você não estava tão atenta quanto ao programa. Na hora que o produtor fingia que o microfone estava quebrado, as pessoas diziam exatamente o contrário "as mulheres provocam o estupro pela forma que se vestem" dá uma nova olhadinha no primeiro vídeo. Abraços!

Anónimo disse...

fala sério ! se veste como puta e quer ser tratada como santa.