A violência
contra a mulher está de tal forma institucionalizada no nosso país que um homem
público, vereador, não se furta de agredir publicamente uma professora que
estava exercendo seu direito de manifestação num espaço também público. O mais
surpreendente nesse episódio criminoso é que ele foi cometido por um religioso
(embora seja conhecido o caráter conservador e sexista da maioria dos evangélicos).

O discurso
não é nada inovador e não foge do clichê que apregoa que a mulher politizada é
uma desocupada ou mal amada. Esse é o pensamento mediano da nossa sociedade e
que lamentavelmente é repetido nas instituições que deveriam servir de referencial
no trato com as mulheres. As declarações não só são sexistas como também
representam uma clara ameaça à integridade física Iara. É inadmissível que um
vereador se refira a uma cidadã nestes termos, de forma desrespeitosa e
ameaçadora.
Acho
que esse senhor não se deu conta de que estamos num Estado que caracteriza a “incitação
ao crime”, a “injúria”, a “difamação” como crimes previstos no código penal
brasileiro. O referido vereador deveria ter no mínimo o cuidado quanto às
declarações que ele faz, pois em se tratando de pessoa pública deveria no
mínimo respeitar as leis do país.
O
legislador reproduz e propagada a cultura de opressão contra a mulher. Este
senhor tira o foco da discussão política e entra no campo da ofensa pessoal com
o intuito de desqualificar a manifestante, usando sexismo como meio de
intimidação. Quando os argumentos não podem ser minimamente fundamentados,
sejam nos aspectos legais ou políticos, costumeiramente a classe política
masculina recorre ao expediente machista de fazer ofensas pessoais como meio de
desacreditar a voz feminina que esta incomodando.
As formas como o machismo é
utilizado nas tribunas, nos tribunais, nos palanques e outros, são variadas, pode
ser de forma dissimulada, escrachada – como no caso abordado aqui – perniciosa,
sutil – como no caso da deputada federal Manuela D’avila (vídeo abaixo) – no entanto, a
raiz do problema é a mesma, o desrespeito com que são tratadas as mulheres,
estejam elas em pé de igualdade com o agressor, subordinadas a eles ou eles
subordinados a elas. Apesar da Deputada ser líder do seu partido, PCdo B, não escapou de ter sido alvo de machismo. Manuela foi vítima de uma grosseira tentativa de desqualificação de seu discurso e acusações (caso Siemens e Alstom), através da fala de Duarte Nogueira, ruralista, líder da bancada do PSDB.
A competência
feminina sempre esta sendo colocada a prova ou questionada, quando se trata de política
– proclamado reduto masculino – o machismo se torna ainda mais contundente. Ingressar
na carreira política e manter-se nela é um desafio quase intransponível para
classe feminina, embora tenhamos uma mulher na presidência. A eleição da Dilma
simbolicamente representou um grande avanço na inserção da mulher na estrutura política
do Estado, entretanto, não representou efetivamente um processo de reversão do machismo
institucional. As políticas para as mulheres
estão sendo negligenciadas e a cultura sexista não esta sendo combatida
sequer nas instituições governamentais.
O percentual de mulheres no Poder Legislativo em todas as suas esferas
(federal, estadual e municipal) é um dos principais parâmetros utilizados pela
comunidade internacional para identificar as limitações impostas pela questão
do gênero em cada país. No caso brasileiro, a sofrível representatividade das
mulheres ocupando vagas no Legislativo e o lento avanço em direção a uma
situação mais igualitária vem sendo criticada por organismos internacionais. Mesmo
que o país tenha eleito uma presidenta, o parâmetro utilizado mundialmente para
medir o nível de participação política das mulheres coloca o Brasil em último
lugar na América Latina. Considerando que a atual bancada feminina na Câmara
Federal representa apenas 8,77% do total da Casa – 45 deputadas – e no Senado
há 12 senadoras dentre os 81 lugares, o Brasil ocupa o 142º lugar nesse ranking, ficando atrás de países como
Afeganistão, Iraque, Timor Leste, Moçambique e Angola. Luciana Lima Agência Brasil.
A
baixa representatividade reforça a ideia de que os espaços de discussão
política são clubes masculinos, onde mulheres hipoteticamente não deveriam
entrar, conforme ressalta Altemar em sua fala sobre a câmara “É um lugar
público, não é uma zona, um cabaré não”. Pelo entendimento do vereador a
participação da manifestante e sua constante inquietação degradaria a imagem da
câmara. Entretanto, o vereador não entende que seu salário é pago pelo povo – inclusive,
e principalmente, pelos manifestantes – como também as despesas com todo o
aparelho estatal. Portanto, quando o vereador desrespeita uma manifestante, que
esta representando o povo em sua insatisfação, e o faz de forma a atingi-la em
sua condição de mulher, ele desrespeita a todas as outras mulheres que assim
como ela pretende ter sua, voz, dignidade e reputação respeitadas.
Não
aceitamos que declarações machistas como essas sejam propagadas impunemente. O
senhor em questão, faltou com o decoro, foi leviano e ofensivo. Por se tratar
de pessoa pública, deveria ter um mínimo de discernimento ao realizar qualquer
declaração. Não se devem julgar as atitudes de Iara, já que o legislador tinha
mecanismos pra coibir os excessos da manifestante. Ele teria a justiça, a
segurança da câmara e até a polícia para barra-la e ou puni-la caso houvesse
necessidade.
Conclamo
as organizações feministas, e o apoio das entidades da educação, a redigirem
uma carta de repúdio as declarações de Altemar para ser lida durante sessão na
Câmara de vereadores de Montes Claros.
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