terça-feira, 1 de outubro de 2013

Violência obstétrica: Um relato de experiência.

Por Ana Eufrázio

Em maio de 1998 engravidamos daquele que seria no nosso primeiro filho. Eu e meu marido estávamos casados há quase dois anos. A gravidez não foi planejada. Entretanto, estávamos bastante felizes com a possibilidade de sermos pais.

Lamentavelmente, três meses depois, após um susto, comecei a sentir contrações e ter sangramento. Imediatamente procurei atendimento médico. A obstetra me recomendou medicamentos que deveriam parar as contrações e cessar o sangramento. Tomei a medicação por quatro dias sem êxito. Retonei a médica e ela me recomendou que continuasse com a medicação por até uma semana, caso não houvesse melhora retornasse. Como não obtive melhora retornei a ginecologista.  Ela solicitou uma ultrassonografia para verificar com estava o bebê. Então, constatou-se que o coração dele já não mais batia. Nessa ocasião ela me informou que eu deveria parar com a medicação e aguardar que meu organismo expulsasse o feto. Caso continuasse sangrando por mais de 5 dias eu deveria fazer uma curetagem.  Meu marido estava me acompanhando e quando recebemos essa notícia ficamos arrasados. Eu chorei bastante e ele me deu todo apoio.

Sangrei por mais 8 dias. Até que fui levada ao Hospital Universitário Walter Cantídio. Lá fui atendida por um médico que fez um exame de toque na presença de três residentes homens. Depois deste, ainda vieram mais dois exames. E em ambos não sabia se era examinada por um médico ou residente. Senti-me profundamente constrangida com a situação. Naquele momento já ansiava sobremaneira fazer logo a curetagem e ir embora o quanto antes. O que eu não imaginava era que meu tormento estava apenas começando.

Vestiram-me apenas com uma bata com abertura nas costas e me encaminharam pra sala. Fui orientada por uma enfermeira a tomar uma medicação, enquanto ela me aplicava um sedativo. Fui colocada numa maca com as pernas completamente abertas. Tive mãos pernas amarradas.

Ainda não fazia ideia do horror que iria viver até que colocaram os instrumentais na minha vagina. Nessa ocasião comecei a sentir as dores mais cruéis que alguém pode sentir. Eu tinha a sensação de que estavam arrancando meu útero com as vísceras e órgão juntos. Hora eu sentia como se estivessem puxando tudo pra fora, outras como se estivesse perfurando com uma faca o meu útero e outras vezes era como se estivessem passando um ralador de coco pelo meu colo, útero e vagina. Eram dores tão fortes que eu berrava. Não eram gritos, eram berros. Só depois do procedimento entendi a orientação pra que não comesse nada por 12 horas e esvaziasse o intestino antes do procedimento. Porque com certeza eu teria me defecado e a todos na sala. Não lembro o que diziam durante o procedimento. E nem tinha como lembrar. Mas acho que eles me mandavam calar a boca. Não posso precisar quanto tempo durou essa tortura, mas me marcou até hoje.

Embora eu tenha saído da sala aliviada, pois já não sentia tanta dor, o meu drama ainda não havia terminado. Fui levada para enfermaria numa cadeira de rodas e ainda grogue. Meu marido não pode acompanhar o procedimento, apesar de ser profissional de saúde, ter um amigo na ala de obstetrícia e ter insistido em me acompanhar. Ele não pode sequer ficar comigo na enfermaria. Quando ele chegou pra me visitar pedi pra ele me levasse daquele lugar, pois as enfermeiras estavam sendo bastante hostis comigo.

 Quando cheguei ao hospital fui atendida pelo ginecologista amigo do meu marido. Durante essa consulta, as enfermeiras me chamavam de mãezinha. Apesar do “mãezinha” ter a intenção de ser carinhoso não era agradável ouvi-lo. Estava em processo de aborto e queria aquele bebê, então o “carinho” me causava dor. Eu não seria por muito tempo uma mãezinha. Principalmente depois daquele sofrimento todo. Já no dia da curetagem, as enfermeiras sequer respondiam minhas perguntas, tratava-me como lixo. Não hesitei, pedi que meu marido me tirasse do hospital, mesmo que pra isso nos responsabilizássemos por qualquer problema que decorresse da nossa decisão. Deveria ter ficado hospitalizada por mais 24 horas.

Foi difícil, mas consegui sair do hospital antes da liberação médica. Então, de sacanagem, as enfermeiras não permitiram que meu marido me pegasse no quarto. Elas mesmas me “prepararam” pra ir embora. Em vez de cadeiras de rodas fui levada andando pelo hospital, embora ainda estivesse grogue. Sai levando minhas roupas e bolsa nas mãos. Caminhava pelos corredores do hospital só de bata. A mesma com abertura de cima a baixo na parte de trás, fechada apenas por um nó no pescoço. Além de percorrer o hospital quase todo mostrando as nádegas, eu ia deixando um rastro de sangue pelo chão. Eu passei por tudo isso sem conseguir esboçar reação alguma, pois estava drogada demais pra reagir. Quando cheguei ao piso inferior e encontrei meu marido quase desabei. Contei-lhe tudo que passei e ele ficou chocado.

Apesar da nossa revolta achamos que seria um procedimento normal. Até que comentei com uma amiga sobre o horror que eu vivi e ela me informou que esse procedimento deveria ter sido realizado sob anestesia. Que deveria ter acordado somente depois da curetagem e sem dor. Não acreditei que passei por tudo aquilo apenas porque fui entregue a pessoas sádicas e doentes. Pessoas inescrupulosas que não sentem remorsos em causar dor em pessoas que elas sequer sabem quem são e porque estão ali. Eles acharam que eu havia provocado meu aborto e por conta disso resolveram me punir.

Fui vítima da violência obstétrica. Sofri por perder meu bebê e ainda fui punida por isso. Este tipo de violência é bem mais comum do que se pode imaginar, principalmente contra mulheres pobres. Apesar de não haver Estatuto do Nascituro me julgaram culpada de provocar meu aborto. Caso este estivesse em vigor nessa situação, além de passar por tudo isso talvez tivesse que responder um processo por provocar um aborto que eu tentei evitar.

O Estatuto do Nascituro, caso seja aprovado, poderá legitimar a violência que sofri e provocar mais sofrimento do que esse tipo de situação por si só já provoca. Tendo por exemplo que enfrentar um processo e durante ele ter provar que o abortamento foi espontâneo.

Somente pessoas sem o mínimo de discernimento é capaz de achar que, caso o abortamento seja descriminalizado, nós mulheres o usaremos como método contraceptivo. O aborto é extremamente traumático em qualquer circunstância. A mulher só opta por ele em casos extremos.  Mas ainda mais traumático seria levar adiante uma gravidez indesejada.
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