quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Como reconhecer um estuprador




 por Ana Eufrázio

O estuprador é um sujeito mal encarado, mal vestido, normalmente negro, usando roupas baratas, portando arma e que anda sempre se esgueirando, á pé, pelas ruas e calçadas escuras e/ou desertas. Certo?

ERRADO. Em alguns casos sim, esse pode ser o perfil do estuprador. Entretanto, essa descrição não reporta ao perfil primordial do agressor, que pode abranger os mais variados tipos (branco, loiro, negro, pardo, alto), classes sociais (rico, pobre) e aparência (bonito, feio).  


Entretanto, o mais preocupante é que em 35% dos casos, o estupro acontece dentro da casa da vítima. E somente em 18% destes casos, o autor do estupro usou algum tipo de arma, o que implica proximidade e facilidade em abordar a vítima.  E quase metade delas, 47%, tinha menos de 18 anos, o que indica que o agressor tinha alguma autoridade sobre elas. O número de casos aumenta nos finais de semana, especialmente a partir das 18 horas, notadamente ocasiões em que os parentes homens estão em casa, corroborando com a hipótese de o agressor não ser uma pessoa estranha à vítima e sua família. (Dados revelados através de pesquisa sobre vitimização feita por Kahn, quando ele trabalhava no Ilanud, o Instituto Latinoamericano das Nações Unidas para a Prevenção de Delito e o Tratamento do Delinquente)


No sudeste, tem aumentado o numero de ocorrência. No Rio de Janeiro, houve 434 ocorrências de estupro em março de 2011. Já em 2012, no mesmo período foram 545, um aumento de mais de 20%. Em São Paulo, a ocorrência do crime cresceu 18%. Passando de 919 para 1088 casos no Estado. (Marie Claire, A história do Mundo).


Os ataques “clássicos” de estupro, onde os crimes são cometidos em vias públicas abrange o total de 44%. E onde o estuprador é um desconhecido violento e armado, representa algo em torno de 35% e 40%, (informação repassada pela ministra Eleonora Menicucci, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República). Dentre essa margem percentual, devem-se incluir os estupradores brancos, bem vestidos e a pé, ou os que passeiam de carro e arrastam a vítima pra dentro do veiculo e as estupram dentro do automóvel mesmo. Também estão inseridos na estatística os caras que abordam as mulheres em ponto de ônibus, bar, ou outro lugar qualquer, as envolvem e levam pra um lugar ermo ou desconhecido pra também estupra-las. Enfim, há uma gama de situações e agressores, e o estuprador clássico, citado no primeiro parágrafo, talvez responda por algo em volta de 10% ou 15% (suspeição minha levando em consideração as variantes dos ataques).   

É fácil imaginar o estuprador “clássico” ou de “verdade” como o responsável pelo maior número de ocorrências. Façamos uma reflexão; quem é o principal suspeito de cometer qualquer tipo de crime? Prioritariamente, será a pessoa descrita no primeiro parágrafo deste post, seja homem ou mulher. Haja vista a população carcerária, composta primordialmente por negros e pobres. Então podemos concluir que o estuprador “clássico”, também é o assaltante “clássico”, o assassino “clássico” ou o bandido “clássico”, cometendo o estupro “clássico”. Mas grande parte dos estupradores “clássicos” está na cadeia ou está sob vigilância policial, da própria vítima potencial e pela população.

Perdoe-me, pois preciso fazer uma reflexão que não tem uma obvia relação com o tema, mas que compreendo estarem correlacionados. A gente tem sempre a tendência de relacionar a criminalidade ao bandido “clássico”, que é o homem negro, mal vestido e “mal encarado” (eufemismo pra feio). No entanto, a pessoa descrita anteriormente representa o trabalhador, o homem comum, o pobre; o homem que olha meu carro, serve à minha mesa, reforma minha casa, conserta meu carro... Que todos nós precisamos deles, e somos eles. Mas que no entanto a classe média e a elite nos ensinaram a temê-los. Somos pobres desconfiando de pobres. Isso porque estamos sempre com medo de que nos roubem, mesmo que seja o sexo. Por isso usei o “clássico” pra representar essa ideologia.


Mas voltando ao tema; embora o estupro “clássico” represente uma taxa de ocorrência relativamente baixa, esse é o que mais choca a sociedade, mais provoca indignação e povoa o imaginário de homens e mulheres. Usei o “clássico” também nesse caso pra diferenciar o que grande parte das pessoas entende como estupro de “verdade”, que seria o executado por desconhecido armado e violento, e o estupro sem uso de violência física ou arma, praticado por conhecido e que muita gente acredita não ser estupro.

Pois bem, estudos realizados nos EUA revelam que 70% dos casos de estupros registrados no país eram cometidos por conhecidos da vítima. Como deu pra perceber, o índice é bem parecido como o brasileiro, e como já falei num post anterior (Veja aqui) os agressores eram amigos, tios, padrastos, irmãos e até pais das vítimas. Como também já falei num post anterior, uma parcela significativa das mulheres estupradas foram vítimas de uma prática que tem se tornado bem comum, que é embriagar a vítima pra depois estupra-la.

Muitos usam deste expediente porque as “vantagens” seriam muitas, dentre elas; as vítimas não oferecem resistência ao sexo, não lembram exatamente o que aconteceu (lembra o caso do Big Brother Brasil?), sentem-se culpadas, sentem-se envergonhadas e, a maior “vantagem”, e pelos motivos elencados não denunciam os agressores. Infelizmente, estes estupradores contumazes permanecem livres pra irem reproduzindo esse crime em série.  

Também fazem parte do rol de estupradores contumazes os que exercem qualquer tipo de poder sobre a vítima, pai, padrasto, tio, irmão, amigo dos pais e outros. Esse segundo tipo, usa da “autoridade” que tem pra seriadamente estuprar a mesma vítima e usam toda espécie de ameaça pra mantê-la calada. Esse tipo de agressão é bem mais comum do que a gente imagina, e uma das mais violentas, pois produz um ciclo de estupros interminável e silêncio, onde a vítima se culpa por não repelir o agressor e por não conseguir denuncia-lo. Combater esse tipo de violência é uma tarefa bastante difícil por duas razões: a baixa quantidade de denúncias, Apenas 14% das vítimas desse tipo de agressão registram o fato na polícia, e a proximidade entre vítima e agressor, fator que representa uma ameaça real a sua integridade física, moral e psicológica. 

Lamentavelmente, percebemos que não se pode reconhecer um potencial estuprador. Pois ele pode estar em qualquer lugar; casa, trabalho, rua, ponto de ônibus, faculdade... Também pode ser alto, baixo, bonito, feio, bem vestido, mal vestido... E, infelizmente, pode ser qualquer pessoa, amigo, marido, pai, tio, avô, irmão...

Então, como se sentir segura num cenário como esse?

Há três maneiras, uma é revertendo a cultura do estupro, outra é expondo pra sociedade os estupradores e a terceira, é acabando com a impunidade. As três alternativas devem ser implementadas em conjunto pra que sejam eficazes. Mas não é tão difícil quanto parece, já que a primordial, acabar com a cultura do estupro, impacta sobremaneira sobre as outras duas medidas. Já que quando não há a culpabilizaçãoT da vítima ela se sentirá mais a segura pra denunciar o agressor e cobrar a punição do crime.


No site Bule Voador encontrei um artigo, escrito por Natasha Avital,Os estupradores estão contando com você, discorrendo sobre como evitar um estupro. Desse post retirei um trecho que achei bem interessante e reproduzi aqui em baixo. É sobre a cultura do estupro e como revertê-la. 

“Não perpetue mitos sobre estupro. Quando você culpa uma vítima de estupro porque a saia dela era muito curta ou o decote muito grande, ou porque ela bebeu demais; quando você diz que uma mulher não pode reclamar de um estupro quando demonstrou interesse sexual no agressor, o estupro ocorreu após uma ‘ficada’ ou um encontro, ou ela já havia feito sexo com ele antes; quando você reage a uma notícia de estupro com um comentário sobre a ‘irresponsabilidade’ ou ‘ingenuidade’ de uma mulher estuprada; quando você naturaliza o sexo forçado dentro de um namoro…você está dizendo pras mulheres á sua volta que, caso elas sejam estupradas nessas circunstâncias, você não vai ajudá-las. Que você vai dizer que a culpa foi delas. Que, se você, que é amigo/a, irmã/o, mãe ou pai, vai acusá-las de ser “vadias” ou “irresponsáveis” ou “burras”, então as pessoas que não a conhecem, a polícia, a promotoria, o juiz ou juíza, vão julgá-la de forma pior ainda. E, mais importante, você está dizendo a todos os estupradores á sua volta que, caso eles estuprem uma mulher nestas circunstâncias, você provavelmente vai defendê-los, e acreditar neles quando eles disserem que foi apenas um mal-entendido ou que eles não tiveram como se controlar, porque a mulher provocou.”

“Quando você diz que mulheres têm ‘que se dar ao respeito’ você está dizendo pras mulheres á sua volta que respeito é um privilégio que elas têm que fazer por merecer, e não um direito irrevogável de todo ser humano. Quando você conta ou compartilha uma piada sobre estupro, principalmente uma piada cujo mote seja ‘A mulher estuprada na verdade curtiu o estupro’ você está dizendo pras mulheres á sua volta que você não leva estupro a sério e que, dadas as circunstâncias, você inclusive o acha hilário.”

“Quando você naturaliza e justifica uma violência vista como menos grave, como o assédio verbal na rua, o assédio sexual no ambiente de trabalho, o assédio sexual que parte do professor, o assédio online, o assédio repetido do vizinho/colega de trabalho/colega de faculdade que não aceita ‘não’ como resposta, quando você diz que, lá no fundo, toda mulher gosta desse tipo de assédio, quando você diz que a assediada, quando ficar ‘velha e feia’, terá saudades dos dias em que desconhecidos mexiam com ela na rua… Quando você naturaliza e justifica a violência física que muitas vezes acontece em ambientes de festa, nos quais homens passam a mão em desconhecidas, arrancam beijos á força, cercam uma mulher em grupo e não a deixam ir embora antes de coagi-la a um beijo….você está dizendo pras mulheres à sua volta que existem certas violações do corpo e do espaço dela que não são ‘nada demais’, que a recusa dela não precisa ser respeitada, que o que ela tem a dizer sobre como aquela experiência a faz sentir não vale nada (afinal, ‘todo mundo sabe’ que, no fundo, no fundo, ela adorou a atenção masculina).”


E acho que o primordial, de tudo o que foi esclarecido, é que nós, mulheres, sejamos solidárias umas com as outras e lutemos umas pelas outras pelo direito de não termos nossos corpos e nossas almas violadas pelo simples fato de que os homens contam com nosso silêncio, nossa resignação, culpabilização e rivalidade, que eles constantemente alimentam e semeiam. Precisamos denunciar os casos de estupros, seja de qual tipo for, e nos apoiarmos na luta pela punição dos agressores.





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